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Sociedade
Espetáculo no altar
Construção monumental, exército
de
padrinhos, buquê importado quem casa
quer mesmo é impressionar os convidados

Laura Ming
Luiz Gustavo Simione
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| Gabriela entra na capela que construiu para
o casamento: um mês de obras que depois foram totalmente desmontadas
e removidas do terreno |
Existem limites para a grandiosidade e a busca ansiosa de novidades
que estão transformando as festas de casamento em eventos
palavra inevitável apoteóticos? A resposta
que vem do coração dos pombinhos de toda parte é:
não. No afã de se destacarem na multidão, visto
que a cerimônia em si é a mesma para todos, noivos
e noivas dedicam boa parte do frenético período de
preparativos arquitetando os detalhes que farão da sua festa
a mais comentada, a mais inesquecível. Os arroubos criativos
envolvem geralmente a escolha de um tema (Índia e trópicos
são recorrentes) ou de algum lugar distante, difícil
de chegar e cruelmente impossível de ser acessado de salto
alto. No topo da cadeia competitiva estão os noivos que se
esforçam para inventar uma coisinha só sua, que ninguém
fez ainda (e muitos vão imitar). "Se o convidado não
encontra nada novo, ele acha a festa sem graça. Hoje em dia,
tem de ter muita personalidade para fazer uma festa convencional",
analisa a produtora de eventos Vera Simão, uma das mais requisitadas
de São Paulo.
Um costume arraigado que não
dá sinais de refluir ao contrário, só
se expande é lotar o altar de padrinhos e madrinhas.
"Uma vez tive de encaixar 24 casais de padrinhos em uma capela para
sessenta pessoas", conta o carioca Roberto Cohen, que é cerimonialista,
denominação dada ao organizador de festas. Para não
esconder nem asfixiar os noivos, providenciou cadeirinhas em torno
do altar, no qual o batalhão se ajeitou. Mais fácil
foi o casamento de Juliana Dale, 21, com Luiz Severiano Ribeiro,
28, ambos de tradicionais famílias cariocas: o altar da igreja
era amplo o suficiente para comportar os doze casais de padrinhos
de cada lado (e mais sete daminhas e cinco pajens). "Eles chamaram
os melhores amigos. Não queriam que nenhum ficasse de fora",
justifica a mãe dela, Luciana. A recepção para
1.200 convidados marcou a reabertura de um salão de festas
do Copacabana Palace, que estava fechado havia doze anos. Na decoração,
palmeiras de 6 metros forradas com orquídeas formavam alamedas
entre as mesas. A lembrancinha foi uma garrafa de água com
o nome dos noivos impresso no rótulo idéia
original, porque os mimos costumeiros, de prata, cristal ou porcelana,
estão em extinção. "As noivas perceberam que
são caros e os convidados acabam dando ao porteiro", constata
outro cerimonialista, Ricardo Stambowsky. Outros itens obrigatórios
nos casamentos da moda são DJs, bem-casados e cardápios
ancorados em bobós e risotos (que se comem de pé).
Para o lixo da história das bodas foi, além das lembrancinhas,
a distribuição de perucas, óculos e apetrechos
carnavalescos em geral.
Ricardo Ribas
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| Juliana, Luiz e padrinhos: multidão no altar
e festa num salão do Copacabana Palace reinaugurado no dia |
Em busca do cobiçado toque
especial, a paulista Gabriela Ferreira, ela mesmo promotora de festas
de casamento, construiu a sua do zero. "Ergui a estrutura inteira
no terreno onde vou um dia fazer minha casa", conta. Primeiro passo:
a terraplenagem (num dia de chuva forte, a lama entupiu o encanamento
do vizinho). Em um mês, vinte operários produziram
jardins, um salão de festas e uma capela onde os bancos de
igreja foram alugados, o altar foi composto com peças de
uma tia freira e as portas, emprestadas de um antiquário.
Portas? Isso mesmo: "Eu queria que elas se abrissem quando eu entrasse",
explica Gabriela. Para completar o cenário, um lago próximo
foi todo iluminado. Depois da festa (que durou quase doze horas
e da qual 700 pares de pés cansados saíram piedosamente
acomodados em pantufas com carinha de galo ou galinha), toda a estrutura,
com exceção das plantas, foi desmontada e removida.
Uma logística, como se vê, de operação
de guerra, que exige até despachante especializado. "É
que muitas vezes são necessárias autorizações
da prefeitura, do Ibama", explica Cohen.
No doce embalo narcísico
da "festa dos sonhos", multiplicam-se os caprichos. "Lembro de uma
noiva que fez questão de entrar com um buquê igual
ao da princesa Letizia, da Espanha", diz a organizadora de festas
Gabriela Carvalho Dias, do Rio de Janeiro. "Tivemos de importar
muguets e tulipas, típicas flores européias, e mantê-las
refrigeradas até a hora do casamento, para não murcharem
com o calor." A cerimônia íntima e descolada também
pode dar uma trabalheira danada. A médica Helena Rossati
alugou um barco e, com vinte convidados a bordo, casou-se ao mar,
no Litoral Sul de São Paulo. O problema, no caso, foi o tempo.
"Eu ficava consultando a meteorologia para ver se ia chover", diz
ela. A data teve de ser alterada três vezes; o casamento,
previsto para fevereiro, só aconteceu em maio. Diferente
de tudo mesmo é a celebração oferecida por
uma agência inaugurada em São Paulo há três
anos: um casamento celta. "Primeiro faço uma avaliação
do casal e então escolhemos as cores e os elementos", diz
Beatriz Moura Leite, sacerdotisa e dona da agência. No altar,
frutas, flores e velas. Noivos e convidados participam de danças
coletivas que evocam tradições da cultura celta, amplamente
disseminada, como se sabe, no Brasil. Tudo de preferência
ao ar livre, "perto da energia que emana da natureza". Ninguém
há de esquecer.
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