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Idéias de um séculoO relançamento de Minha Formação
Paulo Moreira Leite
Joaquim Nabuco reconquista seu lugar na história no 150º aniversário de seu nascimento. Como político, ele foi um dos gigantes da Abolição. Fundou clubes e animou campanhas, promoveu comícios e articulou ações decisivas – em fevereiro de 1888, três meses antes da Lei Áurea, foi a Roma pedir a Leão XIII um pronunciamento contra o cativeiro. Como pensador, deixou uma obra que descreve o Brasil a partir de um diagnóstico doloroso e vivo – a noção de que o país está condenado a permanecer como nação de segunda classe enquanto não resolver a herança escravocrata. "A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil", escreveu, em 1900, deixando uma idéia destinada a renascer na obra de todos os pensadores relevantes do século. Em Pernambuco, sua terra natal, está programada uma série de atividades para celebrar o aniversário, 19 de agosto. Em Brasília, a 24, suas idéias serão debatidas numa cerimônia especial. Nosso maior historiador vivo, Evaldo Cabral de Mello, vai ao Itamaraty proferir uma palestra com a participação de Fernando Henrique Cardoso. Há motivo para esse interesse intelectual. Nabuco dizia, por exemplo, que a escravidão brasileira promoveu a fusão de raças, ao contrário da americana, que fez guerra entre brancos e negros – e essa visão irá alimentar mestre Gilberto Freyre, o autor de Casa-Grande & Senzala. Nabuco também falava da estranheza do brasileiro em seu próprio país, noção revigorada e ampliada, depois, por Sérgio Buarque de Holanda, mestre-fundador da sociologia paulista. Isso para ficar em dois casos mais pesados. Há dois anos, foi relançado Um Estadista do Império, obra matriz de nossos estudos políticos. Com a reedição, na próxima semana, de Minha Formação, pela mesma Topbooks que editou a obra anterior, resta aguardar pela republicação de O Abolicionismo, prevista para o Natal, quando o essencial de Nabuco estará à disposição dos interessados. Curto e conciso, Minha Formação é um livro bom e estranho. O tom é de memórias – mas foi escrito quando Nabuco mal completara 50 anos. A ordem não é convencional. Ele dedica os primeiros capítulos à constituição de suas idéias de adulto – e só mais adiante falará dos primeiros anos, de sua infância num engenho em Pernambuco. Homem do século XIX, Nabuco escreve, pensa e aprende com os autores de seu tempo. O grande pensador político, para ele, é Walter Bagehot, autor clássico para a monarquia constitucional inglesa. Dos tempos de escola, o mestre lembrado é o barão de Tautphoeus, um revolucionário alemão que se exilou no Rio, onde se dedicava a formar a juventude bem-nascida do Império. O escritor predileto é Ernest Renan, um Jean-Paul Sartre da França na segunda metade do século passado. "Esse livro tem a sensibilidade de outro século, outras referências e outros valores", adverte Evaldo Cabral de Mello. Nascido em 1849, num país que então tinha poucas décadas de vida independente, Joaquim Nabuco foi um desses construtores do Brasil. Integrou uma geração de pioneiros que esculpiram as linhas básicas da nação, dando o impulso inicial a tendências profundas e vocações de longo prazo. Criado num engenho de açúcar até os 8 anos, morreu em Washington, onde era embaixador, e foi enterrado com honras de chefe de Estado. Tinha 60 anos, mas é como se tivesse vivido 120. Começou como gênio precoce, e homem maduro ajudou a fundar a Academia Brasileira de Letras. Numa sociedade que media o talento dos jovens pela cultura e pela oratória, Nabuco foi um adolescente com poemas que impressionaram o grande Machado de Assis. Só um pouco mais crescido escreveu um ensaio imenso sobre Luís de Camões. Antes dos 30 anos produziu um drama histórico, um ensaio e uma coletânea de poemas – em francês. Nenhuma dessas obras ultrapassa a linha da mediocridade pura, mas anunciam um temperamento inquieto e arroubos de talento. Filho de Nabuco de Araújo, uma das sumidades do Segundo Reinado, Joaquim Nabuco cresceu numa casa notável pela imensidão da biblioteca e pela animação de saraus e banquetes que reuniam ministros, senadores e personagens ilustres. No Colégio Pedro II, o mais avançado do país, foi colega de Rodrigues Alves, futuro presidente da República. Estudante da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo, sentou-se ao lado de Castro Alves, o patrono do romantismo, de Rui Barbosa, um dos cérebros da República, e de Afonso Pena, outro futuro presidente. Recém-formado, numa de suas primeiras exibições perante o júri mostrou oratória eficiente num caso difícil: defendeu um escravo acusado de homicídio, conseguindo livrá-lo da pena de morte. Candidato a um posto diplomático em Washington, só embarcou para os Estados Unidos quando a regente Isabel, ocupando interinamente o trono, resolveu assinar a nomeação. A intimidade da família com o núcleo do Império era tamanha que, certa vez, querendo forçar uma transferência do filho para Londres, sua mãe interpelou em tom impaciente o ministro das Relações Exteriores à saída de uma missa. Desde os tempos coloniais, o Brasil foi um país onde a Inglaterra marcava a economia, enquanto a França reinava