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Pernambuco Um dia de coronelPrefeito do Recife ameaça jornalista com Dina Duarte e Angelica Tasso
A cena protagonizada pelo prefeito foi o ponto mais dramático de uma polêmica que agitou a capital pernambucana nas últimas duas semanas. Na origem de tudo está a denúncia de que a prefeitura do Recife teria censurado uma obra do artista plástico pernambucano Francisco Brennand, um dos mais conhecidos escultores brasileiros. Brennand tinha sido encarregado de projetar um monumento em comemoração aos 500 anos do Brasil. A obra seria paga pela prefeitura, em parceria com o governo do Estado, o Ministério da Cultura e a Universidade Federal de Pernambuco. Ficaria exposta no cais do Porto do Recife. O escultor apresentou o projeto seis meses atrás. Era um totem com a aparência de um foguete e cerca de 30 metros de altura, feito de cerâmica e cobre. Há duas semanas, Brennand foi procurado pela comissão encarregada de executar a obra. Um dos responsáveis, o arquiteto Reginaldo Esteves, comunicou-lhe que o projeto tinha sido modificado. Sem dizer quem eram os autores da mudança, Esteves mostrou a Brennand a maquete de um novo monumento, em que as formas do totem original eram inteiramente descaracterizadas e ganhavam a aparência de um minarete árabe. Ao ouvir a notícia, Brennand ficou revoltado. Em seguida, mandou uma carta ao prefeito, com cópias para os jornais locais, na qual anunciava que estava desistindo do projeto. "Não tenho mais idade para ser censurado", explicou. "Tenho um nome a zelar e não vou assinar uma obra que não é minha."
Brennand conta que em momento algum lhe foi explicado o motivo da censura. Até agora, nenhuma autoridade assumiu a autoria do veto. Rapidamente, porém, uma versão apimentada tomou conta das páginas dos jornais pernambucanos. Em pequenas notas e comentários, dizia-se que a obra fora modificada por ordem da primeira-dama do município, Jane Magalhães. Ela teria achado a forma do totem original excessivamente fálica, uma alusão explícita ao órgão sexual masculino. Incomodado com essas insinuações, Roberto Magalhães mandou publicar uma nota oficial nos jornais com um alerta às pessoas que criticavam sua mulher: "Considero a honra pessoal como um valor maior e não vou assistir a este cerco que me é feito sem me defender e reagir", escreveu. Dois dias depois, Orismar Rodrigues insinuou em sua coluna social que o veto ao monumento de Brennand tinha partido de alguém que nada entendia de arte. Orismar não citou nomes nem fez referência direta à mulher do prefeito. Mas, segundo a versão corrente no Recife, foi exatamente isso que o prefeito entendeu nas entrelinhas. E decidiu tirar satisfações de revólver na cintura. "Orismar teve o azar de ter sido o primeiro a não levar a sério meu comunicado", justificou-se o prefeito, numa entrevista a VEJA na última quinta-feira. "Eu havia proibido de mexerem com a minha honra e falarem de minha mulher." Bons costumes – Casada com Roberto Magalhães há trinta anos, Jane Magalhães é uma mulher religiosa, de personalidade forte e ativa defensora dos bons costumes. Advogada e professora licenciada da Universidade Federal de Pernambuco, só admite ser chamada de "doutora Jane", até mesmo pelo marido. Como presidente da Legião Assistencial do Recife, LAR, entidade municipal de assistência social, ela tem, entre outras funções, a responsabilidade de organizar o Baile Municipal do Carnaval pernambucano. No comando da festa, proibiu a execução da música Xô Satanás, do grupo baiano Asa de Águia, segundo notícias publicadas na ocasião pelos jornais locais. Em outra deliberação, também amplamente noticiada em Pernambuco, Jane vetou os biquínis e o desfile de modelos menores de 18 anos no concurso de Rainha do Recife, patrocinado pela prefeitura. Outro episódio, mais pitoresco, teria ocorrido em 1983, quando Roberto Magalhães governava Pernambuco, segundo uma história que já se incorporou ao folclore político local. Ao participar de um almoço no palácio, o então secretário de governo Syleno Ribeiro, amigo de juventude do governador, teria comentado que o sapoti, fruta típica da Região Nordeste, servido como sobremesa, era "uma dádiva de Deus". A primeira-dama, que também participava do almoço, teria se levantado e acusado o secretário de cometer uma blasfêmia ao invocar em vão o santo nome do Senhor. Em seguida, teria expulsado-o da mesa. Até hoje, Syleno nunca confirmou nem desmentiu o episódio. Da mesma forma, nunca mais freqüentou a casa dos Magalhães. "Reservo-me o direito de não fazer comentários sobre aquela senhora", disse ele a VEJA na última quarta-feira. Apontada como pivô da crise envolvendo o prefeito na censura a Francisco Brennand, na semana passada a primeira-dama não deu declarações sobre o assunto. Magalhães, que não tem porte legal de arma, se diz arrependido de ter mostrado o revólver ao jornalista, mas avisa que não aceitará novas críticas e provocações a respeito do episódio. "Minha mulher é vítima de preconceito religioso", afirma. "Para defendê-la, faria tudo de novo. Apenas deixaria o revólver em casa." |
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