'
 


    

 
Edição 1978 . 18 de outubro de 2006

Índice
Millôr
Lya Luft
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Gente
VEJA.com
Veja essa
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Internacional
Mais um maluco
com a bomba

O ditador norte-coreano Kim Jong-Il
fez seu primeiro teste nuclear e pode
desencadear uma corrida armamentista
se a ONU não o punir como exemplo


Denise Dweck


Montagem sobre foto de Yao Dawei/AFP
Kim Jong-Il: o cabelo espetado não foi efeito da explosão

EXCLUSIVO ON-LINE
Perguntas & Respostas: Teste Nuclear na Coréia

A Coréia do Norte testou sua bomba nuclear no domingo 8. A comunidade internacional reagiu com furor, num raro consenso de que o regime de Pyongyang deve ser punido pela ousadia. Como fazer isso é outra história. Exceto pelo Japão, que cortou de imediato o comércio bilateral, é difícil um acordo sobre a resposta adequada. Na sexta-feira passada, o Conselho de Segurança das Nações Unidas examinava uma resolução impondo sanções econômicas à Coréia do Norte. Proposto pelos Estados Unidos, o texto é relativamente ameno (não sugere ações militares, por exemplo), mas a China e a Rússia ainda querem mais tempo para negociações diplomáticas. O que se tem agora são dois problemas num só. O primeiro, mais geral, diz respeito à proliferação de armas nucleares – os entraves existentes simplesmente não estão funcionando. O segundo é a Coréia do Norte propriamente dita. Ninguém sabe a que grau de insanidade os caciques desse país miserável e sem amigos estão dispostos para manter em pé seu modelo excêntrico de comunismo.

Não se deve confundir a aparência amalucada de Kim Jong-Il, o ditador norte-coreano, com falta de determinação. Seu cabelo pintado é penteado em forma de penacho. Usa saltos altos para disfarçar a pouca altura. Ele é tratado como "Estimado Líder" (seu pai, de quem herdou o poder, era o "Grande Líder"). Há uma década, o ditador usa com habilidade seu programa nuclear para obter vantagens dos Estados Unidos, do Japão e da Coréia do Sul. A estratégia transformou seu país no maior receptor de ajuda internacional em alimentos. Para acalmá-lo, o Japão aumentou o comércio bilateral e fez por lá alguns investimentos. A Coréia do Sul adotou uma política de aproximação e ajuda econômica chamada de "Raio de Sol". A China, o único amigo do regime norte-coreano, fez o que pôde para convencê-lo a moderar o comportamento.

Há algumas explicações para, apesar de todos esses benefícios, Kim Jong-Il ter decidido desafiar a comunidade internacional. A primeira é a hostilidade do presidente americano George W. Bush, que o identifica como um dos vértices do eixo do mal. É fácil imaginar o susto que a deposição de Saddam Hussein causou em Pyongyang. O regime norte-coreano vive um dilema causado pelo próprio anacronismo. Mesmo que disso dependa sua sobrevivência, não tem coragem sequer de cogitar de uma abertura econômica sob o rígido controle do Partido Comunista, como fez a vizinha China. Prefere rugir e ameaçar os vizinhos. Em julho, já tinha demonstrado seus maus modos com testes de mísseis capazes de atingir o Japão.

Morteza Nikoubazl/Reuters
O presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad: ele também quer a bomba


O que fazer? Sanções econômicas não dão bons resultados contra regimes fora-da-lei. A possibilidade de os chineses cortarem o envio de comida para a Coréia do Norte teria efeitos desastrosos para a população – metade dos alimentos consumidos no país vem da China –, mas isso não parece preocupar o governo norte-coreano. "Kim Jong-Il não vai desistir da bomba porque acredita que a sobrevivência de seu regime depende da demonstração de força", disse a VEJA o historiador americano Ted Galen Carpenter, autor do livro O Enigma Coreano. Uma ação militar é impensável. Não há como os Estados Unidos localizarem e destruírem todas as instalações nucleares norte-coreanas. Em caso de guerra, Seul, a capital sul-coreana, localizada a 50 quilômetros da cerca que divide as duas Coréias, seria facilmente arrasada pela artilharia norte-coreana.

O teste subterrâneo realizado a 110 quilômetros da fronteira com a China foi registrado pelos sismógrafos como muito fraco, colocando em dúvida a qualidade da bomba nuclear norte-coreana ou até mesmo sua existência. De qualquer forma, o artefato deve ser grande e pesado. Serão necessários alguns anos de trabalho para que seja reduzido de forma a caber num míssil de longo alcance. No momento, o maior perigo é o mau exemplo. A experiência norte-coreana e a reação internacional ao desafio estão sendo acompanhadas atentamente pelos aiatolás do Irã, outro regime fora-da-lei ansioso por se armar com ogivas nucleares. Entre todos os países que realizaram testes nucleares, apenas a África do Sul desistiu da bomba atômica. Em vão, Estados Unidos, China, Rússia, Inglaterra e França – os sócios originais do clube atômico e, não por coincidência, também os membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas – tentam impedir a proliferação do armamento nuclear. Com a Coréia do Norte, sobe para nove o número de países com esse tipo de arsenal. Israel e Índia armaram-se nos anos 70, seguidos pelo Paquistão, que testou sua bomba em 1998. Foi o Paquistão, por sinal, que vendeu tecnologia nuclear à Coréia do Norte e ao Irã. As maiores potências acabaram por aceitar o arsenal de Israel (o país, que se estima ter 200 ogivas, jamais admitiu ter armas nucleares), da Índia e do Paquistão. Em parte, isso se deve ao fato de esses países terem se armado contra inimigos bem definidos e possuírem governos respeitáveis. Com a Coréia do Norte e o Irã, ambos ditaduras imprevisíveis, a situação se torna muito mais perigosa.

O temor causado pelos norte-coreanos pode levar a Coréia do Sul e o Japão a procurarem armamento equivalente. Os aiatolás atômicos provocariam uma corrida armamentista no Oriente Médio. Turquia e Egito já anunciaram planos de construir reatores nucleares, teoricamente para fins pacíficos. "A partir do momento em que uma nação sabe fazer o combustível nuclear, o custo para construir a bomba é de apenas algumas dezenas de milhões de dólares", disse a VEJA o americano Henry Sokolski, diretor executivo do Centro para Educação em Política de Não-Proliferação, em Washington. O maior incentivo para a popularização dos arsenais nucleares é justamente o fato de serem uma opção barata em comparação ao custo de montar e treinar um enorme Exército com armas modernas. A Coréia do Norte tem um Exército de 1,1 milhão de homens, o equivalente a 5% de sua população. Mas os soldados são mal armados e mal alimentados. Com a bomba, Kim Jong-Il ganha poder de barganha contra a pressão internacional para abrir seu regime fracassado.

 
 
 
 
topovoltar