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Medicina Letal
por natureza Pesquisadores americanos
descobrem por que o vírus da gripe espanhola matou tanta gente
 Giuliana
Bergamo
Al
Grillo/AP
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pesquisadores Hultin e Taubenberger visitam o cemitério no Alasca onde encontraram
amostras do H1N1 nos pulmões de uma mulher morta pela gripe espanhola |
Pesquisadores americanos deram um grande passo na elucidação
de um dos maiores enigmas da medicina do século XX o que fez do
influenza H1N1 um vírus tão letal, responsável pela pior
pandemia da história, a gripe espanhola. Entre setembro de 1918 e abril
de 1919, 50 milhões de pessoas morreram em todo o mundo, o equivalente
a quase 4% da população mundial de então. Só no Rio
de Janeiro a gripe fez 15.000 vítimas fatais em apenas um mês, entre
elas o presidente Rodrigues Alves. "Com o tempo, formou-se a convicção
de que o vírus matou tanta gente porque encontrou uma população
abatida pela I Guerra Mundial, desnutrida, sem hospitais ou medicamentos adequados",
diz o virologista Edison Durigon, professor da Universidade de São Paulo.
Esse cenário facilitou, é obvio, a disseminação da
doença. Mas o que se descobriu agora é que o H1N1, não importam
as circunstâncias, tem mesmo um alto poder de destruição.
Isso porque a resposta imunológica deflagrada pelo vírus é
tão severa que o próprio organismo passa a atacar e destruir todas
as suas células. O mistério de tanta agressividade, no entanto,
ainda não foi totalmente desvendado. Falta entender quais os mecanismos
bioquímicos envolvidos nesse processo.
No experimento levado a cabo pelos americanos, ratos de laboratório morreram
apenas seis dias depois de infectados pelo vírus. Foi constatado que nos
pulmões dos animais havia uma quantidade de vírus dez vezes maior
que a encontrada nos dos camundongos contaminados com as versões mais comuns
do influenza. Esse fato explica por que os doentes de 1918 morriam com os pulmões
congestionados e enrijecidos. Sem oxigenação, ficavam tão
arroxeados que era difícil distinguir o cadáver de um branco do
de um negro. "A morte chega em poucas horas. Os doentes morrem sufocados. É
horrível ver esses pobres-diabos sendo abatidos como moscas", lê-se
num relato médico escrito na ocasião.
Ao longo de cinqüenta anos, estudiosos de diversos centros de pesquisa peregrinaram
pelas regiões mais geladas do planeta em busca de exemplares preservados
do vírus da gripe espanhola. A primeira peça desse quebra-cabeça
foi encontrada no vilarejo de Brevig Mission, no Alasca, onde, em cinco dias,
72 dos seus oitenta moradores sucumbiram ao H1N1. Em 1997, no cemitério
local, os americanos Johan Hultin e Jeffrey Taubenberger encontraram fragmentos
do vírus no cadáver exumado de uma senhora bastante gorda. A especificação
aqui do biotipo da mulher é importante porque explica as boas condições
em que as partículas do H1N1 foram encontradas o acúmulo
de tecido adiposo ajudou a preservá-las da ação do tempo.
De posse das amostras do H1N1, os pesquisadores deram início à reconstrução
do vírus. Graças aos avanços no campo da biologia molecular
e ao desenvolvimento de seqüenciamento genético, foi possível
reativar o H1N1. Hoje, essa amostra está guardada num laboratório
do Instituto de Patologia das Forças Armadas, em Washington, nos Estados
Unidos. Foi ela que serviu de base para o experimento com os ratos.
As últimas pesquisas com o H1N1 causaram alvoroço. Alguns especialistas
aplaudem o feito. Outros, porém, mostram-se reticentes. O temor é
o de que, ao desenterrar o vírus dos confins gelados do Alasca e usá-lo
em experiências, a ciência tenha criado uma poderosa arma biológica.
