|
|
Aviação
O controle de vôo falhou?
As investigações apuram se erros
no Cindacta podem ter contribuído
para o desastre do Boeing da Gol

Rafael Corrêa e Rosana Zakabi
Força Aérea Brasileira
 |
| Equipe de resgate ergue os escombros do Boeing:
em busca das últimas vítimas |
Transcorridas duas semanas da queda do Boeing
737-800 da Gol nas selvas de Mato Grosso, provocada pelo choque
com um jato Legacy e responsável pela morte de 154 pessoas,
as causas da tragédia ainda estão sob investigação.
Até agora, tem-se como certo que o Legacy voava a uma altitude
em que não deveria estar, diferente daquela determinada por
seu plano de vôo inicial. Também não há
dúvidas de que, no jatinho, o aparelho chamado transponder
que transmite os dados sobre velocidade, altitude e direção
para o controle aéreo em terra ficou inoperante em
parte do trajeto até o choque com o Boeing. Na semana passada,
reforçou-se a convicção de que as bases de
controle do tráfego aéreo também podem ter
contribuído para a série de falhas que derrubou o
avião da Gol. Não se trata, pelo que se sabe até
o momento, de responsabilizar os controladores de vôo pelo
ocorrido, mas de apurar a possibilidade de ter havido erro humano
e também de computadores no controle de tráfego em
Brasília, base do Cindacta 1.
De acordo com o plano de vôo,
o Legacy deveria voar na altitude de 37 000 pés até
Brasília e descer a 36 000 pés na UZ6, a aerovia para
Manaus. Quatrocentos quilômetros adiante, num ponto virtual
conhecido como Teres, subiria para 38 000 pés. Pouco antes
de chegar a Brasília, a tela do Cindacta 1 acusou que o transponder
da aeronave tinha problemas na indicação da
altitude do Legacy, apareciam alternadamente o número correto
e um ponto de interrogação. Esse símbolo é
um indicativo de mau funcionamento do equipamento. Os controladores
tentaram contatar a tripulação do Legacy por rádio,
mas não conseguiram. Quando o jatinho sobrevoou Brasília,
seu transponder passou a funcionar normalmente, mas voltou a falhar
em seguida. A passagem do jatinho pela capital federal coincidiu
com a troca de turno na base do Cindacta 1 em Brasília. Nesse
momento, teria começado a conjunção de equívocos.
Segundo fontes da Aeronáutica, o controlador responsável
pelo Legacy, ao deixar o posto, teria advertido o colega que o substituía
sobre os problemas no transponder da aeronave. Mas o novo controlador
acabou enganado por um detalhe técnico: nesse meio-tempo,
os computadores do controle aéreo corrigiram automaticamente
a indicação de altitude do avião, informando
na tela os 36 000 pés previstos originalmente, e não
os 37 000 pés em que voava de fato. Assim, o controlador
que assumiu o monitoramento do avião teria julgado que, embora
o transponder estivesse inoperante e não informasse a altitude
exata do Legacy, ele deveria estar trafegando a 36 000 pés.
Na verdade, estava a 37 000, na mesma altitude do Boeing.
Sebastião Moreira/AE
 |
| Trabalhos de resgate na selva e, abaixo, o
enterro de uma das vítimas: algo mais falhou além do transponder
|
Pedro Vilela/O Tempo/AE
 |
A falha seguinte da base de controle
do tráfego aéreo em Brasília teria sido não
alertar o Cindacta 4 sediado em Manaus, de onde partiu o
Boeing da Gol de que havia um avião com transponder
inoperante entrando em sua jurisdição. O manual de
instruções dos controladores determina claramente
em um de seus artigos que, quando uma aeronave apresenta problemas
no transponder, os centros de controle situados em sua rota devem
ser avisados prontamente. O Cindacta 1, por outro lado, sabia que
havia um Boeing prestes a entrar em sua zona de controle de tráfego
a 37 000 pés. Primeiro, porque o Boeing da Gol fazia um vôo
de carreira, um percurso regular de Manaus ao Rio de Janeiro. Segundo,
porque, minutos antes do desastre, um avião da Força
Aérea Brasileira (FAB) que fazia a mesma rota do Legacy,
mas a 34 000 pés, pediu autorização para subir
a 38 000 pés. O controlador determinou ao piloto da FAB que
esperasse o Boeing passar, pois seria arriscado subir e cruzar a
rota do avião que vinha em sentido oposto.
Caso o Cindacta 4 fosse avisado
dos problemas com o Legacy, o Boeing poderia ser desviado em sentido
vertical ou horizontal nesse caso, o avião faz uma
manobra de 30 graus à esquerda ou à direita, contornando
a aeronave em dificuldade. Esse desvio lateral é possível
porque as aerovias, as pistas virtuais por onde trafegam os aviões,
têm de 40 a 80 quilômetros de largura. "Em razão
do mau funcionamento do transponder, o desvio lateral seria um procedimento
adequado para aumentar a margem de segurança do Boeing",
diz o coronel-aviador Luiz Fernando Póvoas da Silva, especialista
em ciências aeroespaciais. O controle de tráfego aéreo
afirma que por cinco vezes tentou contato por rádio com o
Legacy para alertá-lo sobre o mau funcionamento do transponder,
sem sucesso. Não se sabe por que não tentou o contato
com o Legacy por meio de outras aeronaves próximas, um procedimento
comum em situações como essa, inclusive recomendado
pelo manual de instruções dos controladores de vôo.
