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Economia Duelo
de gigantes no Brasil Mais uma guerra
das cervejas está em curso. Desta vez, entre duas multinacionais  Ronaldo
Soares
Na
última quarta-feira, a sala de guerra da AmBev, um núcleo montado
na sede da gigante cervejeira para monitorar as investidas dos rivais no mercado,
viveu seu dia mais agitado do ano. Por dois motivos. Primeiro, a publicação
de uma foto em que a bela atriz Karina Bacchi aparece beijando José Valien,
conhecido como o "baixinho da Kaiser". Parte da imprensa chegou a acreditar que
se tratava de um novo casal na praça, mas a tropa mobilizada pela AmBev
não tardou a descobrir a verdade: era jogada de marketing da concorrente.
Aliás, só mesmo tomando muita cerveja para acreditar que um casal
tão improvável como aquele estava se beijando para valer. O outro
motivo de alvoroço nas fileiras da AmBev foi que no mesmo dia começou
a ser veiculada na TV a nova campanha publicitária da Femsa, gigante mexicana
que comprou a Kaiser no início do ano. Os dois episódios marcaram
o início de mais uma guerra das cervejas. Esse promete ser um combate como
nunca houve no país. Mais barulhento do que o ocorrido em 2003, quando
a Schincariol lançou a Nova Schin e surpreendeu o mercado com o bordão
"Experimenta". Ou do que o duelo entre as brasileiras Brahma e Antarctica, no
início dos anos 90.
Caras
 | | Karina
Bacchi e o "baixinho": "namoro" é marketing para vender cerveja |
A
diferença é que agora o confronto envolve duas gigantes multinacionais
do setor brigando pelo consumidor brasileiro. A AmBev, dona de mais de dois terços
do mercado nacional (veja quadro abaixo), foi comprada em 2004 pela belga
Interbrew, num negócio que atingiu a cifra estratosférica de 11
bilhões de dólares. Juntas, formaram a Inbev, que é líder
do mercado mundial de cervejas, com 13,9% de participação. Sua nova
desafiante no mercado brasileiro, a Femsa (Fomento Econômico Mexicano S.A.),
é uma das maiores empresas de bebidas da América Latina, com operações
em nove países. No ano passado, seu faturamento foi de 10 bilhões
de dólares. Com contendores desse porte, é de esperar uma batalha
barulhenta por um mercado que, no Brasil, chega a 19 bilhões de reais por
ano (veja quadro abaixo). "Será uma competição acirrada.
Até hoje não havia aparecido ninguém com o bolso mais fundo
para encarar a AmBev. A Femsa tem e é capaz de suportar uma disputa a médio
e longo prazo", diz Rogério Poppe, especialista no setor de consumo da
Mellon Global Investments Brasil.
O
carro-chefe da campanha da Femsa será a Sol, marca já conhecida
no Brasil e importada do México. Um novo produto, com essa mesma marca,
começa a chegar às prateleiras de todo o país nesta semana,
nos mais variados formatos garrafa de 600 mililitros, lata, long neck e
chope. É uma concorrência direta com a Skol, da AmBev, cerveja líder
do Brasil. A Sol brasileira manteve o nome da original mexicana, mas tem sabor,
logotipo e embalagens diferentes. A fórmula foi desenvolvida ao longo de
oito meses, gastos com testes entre consumidores de diversos estados brasileiros.
A campanha publicitária da cerveja começou a ser veiculada na semana
passada, por meio de comerciais na TV que não mostravam o produto mas já
lançavam o bordão escolhido para divulgar a Sol: "Vamo aí".
A mensagem da campanha gira em torno do "direito" de escolher uma nova marca de
cerveja que todo consumidor pode exercer.