nas idéias e nos costumes. Nabuco era original também nesse ponto. Definia-se como liberal inglês, dizia que Londres era a melhor cidade do planeta e defendia a monarquia constitucional como seu regime predileto. Nesse mundo com carruagens, navios a vapor, mulheres de espartilho, homens de casaca, colete e cartola, o telefone era pouco mais do que uma curiosidade, mas Nabuco só precisava do telégrafo para saber que vivia numa época em que haviam sido ligados "todos os teatros da humanidade". Classificando-se antes como "espectador de meu século do que de meu país", sua vida chama a atenção pelo esforço para romper com toda a visão provinciana dos problemas brasileiros, todo o ranço tacanho na forma de encarar a vida. Embora as viagens para Estados Unidos e Europa pudessem durar um mês, em travessias tão arriscadas que o próprio Pedro II se salvou por pouco de um naufrágio na Guanabara, perde-se a conta de suas estadias no exterior. Sempre de olho para os países mais desenvolvidos, usados como espelho para pensar o Brasil, a obra de Nabuco é atualizadíssima. Em Minha Formação conta que tomou horror à escravidão numa cena chocante: aos 7 anos de idade, um escravo adolescente atirou-se a seus pés, suplicando que o comprasse, para livrá-lo dos castigos de um senhor especialmente cruel. Nabuco não inventou o abolicionismo, mas deu-lhe consistência. Na Inglaterra, centro de combate em escala internacional, aprendeu quanto era inócua a política gradual de emancipação de escravos no Brasil, mais preocupada em aliviar o prejuízo dos senhores com a perda de cativos do que em terminar com o cativeiro. Principal voz a defender a abolição imediata, opunha-se à política do Império, de medidas lentas e graduais. Testemunha do esforço dos fazendeiros para substituir o escravo africano pelo imigrante europeu, que acabou deixando o negro marginalizado, Nabuco apontava os Estados Unidos como exemplo, falando numa "reforma agrária" que assegurasse o futuro dos libertos.
Essa postura fez dele uma flor exótica do Império, como se o deputado Luís Eduardo Magalhães tivesse abandonado ACM para virar paraninfo do MST. Em debates na Câmara, foi até chamado de "comunista", palavra nova na época. Gilberto Freyre define seu pensamento como um socialismo moderado, próximo do trabalhismo – britânico, naturalmente. Colocado na confluência de dois países, o Brasil da escravidão e o Brasil que iniciava a libertação dos cativos, Nabuco trazia os dois tempos históricos e as duas sensibilidades dentro de si. "Experimento uma singular nostalgia: a saudade do escravo", escreveu, menos de dez anos depois da abolição. Não se trata de saudade do açoite, mas o reconhecimento de boas lembranças da infância. Nabuco foi amamentado por uma mulher negra e cresceu num ambiente de fazenda, onde não se registra a presença de crianças brancas para fazer amizade ou brincar. Foi um dos primeiros a demonstrar que, nos engenhos nordestinos, escravos e proprietários viviam juntos há várias gerações. Eram vidas separadas, mas com contato entre si, situação oposta à dos cafezais e minas de diamante mais ao sul. Ainda assim, fica a questão. Nabuco não tinha saudade de uma pessoa que tivesse pertencido a sua família sob o cativeiro. Sentia falta do escravo. É estranho, mas se trata de um traço da época, em que a noção de raças superiores e inferiores era vista como se tivesse o mesmo valor científico que hoje se atribui à lei da gravidade. Numa de suas viagens a Paris, Nabuco encontrou-se com Adolphe Thiers, personagem da França republicana, e quis conhecer a opinião dele sobre o cativeiro. O ministro francês disse que era contra a escravidão, porém ressalvou que, em função da "inferioridade da raça", os brancos tinham o direito de "forçá-la ao trabalho, como a Holanda fez com os javaneses". Assumindo a abolição na agonia do Império, Pedro II premiava com títulos de nobreza os fazendeiros que libertavam escravos. Após o 13 de maio, quis transformar Joaquim Nabuco em visconde, mas a honraria foi recusada. Mesmo assim, ele teve direito a um ano e meio de glória e popularidade, até que, com a proclamação da República, viveu anos de ostracismo, antes de ser convidado para voltar à diplomacia. Nabuco era monarquista por erudição e espírito aristocrático. Combateu o cativeiro, pregou a reforma agrária, mas considerava o ideal republicano de igualdade, em que todos devem ter a chance de competir por tudo, "o paraíso dos ambiciosos, uma espécie de hospício". O curioso é que tinha refinamento intelectual para defender a monarquia com argumentos democráticos. Comparando Estados Unidos e Inglaterra, queixava-se do peso do poder econômico na vida americana, seja para garantir a defesa de um cidadão comum na Justiça, seja para promover um candidato a presidente da República. "A todos que têm de tratar com a administração, que estão na dependência da Justiça, a organização americana oferece menos eqüidade e menor proteção do que a inglesa," escreveu. Referindo-se à Inglaterra, chegou a comentar o seguinte: "O cocheiro e o estribeiro sabem que são criados de servir, mas não receiam abusos nem violências da parte de quem os emprega".
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