Japão

Morte na floresta

Impulsionado pela recessão, número de
suicídios cresceu 35% no último ano

A floresta de Aokigahara, na encosta do Monte Fuji, o mais conhecido cartão-postal do país, sempre foi um local de piqueniques e passeios atualmente é também o preferido dos suicidas no Japão. A polícia recolheu 73 corpos entre as árvores no ano passado, bem mais que os 55 do ano anterior. A diferença reflete um grave fenômeno: os japoneses estão cometendo suicídio em números recordes. Foram 32.863 pessoas no ano passado, um aumento em torno de 35% em relação a 1997. O suicídio no Japão tem pouco do estigma que ele carrega nas sociedades européias e americanas. Na literatura e na história, é tratado como um assunto de consciência ou uma nobre forma de protesto. O que está ocorrendo atualmente, contudo, é uma explosão sem paralelo desde os anos 40. Cerca de noventa pessoas se matam todos os dias, de acordo com as estatísticas da polícia. A quantidade é tão impressionante que o jornal Asahi Shimbun, o principal do país, considera que se vive uma "situação de emergência nacional".

Algumas causas da onda de suicídios são facilmente identificadas. Trata-se da recessão econômica e da vergonha e do desespero causados pelo desemprego. Quase metade dos suicidas do ano passado era de desempregados com idade entre 40 e 60 anos. Bem à moda japonesa, o que leva à morte não são tanto os problemas financeiros, mas o sentimento de marginalidade social decorrente da perda do emprego. O Japão está especialmente chocado com o aumento de 40% no número de suicídios entre jovens na faixa dos 20 anos. Tradicionalmente, o ingresso no mercado de trabalho nessa idade é visto pelos japoneses como uma iniciação na vida adulta. A dificuldade atual de obter o primeiro trabalho está levando os jovens a pensar loucuras.

A economia só não serve para explicar o assustador aumento de 53,1% no índice de suicídios de adolescentes com menos de 19 anos. Nessa fase da vida, acreditam os estudiosos, o jovem se mata sobretudo por problemas com a família ou com a escola. Outro fenômeno japonês são os casos de suicídio múltiplo. Um estudo realizado por uma ONG que combate abusos contra crianças mostrou que dificuldades econômicas estão por trás da maioria dos ikka shinju famílias em que os pais preferem, antes de se suicidar, matar os filhos para não deixar como herança o legado da falência. No ano passado, 72 crianças foram vítimas desses suicídios múltiplos. Um aumento de mais de 50% em relação a 1997.

O suicídio por motivo de honra, chamado de seppuku ou haraquiri, está arraigado nas tradições japonesas. Mas andava inteiramente fora de moda. Por anos, o índice de suicídios no Japão foi inferior ao da maioria dos países ricos. A situação inverteu-se completamente nesta década (veja quadro). Como a posse de armas é rigorosamente proibida, muitos japoneses optam por se jogar debaixo de trens. Só na Linha Chuo, em Tóquio, uma das mais visadas, morreram 33 pessoas no ano passado. A idéia de morrer no Monte Fuji surgiu em um best-seller romântico de 1971 e ganhou impulso com a publicação de O Manual Completo do Suicida, em 1993. Quem chega hoje ao bosque é recebido por cartazes exibindo conselhos em letras garrafais: "Sua vida é um precioso presente de seus pais. Uma vez mais, tente pensar neles, em seus irmãos, irmãs e filhos. Não sofra sozinho". Não tem dado grandes resultados.

 
 

 




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