Paralelamente, a Femsa vai tentar reconstruir a imagem da Kaiser (que, segundo
pesquisas internas, é muito negativa) com uma campanha que já começou
causando polêmica. No fim de setembro, a empresa colocou no ar um teste
cego feito com 2.540 pessoas em nove capitais. O teste conduzido pelo Ibope atestou
que nenhuma outra marca era melhor do que a Kaiser. A AmBev recorreu à
Justiça, alegando que se tratava de mensagem enganosa. O que significa
nenhuma outra cerveja ter parecido melhor do que a Kaiser no teste? Que a Kaiser
é igual às outras? Com base nessa dubiedade, a AmBev conseguiu liminar
proibindo a veiculação do comercial do teste. O passo seguinte foi
o ressurgimento do "baixinho da Kaiser" recontratado neste ano, após
quatro anos longe da empresa como garoto-propaganda. A idéia de
ressuscitar o espanhol José Valien baseou-se em pesquisas que apontaram
que o personagem dele tem muita empatia com o público.
O comandante da investida mexicana é o publicitário Eduardo Fischer,
que já trabalhou para a rival foi o criador do slogan "Número
1", para a Brahma e depois se tornou um especialista em enfrentá-la.
"Meu estilo é jiu-jítsu: quanto maior o tamanho (do concorrente),
maior a queda", diz Fischer. Ele virou uma pedra no sapato da AmBev desde que
criou a campanha "Experimenta", um sucesso tão estrondoso que em pouco
mais de dois meses a Schincariol aumentou de 9% para 15% sua participação
no mercado e virou um fenômeno no setor de cervejas. A campanha foi marcada
por brigas na Justiça e no Conselho Nacional de Auto-Regulamentação
Publicitária (Conar), e principalmente pela polêmica envolvendo o
cantor Zeca Pagodinho, garoto-propaganda da Schincariol que traiu a marca e passou
a estrelar comerciais da Brahma. A
Femsa entrou no setor de cervejas brasileiro no início do ano ao comprar
a Kaiser por 68 milhões de dólares. A multinacional aposta que Fischer
conseguirá repetir o sucesso da campanha de 2003. Embora a empresa não
admita publicamente, sua meta imediata é tirar da Schincariol a vice-liderança
nas vendas. "Uma companhia do tamanho da Femsa não vai entrar no Brasil
para ser terceiro ou quarto lugar. Para fazer sentido investir aqui, ela vem no
mínimo para ocupar a vice-liderança", afirma Poppe, da Mellon. "Com
todo esse barulho, as vendas vão subir nos primeiros meses. O desafio será
manter o patamar depois, com outras ações, como o fortalecimento
da distribuição." A cervejaria não revela quanto está
investindo na nova campanha, que começou a ser elaborada há sete
meses. Mas executivos do setor cervejeiro estimam que o montante deverá
ser o dobro do que a Schincariol investiu em 2003 na Nova Schin, ou seja, algo
em torno de 250 milhões de reais.
Oficialmente, a AmBev não acusa o golpe da ofensiva mexicana no mercado
brasileiro. Os executivos da empresa desdenham a rival com o argumento de que
ela ocupa, com a Kaiser e suas demais marcas, a terceira posição
no ranking das fabricantes e está atualmente muito mais próxima
da quarta colocada, a Petrópolis, do que da segunda (a Schincariol). "Não
houve uma vírgula de mudança em nossas estratégias", diz
Alexandre Loures, gerente de comunicação da AmBev. Não é
bem assim. Internamente as discussões denotam um pouco mais de preocupação.
A sala de guerra da empresa estava em estado de alerta havia meses, aguardando
o início da ofensiva de Fischer. Além disso, como resultado imediato
do novo enfrentamento no setor, a AmBev já planeja um contra-ataque em
novo campo de batalha: o dos refrigerantes. Como a Femsa é também
a maior engarrafadora da Coca-Cola no Brasil (é dona do mercado de São
Paulo), a AmBev acha que essa é a ocasião ideal para ganhar terreno
nos refrigerantes, em que a rival reina absoluta. A empresa planeja alavancar
a Pepsi e o Guaraná Antarctica com o objetivo de aumentar a participação,
atualmente na casa dos 17% neste setor. Como se vê, a guerra está
apenas começando. Um brinde aos vencedores! |