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Tales
Alvarenga
Monopólio da virtude
"O PT está
se deixando tentar perigosamente
pela perspectiva de que é o único
depositário da virtude e do interesse nacional"
Durante duas décadas, correntes internas
do PT defenderam a conquista do poder para a extinção
do modelo "burguês" de democracia. Era assim que eles se referiam,
com desdém, às sociedades que respeitam as liberdades
individuais e o sistema de livre mercado. Para muitos ideólogos
do PT, a redenção final do Brasil viria com sua transformação
numa grande Cuba, sem congresso, Justiça e imprensa independentes.
Há facções instaladas no partido que continuam
pensando assim.
Para vencer as eleições presidenciais
de 2002, o PT renegou o passado revolucionário e apresentou-se
como uma legenda reformista. Em áreas vitais, conseguiu agir
contra sua herança ideológica, para desespero das
facções radicais abrigadas na legenda. O PT amadureceu.
O Brasil passou a dormir tranqüilo tendo no governo uma agremiação
que no passado se embriagara com sonhos revolucionários.
Essa fase parecia ultrapassada. Nos últimos
dias, descobriu-se que muitos dos batalhões liderados por
Lula tiveram uma recaída. Deram sinais de que estão
se deixando tentar outra vez e perigosamente pela
perspectiva de que são os únicos depositários
da virtude e do interesse nacional.
Num espaço de poucos dias, tentaram
enquadrar a produção cultural do país com regras
inventadas em Brasília. Procuraram, de maneira disfarçada,
introduzir ameaça à liberdade de imprensa. Matreiramente,
o governo apropriou-se de um projeto de automutilação
profissional, preparado pela central sindical petista, que se denomina
Fenaj Federação Nacional dos Jornalistas. O
projeto pretende criar uma comissão que examinará
a conduta de jornalistas e empresas de comunicação,
podendo cassar o registro de profissionais considerados inadequados.
Como se tudo isso não bastasse, anunciaram que funcionários
públicos que não sejam ministros ou chefões
de departamentos não poderão mais dar informações
sobre investigações internas em suas áreas.
Numa semana em que o governo parecia inebriado
com a perspectiva de aumentar seu controle sobre a sociedade, tucanos
e pefelistas apareceram com uma bomba. Acusaram setores do PT de
ter usado informações sigilosas da CPI do Banestado
para montar um dossiê contra adversários políticos
e figuras de relevo social e econômico. O objetivo seria estimular
a boa vontade dos investigados e bombardear concorrentes em campanhas
eleitorais. Alguns petistas confirmaram que possuem esses dados
"um caminhão deles". E que poderão usá-los,
se necessário. É estarrecedor. Nem mesmo a ditadura
militar se dispôs a uma operação dessa envergadura
para concentrar mais poder.
O relator da CPI do Banestado, o petista José
Mentor, que tem fidelidade canina ao chefe da Casa Civil, José
Dirceu, pediu acesso a 400.000 operações
de câmbio registradas no Banco Central. Além disso,
solicitou a quebra do sigilo bancário e fiscal de centenas
de pessoas contra as quais não havia nenhum indício
prévio de operações irregulares. Essa iniciativa,
além de grotesca, é ilegal. Não se pode quebrar
sigilo por atacado, muito menos sem apresentar previamente indicações
de que o investigado fez algo errado. Chegou a hora de o partido
chefiado por Lula e José Dirceu se convencer de que não
é mais uma simples legenda. Tornou-se o governo de todos
os brasileiros. Precisa deixar para trás o entulho salvacionista
que acumulou enquanto treinava para conquistar a chefia da nação.
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