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Pobreza
Prêmio contra a miséria
O Nobel da Paz e o de Economia
vão para economistas que revolucionaram as idéias
de como produzir riqueza

Chrystiane Silva
Brendan Mcdermid/Reuters
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Pavel Rahman/AP
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| Edmund Phelps, de gravata, mostrou
que inflação não cria emprego. Yunus, ao lado, empresta dinheiro
aos pobres |
O Prêmio Nobel da Paz deste
ano foi surpreendente. Em lugar de ser entregue a alguém
envolvido em negociações para colocar fim a um conflito
armado, como era de esperar, a premiação foi concedida
a um banqueiro. Mais exatamente ao "banqueiro dos pobres", como
é chamado Mohammad Yunus, o Prêmio Nobel da Paz de
2006. Criador de um revolucionário sistema de concessão
de microcrédito, Yunus já emprestou dinheiro a 7 milhões
das pessoas mais miseráveis do planeta, a maioria delas moradores
de Bangladesh, um dos países mais pobres do mundo. Há
um claro paralelo entre a concessão do Nobel da Paz, na sexta-feira
passada, e a do Nobel de Economia, anunciado dias antes. O premiado,
Edmund Phelps, da Universidade Colúmbia, em Nova York, é
autor de outra revolução ao demonstrar que a inflação
não diminui o desemprego nem impulsiona o crescimento das
economias. Phelps derrubou a principal justificativa para a tolerância
com a inflação e levou os bancos centrais a agir de
forma mais intensa para manter a estabilidade dos preços.
O que há em comum entre os dois? A contribuição
para o entendimento e erradicação da pobreza.
Até os anos 60, os economistas
acreditavam que o aumento da inflação tinha o efeito
de reduzir os índices de desemprego. Teoricamente, isso aconteceria
porque, como os salários ficavam mais baixos em relação
aos preços dos produtos e serviços, as empresas ganhavam
fôlego para contratar mais gente. Essa teoria, conhecida como
curva de Phillips, dava aos governos a idéia de que poderiam
escolher um equilíbrio aceitável entre desemprego
e inflação. Se ocorresse algum desvio do nível
predeterminado, eles poderiam fazer um ajuste fino na economia,
mexendo nos impostos, nos gastos públicos ou nas taxas de
juro. Phelps demonstrou que a expectativa de elevação
dos preços no futuro faz com que os empregados pressionem
por aumentos de salário. Ou seja, a simples expectativa de
inflação impede novas contratações.
A longo prazo, a inflação, ao contrário do
que sugeria a curva de Phillips, diminuía a oferta de empregos.
Os trabalhos de Phelps tiraram essa área da economia da idade
das trevas e deram início aos esforços de desenvolvimento
sustentado pelo aumento da produtividade, e não mais pela
tolerância com a inflação. Devemos a Phelps
a noção de que o imposto inflacionário é
o mais cruel e regressivo de todos, pois tira dos pobres e dá
aos ricos. Fora um ou outro país africano, a inflação
alta é um mal que foi erradicado do planeta.
A atuação de Muhammad
Yunus é menos abrangente em seu escopo teórico e nos
benefícios que trouxe a parcelas mais pobres da população
mundial. Em sua própria definição, Yunus está
tentando transformar o círculo vicioso de "baixa renda, baixa
poupança, baixo investimento" no círculo virtuoso
de "baixa renda, injeção de crédito, investimento,
mais renda, mais poupança, mais investimentos, mais renda".
Professor de economia na Universidade
Chittagong, no sul de Bangladesh, Yunus criou o Banco Grameen (aldeia,
em bengali), em 1976. Seu cliente é aquele que não
consegue cumprir as exigências do sistema bancário
convencional. Mais de 90% dos empréstimos são concedidos
a mulheres. Há uma razão para isso: elas são
vistas como mais centradas que os homens no bem-estar da família.
Os juros cobrados por Yunus, em torno de 20% ao ano, não
são baixos, mas são compensados pela facilidade na
obtenção do empréstimo. O banco não
pede hipoteca nem fiador, e ainda assim a inadimplência é
muito baixa. O empréstimo é dado a grupos de quatro
pessoas. Assim, o mau pagador é pressionado pelos demais,
que não querem perder o crédito. O sistema criado
por Yunus, imitado em vários países, tem o mérito
de incentivar o empreendedorismo. A Fundação Nobel
entendeu que Yunus e seu banco mereciam o prêmio da Paz porque
as soluções contra a pobreza são armas poderosas
para reduzir um tipo bastante específico de violência.
Explica o norueguês Sverre Lodgaard, um dos membros do comitê
que escolheram o vencedor: "Mais pessoas morrem vítimas da
pobreza por ano do que nas guerras".
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