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Edição 1978 . 18 de outubro de 2006

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Sociedade
Espetáculo no altar

Construção monumental, exército de
padrinhos, buquê importado – quem casa
quer mesmo é impressionar os convidados


Laura Ming


Luiz Gustavo Simione
Gabriela entra na capela que construiu para o casamento: um mês de obras que depois foram totalmente desmontadas e removidas do terreno


Existem limites para a grandiosidade e a busca ansiosa de novidades que estão transformando as festas de casamento em eventos – palavra inevitável – apoteóticos? A resposta que vem do coração dos pombinhos de toda parte é: não. No afã de se destacarem na multidão, visto que a cerimônia em si é a mesma para todos, noivos e noivas dedicam boa parte do frenético período de preparativos arquitetando os detalhes que farão da sua festa a mais comentada, a mais inesquecível. Os arroubos criativos envolvem geralmente a escolha de um tema (Índia e trópicos são recorrentes) ou de algum lugar distante, difícil de chegar e cruelmente impossível de ser acessado de salto alto. No topo da cadeia competitiva estão os noivos que se esforçam para inventar uma coisinha só sua, que ninguém fez ainda (e muitos vão imitar). "Se o convidado não encontra nada novo, ele acha a festa sem graça. Hoje em dia, tem de ter muita personalidade para fazer uma festa convencional", analisa a produtora de eventos Vera Simão, uma das mais requisitadas de São Paulo.

Um costume arraigado que não dá sinais de refluir – ao contrário, só se expande – é lotar o altar de padrinhos e madrinhas. "Uma vez tive de encaixar 24 casais de padrinhos em uma capela para sessenta pessoas", conta o carioca Roberto Cohen, que é cerimonialista, denominação dada ao organizador de festas. Para não esconder nem asfixiar os noivos, providenciou cadeirinhas em torno do altar, no qual o batalhão se ajeitou. Mais fácil foi o casamento de Juliana Dale, 21, com Luiz Severiano Ribeiro, 28, ambos de tradicionais famílias cariocas: o altar da igreja era amplo o suficiente para comportar os doze casais de padrinhos de cada lado (e mais sete daminhas e cinco pajens). "Eles chamaram os melhores amigos. Não queriam que nenhum ficasse de fora", justifica a mãe dela, Luciana. A recepção para 1.200 convidados marcou a reabertura de um salão de festas do Copacabana Palace, que estava fechado havia doze anos. Na decoração, palmeiras de 6 metros forradas com orquídeas formavam alamedas entre as mesas. A lembrancinha foi uma garrafa de água com o nome dos noivos impresso no rótulo – idéia original, porque os mimos costumeiros, de prata, cristal ou porcelana, estão em extinção. "As noivas perceberam que são caros e os convidados acabam dando ao porteiro", constata outro cerimonialista, Ricardo Stambowsky. Outros itens obrigatórios nos casamentos da moda são DJs, bem-casados e cardápios ancorados em bobós e risotos (que se comem de pé). Para o lixo da história das bodas foi, além das lembrancinhas, a distribuição de perucas, óculos e apetrechos carnavalescos em geral.


Ricardo Ribas
Juliana, Luiz e padrinhos: multidão no altar e festa num salão do Copacabana Palace reinaugurado no dia

Em busca do cobiçado toque especial, a paulista Gabriela Ferreira, ela mesmo promotora de festas de casamento, construiu a sua do zero. "Ergui a estrutura inteira no terreno onde vou um dia fazer minha casa", conta. Primeiro passo: a terraplenagem (num dia de chuva forte, a lama entupiu o encanamento do vizinho). Em um mês, vinte operários produziram jardins, um salão de festas e uma capela onde os bancos de igreja foram alugados, o altar foi composto com peças de uma tia freira e as portas, emprestadas de um antiquário. Portas? Isso mesmo: "Eu queria que elas se abrissem quando eu entrasse", explica Gabriela. Para completar o cenário, um lago próximo foi todo iluminado. Depois da festa (que durou quase doze horas e da qual 700 pares de pés cansados saíram piedosamente acomodados em pantufas com carinha de galo ou galinha), toda a estrutura, com exceção das plantas, foi desmontada e removida. Uma logística, como se vê, de operação de guerra, que exige até despachante especializado. "É que muitas vezes são necessárias autorizações da prefeitura, do Ibama", explica Cohen.

No doce embalo narcísico da "festa dos sonhos", multiplicam-se os caprichos. "Lembro de uma noiva que fez questão de entrar com um buquê igual ao da princesa Letizia, da Espanha", diz a organizadora de festas Gabriela Carvalho Dias, do Rio de Janeiro. "Tivemos de importar muguets e tulipas, típicas flores européias, e mantê-las refrigeradas até a hora do casamento, para não murcharem com o calor." A cerimônia íntima e descolada também pode dar uma trabalheira danada. A médica Helena Rossati alugou um barco e, com vinte convidados a bordo, casou-se ao mar, no Litoral Sul de São Paulo. O problema, no caso, foi o tempo. "Eu ficava consultando a meteorologia para ver se ia chover", diz ela. A data teve de ser alterada três vezes; o casamento, previsto para fevereiro, só aconteceu em maio. Diferente de tudo mesmo é a celebração oferecida por uma agência inaugurada em São Paulo há três anos: um casamento celta. "Primeiro faço uma avaliação do casal e então escolhemos as cores e os elementos", diz Beatriz Moura Leite, sacerdotisa e dona da agência. No altar, frutas, flores e velas. Noivos e convidados participam de danças coletivas que evocam tradições da cultura celta, amplamente disseminada, como se sabe, no Brasil. Tudo de preferência ao ar livre, "perto da energia que emana da natureza". Ninguém há de esquecer.

 
 
 
 
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