Um levantamento feito pelo Centro
de Investigação e Prevenção de Acidentes
Aeronáuticos (Cenipa), órgão ligado ao Ministério
da Defesa, mostra que, dos 872 acidentes aéreos ocorridos
na aviação civil brasileira entre 1994 e 2005, 45
aconteceram por um conjunto de falhas que incluíam o controle
do tráfego aéreo. Atuar nessa atividade não
é fácil. Uma pesquisa da International Stress Management
Association do Brasil demonstra que o trabalho dos controladores
aéreos é o segundo mais estressante que existe, superado
apenas pelo dos policiais. Quando estão à frente da
tela do radar, monitorando o movimento das aeronaves e dando instruções
aos pilotos a todo momento, eles não podem se distrair um
instante sequer. Num avião a 800 quilômetros por hora,
poucos segundos podem fazer a diferença para evitar um acidente.
A jornada diária dos controladores é de oito horas,
mas, destas, duas devem ser obrigatoriamente dedicadas a pausas
para descanso. Para se tornar um controlador, é preciso ter
ensino médio e prestar concurso público. Caso seja
aprovado, o candidato faz diversos cursos de especialização.
O salário inicial é o de um sargento da Aeronáutica:
em média, 1.600 reais.
Embora a investigação
sobre o acidente com o Boeing da Gol esteja em boa parte concentrada
nas falhas do transponder, o controle aéreo não depende
apenas desse equipamento para garantir a segurança no ar.
Os centros de controle contam também com os chamados radares
primários, que mostram a posição do avião
no espaço aéreo, mas não conseguem precisar
sua altitude. No caso do desastre da Gol, mesmo com a falha do transponder,
seria possível detectar o Legacy indo em direção
ao Boeing, ainda que não se tivesse certeza da altura em
que ele se encontrava. A versão atual do transponder começou
a ser utilizada na aviação comercial quinze anos atrás.
Antes disso, eram usadas versões rudimentares do aparelho.
A primeira delas, inventada nos anos 60, apontava apenas a localização
do avião no espaço aéreo, de forma um pouco
mais precisa do que a dos radares primários. Na época,
como havia menos vôos, os aviões eram menos velozes
e voavam mais baixo, o aparelho dava conta do recado. O terceiro
recurso empregado pelo controle de tráfego aéreo,
além do transponder e do radar primário, é
o rádio. No caso do vôo do Legacy, pelo que se sabe
até agora, esse equipamento também funcionou de maneira
precária. Mais uma prova de que os acidentes aéreos
sempre acontecem por uma seqüência de erros nunca
por um só.
|
OS VIGIAS DA SELVA
Ricardo Benichio
 |
| Radares do Sivam: um deles viu
o Boeing e o Legacy |
O choque entre o Boeing
da Gol e o jatinho Legacy levantou uma sombra sobre
o sistema de radares na Amazônia. A dúvida
era se havia falhas no Sistema de Vigilância da
Amazônia (Sivam), projeto concluído no
ano passado e que custou aos cofres públicos
1,4 bilhão de dólares. Logo depois do
acidente, pilotos e especialistas em aviação
falaram em "zonas de sombra" inacessíveis aos
radares da região. Essa hipótese pode
ser descartada. Segundo uma fonte da Aeronáutica,
os registros gravados no sistema do Sivam mostram que
um radar primário captava o Boeing e o Legacy
no momento do choque. Já nos radares secundários
o Legacy não aparece porque seu transponder estava
inoperante.
A região onde
o Legacy e o Boeing da Gol se chocaram é monitorada
pelo Cindacta 4, que usa os radares do projeto Sivam
para controlar o tráfego aéreo. Embora
as comunicações por rádio naquela
área sejam problemáticas, ela está
coberta por três radares de longo alcance, dois
deles secundários que dependem do transponder
para detectar a aeronave e um primário,
que apenas identifica a presença do avião.
Com esse sistema, torna-se praticamente impossível
que se repitam acidentes como o do Boeing 737-200 da
Varig que, em 1989, fez uma aterrissagem forçada
na mata amazônica porque o piloto errou a rota
e, como a região não era servida por radares,
se perdeu. O Cindacta 4 conta com 25 radares de longo
alcance, cada um com capacidade de captar objetos a
até 360 quilômetros de distância.
Outros cinco radares estão instalados em aviões
que sobrevoam a Amazônia periodicamente. O sistema
permite "enxergar" 5,2 milhões de quilômetros
quadrados da Amazônia, fiscalizando desde queimadas
e extrações de madeira até o movimento
de pequenas aeronaves usadas por traficantes de drogas
entre as fronteiras.
|
|
|