Além disso, o genoma do H1N1 está arquivado no GenBank, dos Institutos
Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, uma espécie de biblioteca
com informações detalhadas sobre o seqüenciamento genético
das mais variadas estruturas. Ou seja, qualquer pessoa pode ter acesso às
informações necessárias para a construção do
H1N1. O outro receio é que deixem o vírus escapar do laboratório
onde é estudado. O risco de
um acidente desse tipo vir a ocorrer é pequeno. Há duas décadas,
os laboratórios onde são manuseados vírus e bactérias
passaram a ter de contar com uma série de itens de segurança. Naqueles
de níveis mais simples, o 1 e o 2, faz-se a análise de agentes infecciosos
de baixa virulência e sobre os quais a medicina tem controle, como a Salmonella,
a bactéria responsável por quadros de intoxicação
alimentar. O influenza H1N1 está num laboratório de nível
3 de biossegurança, onde se trabalha com micróbios altamente patogênicos
para o homem, mas contra os quais a medicina dispõe de algum controle.
Nos de nível 4, estudam-se vírus como o ebola, em relação
aos quais não há defesa conhecida. O acesso a esses centros é
muito restrito. "Se, porventura, o vírus da gripe espanhola contaminar
algum pesquisador, é fácil identificar quem esteve com ele e, assim,
conter a infecção rapidamente", diz o infectologista Luiz Jacintho
da Silva, pesquisador da Universidade Estadual de Campinas.
Há 146 tipos de vírus influenza. De todos, o H1N1 permanece o mais
agressivo. Com o seu seqüenciamento genético, foi possível
determinar que ele pulou diretamente de seu hospedeiro natural (as aves) para
os seres humanos. O outro único influenza com essa característica
é o H5N1, causador da gripe aviária. Recentemente, a iminência
de um alastramento dessa doença entre seres humanos colocou o mundo de
prontidão. O avanço das pesquisas sobre o vírus da gripe
espanhola deve auxiliar na decifração do mecanismo de ação
do H5N1.
Os pesquisadores americanos recriaram o vírus
H1N1 em laboratório e infectaram ratos. Os principais achados dessa experiência
foram:
A resposta imunológica deflagrada pelo vírus da gripe espanhola
foi muito severa, o que levou o organismo dos animais à falência
Entre o primeiro e o terceiro dias de infecção, a quantidade
de partículas do vírus nos pulmões dos ratos contaminados
era 10 vezes maior do
que nos dos animais infectados por outros tipos de vírus da gripe
As cobaias
contaminadas pelo H1N1 perderam 13% do peso corporal
em dois dias de infecção
100% dos ratos infectados pelo vírus
da gripe espanhola morreram no sexto dia de infecção
Fontes: revista Nature, Edison Durigon, virologista, e Luiz
Jacintho da Silva, infectologista | |
Segurança máxima
Além do vírus da gripe espanhola, outros microrganismos altamente
letais estão guardados em laboratórios de biossegurança máxima
de níveis 3 e 4. Nos laboratórios de nível 3, os pesquisadores
usam máscaras com filtros de ar e o ar ambiente é reciclado no mínimo
doze vezes a cada hora. Nos laboratórios de nível 4, eles vestem
um macacão especial que isola o corpo do ambiente. Ninguém pode
permanecer no local por mais de três horas VARÍOLA
Em 1977, o vírus da varíola foi erradicado. No ano seguinte,
porém, no laboratório de uma universidade inglesa, deixaram que
ele escapasse pelos dutos do ar-condicionado. Uma pesquisadora morreu contaminada.
Na época, não havia normas de segurança para o manejo de
agentes infecciosos. Hoje, oficialmente apenas os Estados Unidos e a Rússia
têm amostras do vírus. Elas estão guardadas em laboratórios
de nível 4 EBOLA O
vírus ebola mata 90% dos infectados em três dias, em média.
A infecção causa hemorragia generalizada. Passados trinta anos desde
que o ebola infectou humanos pela primeira vez, no Congo e no Sudão, a
ciência descobriu muito pouco sobre ele. Ainda não se conhece seu
hospedeiro, por exemplo. Amostras do vírus são estudadas em laboratórios
de biossegurança de nível 4 SARS
Em 2003, o vírus causador da sars, a síndrome respiratória
aguda grave, em apenas duas semanas fez vítimas em dezesseis países,
sobretudo na China. Em menos de um ano, 10 000 pessoas foram contaminadas
e 774 morreram. Hoje, exemplares do micróbio estão guardados em
laboratórios de segurança de nível 3, onde se estuda a criação
de remédios contra a doença
Fontes: Edison Durigon, virologista, e Luiz Jacintho da Silva, infectologista
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