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Brasil Um
enigma chamado Freud Ele e o dossiêgate
são como fogo e dinamite. Por isso, uma operação
está em curso para mantê-los afastados. Se ela falhar, será
um deus-nos-acuda  Marcio
Aith
J. F. Diorio/AE
 | Antonio
Gauderio/Folha Imagem
 | SEGURANÇA
Freud Godoy (à esq.) passou de acusado a "inocente" depois que seu
acusador, Gedimar Passos (à dir.), mudou a versão do depoimento
que prestou à Polícia Federal |
Nas últimas
semanas, uma operação abafa foi deflagrada para tentar apagar as
chamas mais destruidoras levantadas pelo escândalo da compra do dossiê.
Nessa operação aparece o que pode ser a impressão digital
de um personagem muito próximo do presidente Lula. Esse personagem é
Freud Godoy, ex-segurança pessoal de Lula e que até sua demissão,
há quase um mês, ocupava o cargo de assessor especial do presidente.
Freud teve seu nome citado pelo ex-policial federal Gedimar Pereira Passos, aquele
que trabalhava com "tratamento de informações" na campanha de Lula
e foi preso no dia 15 de setembro passado num hotel em São Paulo junto
com o petista Valdebran Padilha. Gedimar e Valdebran foram flagrados com 1,7 milhão
de reais para a compra do dossiê falso que serviria para ligar os tucanos
à máfia dos sanguessugas. Depois de acusar Freud de ser o mandante
da compra do dossiê em seu depoimento inicial, Gedimar recuou, retirando
a única referência a Freud feita até agora na investigação
do caso. Depois desse recuo, Freud tem desfilado por colunas jornalísticas
e eventos sociais como um injustiçado. Tudo graças ao "novo" Gedimar,
que agora diz ter sido pressionado a entregar o nome de Freud por métodos
de tortura psicológica praticadas pelo delegado que o prendeu Edmilson
Bruno, o mesmo que divulgou as fotos do dinheiro usado para comprar o dossiê.
Bruno será alvo de uma investigação interna da Polícia
Federal e pode ser demitido do cargo.
Fotos
Paulo Whitaker/Reuters
 | ONDE
ESTÁ O DINHEIRO? O
candidato do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin, fez da pergunta
um bordão que doeu nos ouvidos de Lula |
O
que fez Gedimar mudar sua versão inicial e inocentar o assessor próximo
do presidente da República? A apuração dos repórteres
de VEJA mostra que a operação abafa seguiu um padrão mais
ou menos constante na crônica policial do governo petista. Primeiro se comete
um ilícito e depois se seguem outros ainda mais demolidores na tentativa
de encobrir o primeiro. A operação faxina do dossiêgate contou
com a colaboração jurídica do ministro Márcio Thomaz
Bastos (sempre ele), da mãozinha financeira do tesoureiro do PT, Paulo
Ferreira, e da força bruta de um cidadão até agora distante
do caso: José Carlos Espinoza como Freud, um grandalhão que
trabalhou como segurança de Lula e ganhou um emprego no governo. Espinoza
trabalhou no escritório paulista da Presidência da República
até se afastar para dedicar-se à campanha à reeleição
de Lula. Nessa operação, coube a Márcio Thomaz Bastos conversar
com Freud quando o escândalo estourou e indicar a ele um advogado de sua
confiança (do ministro, é claro). Thomaz Bastos cobrou esforços
diários de Freud, do advogado indicado por ele e do tesoureiro do PT no
que parecia ser a tarefa mais urgente: convencer Gedimar a recuar.
 | DÚVIDA
E CERTEZA Presidente diz que só a PF pode
definir os culpados, mas tem certeza da inocência de Freud |
Seguindo
o mesmo padrão dos escândalos do mensalão e da quebra do sigilo
do caseiro, a missão principal de Thomaz Bastos foi a de blindar o presidente
da República colocando-o a salvo das ondas de choque das investigações.
Tão logo Gedimar foi preso, o ministro telefonou para Geraldo José
Araújo, superintendente da PF em São Paulo, para perguntar: "Isso
respinga no presidente?". Na semana passada, Thomaz Bastos mobilizou-se para defender
o governo depois da notícia divulgada pelo jornal O Estado de S. Paulo
dando conta de um depósito de 396.000 reais que teria sido feito pelo investidor
Naji Nahas na conta bancária de Freud. Partiu do ministro Bastos a orientação
final sobre a forma pela qual Freud e Nahas deveriam negar a história.
