|
|
Cultura
Livre para copiar
Artistas abrem mão do copyright
como estratégia para divulgar
sua obra e ganhar mercado

Marcelo Bortoloti
Oscar Cabral
 |
| BNegão: músicas liberadas renderam sucesso
no exterior |
Quem pertenceu à geração do disco de vinil
certamente compartilhou alguma vez qualquer LP com um parente ou
amigo, gravando-o numa fita cassete. A cópia era um recurso
bastante utilizado principalmente entre aqueles que não tinham
dinheiro para comprar o disco, mas acontecia numa escala que nem
sequer arranhava os lucros da indústria fonográfica.
Foi-se a vitrola, veio a internet, e essa mesma prática ganhou
proporções assustadoras. Hoje, basta instalar no computador
um programa de compartilhamento de arquivos, como o eMule, e é
possível trocar músicas com milhões de pessoas
em qualquer parte do planeta. A dificuldade de controlar a difusão
de conteúdo gratuito na rede mundial levou Lawrence Lessig,
professor de direito da universidade americana Stanford, a idealizar
em 2001 um conceito novo para que artistas atrás da fama
pudessem tirar proveito da questão. O Creative Commons (CC),
um conjunto de licenças autorais com as quais o criador permite
acesso livre à sua obra, oficializa a cópia privada
ou pirataria sem fins lucrativos. Na prática, em vez
de ter "todos os direitos reservados", como asseguram as leis de
copyright, o autor opta por ter "alguns direitos reservados", como
a exclusividade do uso comercial, mas permite que a obra seja reproduzida
por qualquer pessoa ou até modificada, sem que isso configure
crime.
É uma estratégia
de negócio. Parte do pressuposto de que, quanto mais a obra
circula, maior é seu valor de mercado. O CC foi recebido
com desconfiança no princípio, mas em três anos
já tinha 60 milhões de obras licenciadas. Hoje o número
passa dos 140 milhões. No Brasil, músicos como BNegão,
DJ Dolores e o grupo Mombojó atingiram relativa projeção
liberando suas obras pela licença. O próprio ministro
da Cultura, Gilberto Gil, cedeu todo o disco O Sol de Oslo,
lançado em 1998 (embora não tenha aberto mão
dos direitos de nenhum grande sucesso da carreira). Fora do país,
grupos de rock importantes como Pearl Jam e Radiohead licenciaram
algumas obras pelo CC de olho no efeito viral da divulgação.
Foi a mesma estratégia utilizada por Fernando Gabeira com
seu livro Navegação na Neblina, lançado
durante a campanha eleitoral, e pelo cineasta Bruno Vianna com o
filme Cafuné, primeiro longa-metragem em CC no país.
Leonardo Lemos
 |
| Paula Lavigne: "É uma alternativa para quem
pode brincar" |
"É raríssimo um autor brasileiro, sobretudo da área
acadêmica, ganhar dinheiro com direitos autorais. Eu quero
é que a comunidade leia e discuta o meu livro, para isso
a licença é mais interessante", diz o jurista Joaquim
Falcão, que lançou A Favor da Democracia (Fundação
Joaquim Nabuco), licenciado pelo Creative Commons. Desde que nenhuma
empresa detenha os direitos, qualquer autor pode autorizar o uso
gratuito da sua obra. A vantagem do CC é que expressa esse
desejo em larga escala e com validade jurídica, sem a necessidade
de autorização individual, o que facilita a difusão.
Além disso, o selo Creative Commons se tornou uma grife de
respaldo principalmente fora do Brasil, onde existe um policiamento
maior na internet, e cresce a busca por conteúdos legais.
Para a produtora e empresária
Paula Lavigne, que administra os direitos autorais de Caetano Veloso,
a opção é perigosa. "É uma alternativa
para quem pode brincar disso", ironiza. "Temos primeiro de resolver
o problema da arrecadação de direitos autorais, que
aqui ainda é muito atrasada. Você abre um precedente
desses e o Brasil vai virar terra de ninguém." A lógica
da gratuidade de fato não faz sentido para a indústria
do entretenimento, que estruturou seu modelo de negócio em
cima dos direitos autorais, mas é bastante útil para
artistas que querem ver seu trabalho circulando. Quando lançou
seu disco-solo Enxugando Gelo, em 2003, o músico carioca
BNegão, 32 anos, ex-Planet Hemp, disponibilizou todo o conteúdo
na rede com a licença do Creative Commons. O CD "físico"
vendeu 15.000 cópias, uma vendagem razoável, mas a
repercussão foi maior lá fora, onde o disco só
chegou via internet. "Comecei a ser convidado para fazer shows na
Espanha, Inglaterra, Alemanha e Dinamarca, e o público de
lá era maior que o daqui", diz. Hoje, sua carreira é
mais forte na Europa, e a principal fonte de receita são
os shows.
O CC é válido para
qualquer tipo de propriedade intelectual, incluindo fotos, projetos
industriais ou fórmulas de remédio. Google e Yahoo!
já oferecem ferramentas de busca somente para arquivos com
esse tipo de licença. "Um dos jornais científicos
mais citados no mundo, o Public Library of Science, liberou
todo seu conteúdo por opção puramente econômica.
O acesso livre aumentava o número de citações
e por sua vez o prestígio do jornal", diz Ronaldo Lemos,
pesquisador da Fundação Getulio Vargas, um dos introdutores
do conceito do CC no Brasil. Embora seja uma opção
mais interessante para o autor, algumas empresas nacionais como
a gravadora Trama também estão aderindo à lógica
da distribuição gratuita. A Trama já lançou
dois discos licenciados pelo CC, dos grupos Mombojó e Totonho
& Os Cabra. "Disponibilizar gratuitamente na internet não
atrapalha a venda do CD", garante João Marcello Bôscoli,
diretor artístico da gravadora. "E, já que o público
vai fazer isso de qualquer maneira, por que vou me posicionar contra?",
questiona.
|