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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro
O Ministério
acertou?
"Muitos pobres chegam ao
limiar do ensino superior, mas não conseguem
competir pela matrícula nas universidades públicas
nem podem pagar as mensalidades
das escolas privadas"
Em 1881, o imperador dom Pedro II deu uma bolsa
para Augusto Barbosa ir estudar siderurgia na Europa uma
das primeiras bolsas de estudo do país. O bolsista fez melhor:
lá se casou e trouxe o sogro a tiracolo, Jean Albert Gerspacher,
um experiente siderurgista suíço. O resultado foi
a construção em Itabirito da Usina Esperança,
a primeira siderúrgica comercialmente viável no Brasil
que ainda funciona.
Substituindo iniciativas raras e isoladas
como essa, na década de 50 nascem os programas de bolsa,
com as fundações Ford, Rockefeller e a Usaid, desencadeando
um programa de formação de cientistas. Capes e CNPq
expandiram o sistema. Eis a origem do grande salto da ciência
brasileira, recém-transmigrando para a produção
tecnológica, mas já sendo a grande arma de nossa competitividade.
Até agora, as bolsas de estudo foram
predominantemente usadas para promover a ciência e a tecnologia
brasileiras. O objetivo é pura e unicamente mirar no mais
talentoso e nele investir o que for preciso.
É necessário continuar tais
programas. Mas aparece no horizonte outro objetivo para as bolsas
de estudo. Há um par de anos, observávamos o rápido
crescimento do ensino médio e fazíamos previsões
róseas sobre um início de democratização
do ensino superior. Como os pobres começavam a terminar o
ensino médio, imaginávamos que era chegada a hora
de incorporá-los ao ensino superior, pelo menos modestamente.
Ilustração Alê Setti
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Contudo, as estatísticas recentes jogam um balde de água
fria: houve pouca inclusão de novas camadas sociais no terceiro
grau, apesar de o ensino médio ter praticamente triplicado
em dez anos. As causas são conhecidas. Como o ensino superior
público não cresce, a presença dos pobres aumentou
muito pouco, diante de vestibulares altamente concorridos.
O ensino privado precisa pagar suas contas
e repassar os custos aos alunos. Dadas as regras do MEC, não
são possíveis reduções significativas
nas mensalidades. Acontece que alunos abaixo de certo nível
de renda familiar não conseguem pagar as mensalidades.
Em outras palavras, muitos pobres agora chegam
ao limiar do ensino superior. Mas não conseguem competir
pela matrícula nas universidades públicas nem pagar
as mensalidades das escolas privadas. Quase chegam, mas morrem na
praia.
Até que o sistema público volte
a crescer, a idéia salvadora são as bolsas de estudo.
O ministro Tarso Genro acertou em cheio ao propor que o sistema
de ensino privado conceda bolsas de estudo aos alunos mais pobres
e seja compensado por isso. Seria ideal um simples fundo para bolsas.
A renúncia fiscal proposta é uma solução
mais complicada, mas pode funcionar.
Abrem-se as portas do ensino superior a uma
clientela mais pobre que estava bloqueada, porém ansiosa
para entrar. Agora é transformar uma boa idéia em
um bom programa. Mas, como bem sabemos, o caminho é árduo
duas centenas de emendas propostas à lei o demonstram.
A proposta de que os alunos incluídos
venham de família com renda até um salário
mínimo per capita é irrealista. Excluir do Fies (programa
de financiamento estudantil) quem não quiser participar desse
programa (chamado Prouni, Programa Universidade para Todos) é
autoritário. Como esse, há vários tropeços
(quais cursos? como escolher os alunos?).
Como o valor da renúncia fiscal afeta
diretamente a contabilidade das instituições, haverá
uma guerra feroz para negociar os dinheiros. Isso é esperado,
e é normal, seja no orçamento do Vaticano, seja em
empresas com fim de lucro.
Um caso mais encrencado é o das filantrópicas,
que não pagam impostos. A reivindicação do
MEC é que sua isenção tenha como contrapartida
as bolsas para alunos escolhidos pelo governo. Mas há a alegação
de direitos adquiridos. Sem saber o que dirão os mais festejados
juristas, o presente autor se cala.
No fundo, estamos diante de uma situação
clássica. Uma excelente idéia foi proposta. Suas implicações
para a eqüidade de um sistema secularmente injusto são
promissoras. Mas há uma negociação delicada
entre as partes. É preciso pragmatismo de ambos os lados,
pois não é desprezível o risco de deitar-se
tudo a perder ou parir um monstro.
Claudio de Moura Castro
é economista
(claudiodmc@attglobal.net)
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