Eles a cumpriram à risca. Não se tem a confirmação
do depósito. Essas operações só são verificáveis
com a quebra do sigilo dos envolvidos. Isso é uma violência. Ela
foi praticada ilegalmente por um ministro (Antonio Palocci) contra um simples
caseiro (Francenildo dos Santos Costa), e isso lhe custou o cargo e um processo
criminal. Quebrar o sigilo bancário e telefônico de Freud Godoy é
uma violência? Com base nos indícios levantados até agora,
o Ministério Público Federal decidiu, na semana passada, fazer esse
pedido à Justiça. A atividade do
outro segurança e assessor de Lula, Espinoza, também chamou a atenção
dos promotores. Ele foi um personagem ativo na negociação do providencial
recuo de Gedimar. Foi no apartamento de Espinoza em São Paulo que se colocou
de pé um plano e suas bases materiais capazes de dar a Freud a tranqüilidade
necessária para enfrentar as acusações de que estava sendo
alvo. Bons amigos, Freud e Espinoza são unidos também pelo devotamento
total a Lula. Em seu livro Do Golpe ao Planalto Uma Vida de Repórter,
o jornalista Ricardo Kotscho amigo de Lula desde 1984, seu assessor em
diversas campanhas e secretário de Imprensa e Divulgação
da Presidência até 2004 refere-se a Espinoza como o "faz-tudo
de Lula". Em muitas das viagens de campanha, Kotscho dividia o quarto com Espinoza
e Wander Bueno, ex-secretário de Governo da prefeitura de Santo André
na gestão Celso Daniel.
Carlos
Humberto/Obritonews
 | O
GUERREIRO DE LULA O ministro Márcio Thomaz
Bastos agiu novamente |
Segundo
um relato escrito por três delegados da Polícia Federal e encaminhado
a VEJA, Espinoza e Freud, acompanhados de dois homens não identificados,
fizeram uma visita a Gedimar na noite de 18 de setembro, quando ele ainda estava
preso na carceragem da PF em São Paulo. A visita ocorreu fora do horário
regular e sem um memorando interno a autorizando. Um encontro com um preso nessas
condições é ilegal. Ele pode ser encarado como obstrução
das investigações ou coação de testemunha. De acordo
com o relato dos policiais, o encontro foi facilitado por Severino Alexandre,
diretor executivo da PF paulista. O encontro ocorreu logo depois da acareação
regular entre Freud e Gedimar, um encontro de cinco minutos que, segundo o relato
oficial, transcorreu em silêncio da parte de Gedimar. O mais interessante,
no relato dos policiais, viria a seguir. Severino teria acomodado os petistas
em seu gabinete e determinado a Jorge Luiz Herculano, chefe do núcleo de
custódia da PF, que retirasse Gedimar de sua cela. Herculano resistiu,
pretextando corretamente que o preso estava sob sua guarda e que não havia
um "memorando de retirada".
A PF é uma organização
altamente profissional mas seus delegados são pessoas, eleitores e têm
lá suas ligações políticas com o PT e com seu adversário,
o PSDB. VEJA procurou esclarecer se os delegados que narraram as cenas citadas
o fizeram por motivação política e, principalmente, se elas
podiam ser levadas a sério. Em conversas telefônicas com os três
delegados da PF, duas delas presenciadas por repórteres de VEJA, Herculano
disse ter obedecido a ordem do delegado Severino de levar o preso Gedimar para
um encontro com os petistas. Ele alegou na conversa presenciada pelos repórteres
que o fez por receio de problemas futuros com seu superior hierárquico.
Disse também que receava confirmar o caso a jornalistas e deu a seguinte
explicação: "Depois nossos chefes vão dizer que sou louco
e vão tentar me demitir, como fizeram com o delegado Bruno", disse ele.
Foi nesse encontro que se armou o recuo de Gedimar? Não se sabe. Os policiais
da PF não sabem o que se passou na sala fechada. O carcereiro diz que não
ouviu nada. Nem gritos, nem sussurros.
