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Internacional
Um raro acerto
Apesar de seus duvidosos
critérios políticos, neste ano
o Nobel premiou um bom escritor
Murad Sezer/AP
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| Orhan Pamuk, em Istambul: críticas ao genocídio
de curdos e armênios quase o levaram à prisão |
A Academia Sueca, que indica anualmente
o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, nega qualquer motivação
política em suas escolhas mas ninguém acredita
nessa proclamada pureza literária. O anúncio, na quinta-feira
passada, de que o Nobel deste ano iria para Orhan Pamuk não
causou nenhuma surpresa: o recente processo movido contra o escritor
turco pelo governo de seu país levantou sua cotação
como um dos favoritos para o prêmio. Pamuk foi acusado de
denegrir a identidade turca ao lembrar, em uma entrevista, o genocídio
de armênios praticado pela Turquia otomana durante a I Guerra
Mundial. Desta vez, porém, o prêmio foi um duplo acerto.
Pamuk é um excelente romancista como o leitor brasileiro
vai poder comprovar com Neve, uma de suas obras-primas, que
chega às livrarias nas próximas semanas pela Companhia
das Letras. E sua postura política também merece admiração.
Ele é, sobretudo, defensor de um dos direitos humanos mais
importantes para um escritor: a liberdade de expressão.
A história do prêmio
é repleta de escolhas e exclusões duvidosas, nas quais
se nota um favorecimento a esquerdistas como o irrelevante dramaturgo
italiano Dario Fo. No ano passado, a distinção foi
para o inglês Harold Pinter. Embora ele seja reconhecido como
um bom dramaturgo, especula-se que Pinter só conquistou a
simpatia dos suecos por causa de suas críticas furibundas
à Guerra do Iraque (o jornal inglês The Guardian
já lhe atribuiu declarações em defesa do
genocida sérvio Slobodan Milosevic, mas a Academia preferiu
ignorar esse detalhe). Pamuk, ao contrário, sempre se definiu
como um escritor sem agenda política. "Sou essencialmente
um homem solitário, que escreve romances", disse recentemente
em uma entrevista ao jornal The New York Times. Em suas intervenções
na vida pública, porém, ele tem se revelado um crítico
vigoroso do obscurantismo. Em 1989, quando o aiatolá Khomeini,
do Irã, conclamou seus seguidores a matar Salman Rushdie,
autor do romance supostamente blasfemo Os Versos Satânicos,
Pamuk foi o primeiro escritor do mundo muçulmano a declarar-se
contra esse ato de barbárie. No ano passado, em uma entrevista
a um jornal suíço, pronunciou-se contra o silêncio
oficial que cerca o genocídio de armênios na I Guerra
e a recente opressão aos curdos na Turquia: "Trinta mil curdos
e 1 milhão de armênios foram mortos aqui, e, exceto
por mim, ninguém ousa falar a respeito", disse. Foi ameaçado
de prisão com base em uma lei que proíbe ataques à
nacionalidade turca. O processo acabou sendo retirado neste ano,
pois repercutiu muito mal na Europa justamente quando a Turquia
pleiteia o ingresso na União Européia.
Aos 54 anos relativamente
jovem para um Nobel , Pamuk é autor de uma obra vigorosa,
na qual se revelam os dilemas morais e culturais da Turquia moderna,
com destaque para a divisão entre a influência ocidental
e o tradicionalismo religioso muçulmano. Admirador de William
Faulkner (Nobel de 1949), ele diz perseguir a mesma linha do autor
americano: dramas regionais desenvolvidos em uma prosa modernista,
experimental. O autor de Meu Nome É Vermelho esteve
no ano passado no Brasil, na Festa Literária Internacional
de Parati mas ainda é pouco lido no país. O
Nobel acertou desta vez: está chamando a atenção
para um escritor que merece ser lido.
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