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Brasil Vivam
as privatizações! Lula
as abomina. Alckmin as defende com timidez, mas a venda de estatais é
a melhor maneira de combater a corrupção, o aparelhamento
e a ineficiência  Giuliano
Guandalini
Surgiu finalmente
na campanha eleitoral o debate sobre dois temas essenciais, as privatizações
e os gastos públicos. O candidato Lula da Silva e o desafiante Geraldo
Alckmin evitavam o máximo possível tocar nesses assuntos, considerados
sensíveis pela opinião pública. Mas Lula, desde que foi acuado
no debate do domingo, partiu para o ataque e acusou o tucano de ter como plataforma
a redução dos gastos públicos e a venda de estatais. "As
únicas coisas que eles sabem fazer é privatizar e cortar gastos",
afirmou Lula, como se isso fosse uma mácula, e não uma virtude.
O PT disseminou a boataria segundo a qual Alckmin venderia a Petrobras, o Banco
do Brasil e outras companhias públicas. Essas privatizações,
defendidas com bons argumentos, são corretas em princípio, mas impraticáveis
por inapetência do mercado para absorver esses gigantes. Alckmin foi falsamente
acusado de querer vendê-los (veja
a reportagem sobre o terrorismo eleitoral do PT).
Lula afirmou na semana passada, em entrevista ao jornal O Globo, que não
teria privatizado a Telebrás nem a mineradora Vale do Rio Doce. Miopia
ideológica do presidente-candidato. Foi a privatização da
Telebrás que levou o telefone às camadas mais pobres da população,
dando aos marceneiros, encanadores, mecânicos, costureiras, cozinheiras
e outros profissionais um imprescindível instrumento de trabalho. O Brasil
caminha para ter 100 milhões de telefones celulares, vendidos a preço
de banana e com tarifas ao alcance do bolso dos trabalhadores. A Telebrás
que Lula endeusa vendia um telefone por 5.000 dólares e, pior, não
o entregava. Só os amigos do rei conseguiam ver suas linhas instaladas.
Vivessem as telecomunicações ainda sob o jugo da Telebrás
hoje, só os petistas teriam direito a um telefone. Será que é
isso que atrai Lula no modelo estatal de telefonia? A Vale era uma empresa funcional
mesmo sob o comando estatal. Porém não pagava impostos e não
tinha capital próprio para se modernizar, crescer, nem podia atrair investidores
privados. Estava condenada ao sucateamento. Privatizada, tornou-se uma das maiores
empresas do setor. Suas ações valorizaram-se 500% nos últimos
cinco anos. O estatismo ruiu em todo o mundo, por sua ineficiência e estímulo
à corrupção. Sua reencarnação tropical sob
os auspícios do PT é anacrônica e altamente suspeita.
Outro tema vital, a contenção dos gastos públicos, também
entrou no debate pela porta dos fundos e de maneira enviesada. O assunto só
ganhou destaque depois que um dos formuladores do programa de Alckmin, o economista
Yoshiaki Nakano, defendeu o corte de gastos e o fim do déficit público.
O petista Marco Aurélio Garcia, coordenador do programa de Lula, foi rápido
no gatilho e acusou os tucanos de ter a intenção de enxugar programas
sociais. Nakano muitas vezes é criticado por suas propostas heterodoxas
sobre câmbio e juros, mas quem o conhece sabe que as críticas de
Garcia não fazem sentido. Para o tucano, que foi secretário da Fazenda
paulista, o ajuste deve ocorrer por meio da melhora na gestão pública,
e não pela redução do investimento social. Ainda assim, temendo
o desgaste político, Alckmin desautorizou Nakano. Quando o tema é
a Previdência, os tucanos são ainda mais escorregadios. Já
o programa de Lula não tem meias palavras: a gastança vai continuar
e não haverá reforma da Previdência. A confusão é
que petistas que trabalham nos ministérios da Fazenda e do Planejamento
sabem do drama nas contas públicas e defendem uma redução
dos gastos. Eles chegaram a articular, antes de Antonio Palocci ter caído
em desgraça, um projeto para zerar o déficit público. Afinal,
quem fala pelo presidente Lula, os integrantes de seu governo ou os companheiros
que escreveram o seu programa de campanha?
Se aumento de gasto público significasse progresso, o Brasil seria hoje
um dos países mais avançados do planeta. Em 1995, as despesas da
máquina federal consumiam 208 bilhões de reais. Em 2005, os gastos
chegaram a 364 bilhões de reais, um inchaço de 75% nesses dez anos.
A despeito de alguns tímidos avanços nos indicadores sociais, esse
aumento não se reverteu em benefícios para a população
como se apregoa. Além disso, o país cresce menos que todos os demais
emergentes, e os trabalhadores ganham hoje, em média, menos do que recebiam
há dez anos. O governo sugou recursos da economia e achatou o salário
dos brasileiros. Mas, se o governo
gasta tanto e os serviços públicos continuam péssimos, o
que explica esse abrupto avanço nas despesas federais? "A Previdência",
responde o economista Fabio Giambiagi, um dos maiores especialistas em contas
públicas do país. Giambiagi, que trabalha no Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea), acaba de concluir um livro no qual mostra como
as contas previdenciárias representam o mais sério desequilíbrio
fiscal do país (leia entrevista).
Em 1988, quando foi promulgada a nova Constituição, os benefícios
e aposentadorias pagos pelo INSS (sistema previdenciário dos trabalhadores
do setor privado) somavam o equivalente a 2,5% do PIB do país. No ano que
vem, essas despesas custarão 8% do PIB. O déficit entre as despesas
e a arrecadação supera 40 bilhões de reais ao ano. Sem conter
o avanço desses gastos não há como reduzir a carga tributária
nem ampliar o investimento público em infra-estrutura, dois requisitos
vitais para dar novo ânimo à economia. Afirma o economista Luiz Fernando
Figueiredo, ex-diretor do Banco Central: "O Brasil avançou em vários
aspectos, mas não fez nenhuma reforma estrutural nos últimos anos.
Sem isso não há a menor possibilidade de crescer aceleradamente.
Estamos ficando para trás. Enquanto todos os países estão
correndo, o Brasil está andando. Quase todos os países emergentes
têm fragilidades e problemas regulatórios. A diferença em
relação ao Brasil é que eles têm um Estado muito menor".
E como diminuir o Estado? Privatizando e cortando gastos. |