Flavio Neves/Agencia RBS/Folha Imagem
 | DUPLA
DO BARULHO Dirceu e Lorenzetti, outro amigo de
Lula que, como Freud, pode desestabilizar o governo |
Procurado pela repórter Julia Duailibi na última
sexta-feira, o carcereiro Herculano não confirmou a história que
narrara aos colegas pelo telefone. Mas deu um jeito de dizer que também
não a desmentia. O superintendente da PF, Geraldo José de Araújo,
procurado por VEJA, apresentou ao repórter Marcelo Carneiro documentos
que provariam que não há possibilidade de Freud Godoy ter visitado
Gedimar no dia 18 de setembro. Nos documentos registros manuscritos das
visitas recebidas por Gedimar e de sua saída com destino à cidade
de Cuiabá não há nenhuma referência à
entrada de Freud Godoy na carceragem do órgão. Verdade. Freud Godoy
não entrou na carceragem. Foi Gedimar, segundo a denúncia dos policiais,
quem saiu para se encontrar com o segurança de Lula no conforto do gabinete
de Severino. Freud Godoy encontra-se no meio de
um turbilhão. A se confirmar sua visita ao preso Gedimar e caso se prove
que ela foi instrumental na mudança de 180 graus nas declarações
do preso, ele deve muitas explicações à Justiça. A
favor de Freud, é claro, se pode levantar a hipótese de que um homem
inocente tem o direito de tentar de todas as maneiras, mesmo as mais desesperadas,
provar sua inocência. Outros indícios parecem desacreditar a versão
do inocente em estado de desespero depois de ver seu nome envolvido em um crime
com o qual nada tem a ver. No encontro no apartamento de Espinoza, Freud e o tesoureiro
Ferreira conversaram sobre dinheiro e sobre como ele, sempre ele, poderia manter
a calma dos implicados de modo que não se sentissem tentados a envolver
gente mais graúda no PT e no governo. A quebra do sigilo bancário
de Freud Godoy poderia esclarecer muita coisa inclusive inocentá-lo
de vez. Existem suspeitas de que ele e sua mulher receberam dinheiro sujo do "valerioduto",
o mesmo que abasteceu as operações de compra de parlamentares chefiadas
pelo deputado cassado por corrupção José Dirceu, ex-ministro-chefe
da Casa Civil do governo do PT.  |
Paulo Liebert/AE
 | O
CENÁRIO DA VERSÃO 2 Sede da Polícia
Federal em São Paulo: denúncia (acima) diz que Freud se reuniu
com Gedimar nas dependências da PF. A superintendência da instituição
nega o encontro. Policiais o confirmam |
A
Caso Comércio e Serviços, empresa de segurança em nome da
mulher de Freud, recebeu 98.500 reais da SMPB Comunicação, empresa
de Marcos Valério. Outra empresa, a Caso Sistemas de Segurança,
recebeu 23.000 reais da Duda Mendonça e Associados. Até agora não
há explicação convincente para esses pagamentos realizados
entre 2003 e 2004. Freud foi fisgado pelo Coaf,
órgão do governo que monitora operações financeiras
suspeitas, em pelo menos uma oportunidade. Em 2006, ele depositou 150.000 reais,
em dinheiro vivo, na conta da empresa de sua mulher. A operação
foi considerada atípica por duas razões. A primeira é que
ela ocorreu em moeda sonante. A segunda é que, naquela data, Freud tinha
como única fonte de renda declarada o contracheque que recebia do Palácio
do Planalto, no valor de 6.650 reais. Por meio de seu advogado, contudo, Freud
limitou-se a informar que o dinheiro foi usado para o pagamento de equipamentos
de segurança da empresa de sua mulher. Em
sua ficha de serviços prestados à família Lula da Silva,
Freud exibe uma série de tarefas comezinhas. Quando Lula e familiares passavam
fins de semana em São Paulo, ele providenciava até as refeições
deles. Quando os filhos do presidente queriam assistir a um show de rock sem os
apetrechos oficiais, Freud providenciava toda a operação
do ingresso ao transporte, como fez, por exemplo, na apresentação
da banda U2, em fevereiro passado, em São Paulo. Nisso, já provocou
constrangimentos. Foi ele quem arranjou o DVD pirata do filme 2 Filhos de Francisco,
exibido no avião presidencial durante a ida de Lula a Moscou, em outubro
do ano passado. Certa vez, numa viagem oficial do presidente a Foz do Iguaçu,
Marisa quis presentear familiares com bugigangas do Paraguai. Coube a Freud Godoy
ir a Ciudad del Este e voltar com vários embrulhos de presentes, entre
brinquedos, perfumes e aparelhos eletrônicos. Monica
Zarattini/AE
 | O
TESOUREIRO E ESPINOZA Paulo Ferreira (acima),
substituto de Delúbio no PT, e Espinoza, amigo de Freud: operação
abafa | Paulo Whitaker/Reuters
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Mas as atividades de Freud não ficaram restritas ao
trabalho de serviçal. Além de ter gabinete no mesmo andar que o
presidente no Palácio do Planalto, Freud acompanhava Lula desde a primeira
campanha presidencial, em 1989. Era o segurança mais dedicado, o chamado
"mosca", aquele preparado para, em caso de um atentado, se lançar na frente
do atirador. Logo depois da posse de Lula, ele tentou se integrar ao esquema de
segurança do presidente. Acabou se envolvendo em atritos com os militares
responsáveis e se afastou. Mas continuou próximo a Lula. Ele era
um dos poucos assessores com trânsito livre no Palácio da Alvorada
nos fins de semana. Participava dos churrascos e organizava jogos de futebol.
