Edição 1867 . 18 de agosto de 2004

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Tales Alvarenga
Monopólio da virtude

"O PT está se deixando tentar – perigosamente – pela perspectiva de que é o único depositário da virtude e do interesse nacional"

Durante duas décadas, correntes internas do PT defenderam a conquista do poder para a extinção do modelo "burguês" de democracia. Era assim que eles se referiam, com desdém, às sociedades que respeitam as liberdades individuais e o sistema de livre mercado. Para muitos ideólogos do PT, a redenção final do Brasil viria com sua transformação numa grande Cuba, sem congresso, Justiça e imprensa independentes. Há facções instaladas no partido que continuam pensando assim.

Para vencer as eleições presidenciais de 2002, o PT renegou o passado revolucionário e apresentou-se como uma legenda reformista. Em áreas vitais, conseguiu agir contra sua herança ideológica, para desespero das facções radicais abrigadas na legenda. O PT amadureceu. O Brasil passou a dormir tranqüilo tendo no governo uma agremiação que no passado se embriagara com sonhos revolucionários.

Essa fase parecia ultrapassada. Nos últimos dias, descobriu-se que muitos dos batalhões liderados por Lula tiveram uma recaída. Deram sinais de que estão se deixando tentar outra vez – e perigosamente – pela perspectiva de que são os únicos depositários da virtude e do interesse nacional.

Num espaço de poucos dias, tentaram enquadrar a produção cultural do país com regras inventadas em Brasília. Procuraram, de maneira disfarçada, introduzir ameaça à liberdade de imprensa. Matreiramente, o governo apropriou-se de um projeto de automutilação profissional, preparado pela central sindical petista, que se denomina Fenaj – Federação Nacional dos Jornalistas. O projeto pretende criar uma comissão que examinará a conduta de jornalistas e empresas de comunicação, podendo cassar o registro de profissionais considerados inadequados. Como se tudo isso não bastasse, anunciaram que funcionários públicos que não sejam ministros ou chefões de departamentos não poderão mais dar informações sobre investigações internas em suas áreas.

Numa semana em que o governo parecia inebriado com a perspectiva de aumentar seu controle sobre a sociedade, tucanos e pefelistas apareceram com uma bomba. Acusaram setores do PT de ter usado informações sigilosas da CPI do Banestado para montar um dossiê contra adversários políticos e figuras de relevo social e econômico. O objetivo seria estimular a boa vontade dos investigados e bombardear concorrentes em campanhas eleitorais. Alguns petistas confirmaram que possuem esses dados – "um caminhão deles". E que poderão usá-los, se necessário. É estarrecedor. Nem mesmo a ditadura militar se dispôs a uma operação dessa envergadura para concentrar mais poder.

O relator da CPI do Banestado, o petista José Mentor, que tem fidelidade canina ao chefe da Casa Civil, José Dirceu, pediu acesso a 400.000 operações de câmbio registradas no Banco Central. Além disso, solicitou a quebra do sigilo bancário e fiscal de centenas de pessoas contra as quais não havia nenhum indício prévio de operações irregulares. Essa iniciativa, além de grotesca, é ilegal. Não se pode quebrar sigilo por atacado, muito menos sem apresentar previamente indicações de que o investigado fez algo errado. Chegou a hora de o partido chefiado por Lula e José Dirceu se convencer de que não é mais uma simples legenda. Tornou-se o governo de todos os brasileiros. Precisa deixar para trás o entulho salvacionista que acumulou enquanto treinava para conquistar a chefia da nação.

 
 
 
 
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