Edição 1867 . 18 de agosto de 2004

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Livros
Mágica cristã

Depois de Harry Potter, a nova sensação
da literatura infantil é criação de um padre


Jerônimo Teixeira

 
Divulgação
G.P. Taylor: ele vendeu sua moto para editar Shadowmancer

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Trecho do livro

O paganismo anda popular entre as crianças. Harry Potter, esse sobrenatural campeão de vendas criado pela escritora galesa J.K. Rowling, é um bruxo adolescente. Não tão conhecido quanto Rowling, mas muito elogiado pela crítica, o inglês Philip Pullman, autor da trilogia Fronteiras do Universo, é um opositor das religiões organizadas. Protestantes e católicos já atacaram Rowling e Pullman por sua suposta má influência sobre as crianças. Mas a nova sensação da literatura infanto-juvenil britânica veio marcar pontos para Jesus. Com mais de 300.000 exemplares vendidos no Reino Unido, Shadowmancer – O Feiticeiro das Sombras (tradução de Maria Alice Máximo; Objetiva; 350 páginas; 41,90 reais) apresenta três crianças que combatem um feiticeiro diabólico na Inglaterra do século XVIII. O autor, Graham Taylor, 44 anos, é um padre da Igreja Anglicana na pequena Cloughton, em Yorkshire, na Inglaterra.

Pouco antes de se ordenar padre e muito antes de estourar como escritor, Taylor foi policial. Deixou a profissão depois de ser espancado por uma gangue juvenil. A primeira edição de Shadowmancer, com a modesta tiragem de 2.500 exemplares, foi bancada pelo próprio autor, que vendeu sua motocicleta para financiar a empreitada, em 2002. Captou o interesse da Faber&Faber, uma das mais tradicionais editoras inglesas, que reeditou o livro em larga escala. No ano passado, os direitos para a edição americana foram vendidos por 500.000 dólares. A Universal deve adaptar o livro para o cinema, e o segundo romance de Taylor, Wormwood, já freqüenta as listas de mais vendidos na Inglaterra.

Já foi dito que Shadowmancer é uma versão cristã de Harry Potter, mas o autor não gosta da comparação. Taylor ressalta que o livro teve respostas positivas de leitores judeus e muçulmanos. Pode ser, mas isso não muda o fato de que Shadowmancer, com suas visões angélicas e curas milagrosas, é cristão até a medula. Em muitos pontos, os discursos sobre a bondade de Deus entravam a fantasia de Taylor, tornando-a pouco palatável para o leitor laico. O "feiticeiro das sombras" é um vigário anglicano, mas até isso se enquadra no imaginário cristão: trata-se de uma reedição da hipocrisia dos fariseus. Opondo-se ao vilão, há um elenco de heróis formado por um contrabandista e três crianças, uma delas africana. Taylor se orgulha do caráter multicultural de seu livro, diferente do que ele chama de "mundo branco e protestante" de Harry Potter. Mas Raphah, o menino africano, deve ter conhecido algum missionário europeu: até ele é monoteísta convicto.

 

A cobiça do vigário

"Demurral havia usado seus ardis para conseguir o cargo de vigário de Thorpe. Muitos anos antes, ele havia sido hóspede do pároco Dagda Sarapuk. Demurral era um pregador visitante que ganhava a vida fazendo sermões por uns poucos trocados em cima de carroças ou sobre pilhas de feno, onde quer que conseguisse reunir uma congregação. Desde o instante em que seus olhos contemplaram Baytown, sentiu-se fascinado pelo poderoso encanto do prédio e pela beleza que se desfraldava à sua frente. (...) Acontecesse o que acontecesse, ele teria de se tornar dono daquilo tudo. Cada pedra, cada folha de grama seriam suas. Ali de pé, no alto do Pico do Vicariato, com o mar a rugir lá embaixo, Demurral foi tomado pela cobiça."

Trecho de Shadowmancer – O Feiticeiro das Sombras

 
 
 
 
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