Embora tenha se ocupado com outras atividades nos últimos quatro anos,
o ex-assessor nunca se desligou das questões de segurança. Em julho,
quando o PT alugou o prédio para sediar o comitê reeleitoral de Lula,
em Brasília, Freud encarregou-se de checar as condições do
local. A empresa Caso, que no papel pertence a sua mulher, foi contratada pelo
PT para, entre outras coisas, garantir a segurança das comunicações
e prevenir espionagem. Freud incumbiu-se também de escoltar o tesoureiro
caído em desgraça Delúbio Soares em suas andanças
por São Paulo com malas de dinheiro. O governo
tem feito um esforço, compreensível dada a proximidade de Freud
com o primeiro-casal, para tirá-lo da zona de choque do dossiêgate.
No fim de setembro, quando a Justiça Federal decretou a sua prisão
temporária, a PF estava impedida de cumprir a ordem judicial por força
da lei eleitoral. A PF vazou a decisão judicial, dando tempo para que Freud
conseguisse reverter a decisão numa instância superior antes de ser
preso. Além disso, antes mesmo de examinar os extratos telefônicos
de Freud, a polícia deu a entender que ele deixara de ser suspeito no caso
da compra do dossiê. Tudo porque, examinando as chamadas telefônicas
realizadas pelos petistas presos com o 1,7 milhão de reais, foram encontradas
apenas três ligações entre Gedimar e Freud. Como os telefonemas
teriam ocorrido em agosto, um mês antes da compra do dossiê, isso
inocentaria Freud de qualquer envolvimento no episódio. Sem que nenhuma
autoridade policial assumisse a informação, a versão foi
plantada pelo governo nos jornais na semana passada. O número de telefonemas
entre comparsas não inocenta ninguém. Mas também não
incrimina. Para que Freud Godoy possa retomar sua boa vida de fiel assessor do
presidente da República, precisa ser exonerado das suspeitas que pairam
sobre ele. Suspeitas que não foram fabricadas pelas "elites", pela "nossa
querida imprensa" ou pelo PSDB. Foram lançadas sobre Freud pela própria
maneira de ser do PT.
DE AUTORES A VÍTIMAS Como
Lula e o Partido dos Trabalhadores tentam transformar-se em vítimas de
um escândalo patrocinado por eles mesmos OS
FATOS... 1. Uma dupla de petistas foi
flagrada comprando por quase 2 milhões de reais um conjunto de denúncias
falsas contra tucanos. Com o dossiê nas mãos, o partido pretendia
eleger um governador em São Paulo e, em nível nacional, disparar
um tiro de morte contra José Serra 2.
Os dois petistas carregavam 1,7 milhão de reais, dinheiro cuja origem (ainda
incerta) pode resultar na impugnação da diplomação
de Lula, caso seja reeleito, ou estimular a instalação de um processo
de impeachment pelo Congresso Nacional 3.
Os mandantes têm laços com a campanha reeleitoral do presidente
Lula e com a própria instituição da Presidência da
República ...E COMO O PT TENTA DISTORCÊ-LOS
1. O presidente absolve seu partido da
armação sob o argumento de que ele, na condição de
candidato, saiu prejudicado. Como se golpes desse tipo nascessem para dar errado.
Na verdade, se tudo tivesse dado certo, Lula seria o maior beneficiado
2. Julgando-se vítima do episódio,
o presidente sugere agora a existência de um complô de adversários
políticos que, maquiavelicamente, induziram os "meninos" do PT a tentar
comprar o dossiê. Por trás desse complô estariam os verdadeiros
culpados no episódio 3. Como
o PT arriscou o pouco que restou de sua imagem na compra fracassada do dossiê
falso contra os tucanos, Lula diz que deve haver "coisas muito boas" dentro dele.
"Quero conhecer o conteúdo", diz Lula. Isso não passa de cortina
de fumaça: o dossiê é fajutíssimo. |
| Com reportagem
de Policarpo Junior e Camila Pereira
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