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Livros
Mágica cristã
Depois
de Harry Potter, a nova sensação
da literatura
infantil é criação de um padre

Jerônimo Teixeira
Divulgação
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| G.P. Taylor: ele
vendeu sua
moto para editar Shadowmancer |
O paganismo
anda popular entre as crianças. Harry Potter, esse sobrenatural
campeão de vendas criado pela escritora galesa J.K. Rowling,
é um bruxo adolescente. Não tão conhecido quanto
Rowling, mas muito elogiado pela crítica, o inglês
Philip Pullman, autor da trilogia Fronteiras do Universo,
é um opositor das religiões organizadas. Protestantes
e católicos já atacaram Rowling e Pullman por sua
suposta má influência sobre as crianças. Mas
a nova sensação da literatura infanto-juvenil britânica
veio marcar pontos para Jesus. Com mais de 300.000 exemplares vendidos
no Reino Unido, Shadowmancer O Feiticeiro das Sombras
(tradução de Maria Alice Máximo; Objetiva;
350 páginas; 41,90 reais) apresenta três crianças
que combatem um feiticeiro diabólico na Inglaterra do século
XVIII. O autor, Graham Taylor, 44 anos, é um padre da Igreja
Anglicana na pequena Cloughton, em Yorkshire, na Inglaterra.
Pouco antes
de se ordenar padre e muito antes de estourar como escritor, Taylor
foi policial. Deixou a profissão depois de ser espancado
por uma gangue juvenil. A primeira edição de Shadowmancer,
com a modesta tiragem de 2.500 exemplares, foi bancada pelo
próprio autor, que vendeu sua motocicleta para financiar
a empreitada, em 2002. Captou o interesse da Faber&Faber, uma
das mais tradicionais editoras inglesas, que reeditou o livro em
larga escala. No ano passado, os direitos para a edição
americana foram vendidos por 500.000 dólares. A Universal
deve adaptar o livro para o cinema, e o segundo romance de Taylor,
Wormwood, já freqüenta as listas de mais vendidos
na Inglaterra.
Já
foi dito que Shadowmancer é uma versão cristã
de Harry Potter, mas o autor não gosta da comparação.
Taylor ressalta que o livro teve respostas positivas de leitores
judeus e muçulmanos. Pode ser, mas isso não muda o
fato de que Shadowmancer, com suas visões angélicas
e curas milagrosas, é cristão até a medula.
Em muitos pontos, os discursos sobre a bondade de Deus entravam
a fantasia de Taylor, tornando-a pouco palatável para o leitor
laico. O "feiticeiro das sombras" é um vigário anglicano,
mas até isso se enquadra no imaginário cristão:
trata-se de uma reedição da hipocrisia dos fariseus.
Opondo-se ao vilão, há um elenco de heróis
formado por um contrabandista e três crianças, uma
delas africana. Taylor se orgulha do caráter multicultural
de seu livro, diferente do que ele chama de "mundo branco e protestante"
de Harry Potter. Mas Raphah, o menino africano, deve ter conhecido
algum missionário europeu: até ele é monoteísta
convicto.
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A
cobiça do vigário
"Demurral
havia usado seus ardis para conseguir o cargo de vigário
de Thorpe. Muitos anos antes, ele havia sido hóspede
do pároco Dagda Sarapuk. Demurral era um pregador
visitante que ganhava a vida fazendo sermões
por uns poucos trocados em cima de carroças ou
sobre pilhas de feno, onde quer que conseguisse reunir
uma congregação. Desde o instante em que
seus olhos contemplaram Baytown, sentiu-se fascinado
pelo poderoso encanto do prédio e pela beleza
que se desfraldava à sua frente. (...) Acontecesse
o que acontecesse, ele teria de se tornar dono daquilo
tudo. Cada pedra, cada folha de grama seriam suas. Ali
de pé, no alto do Pico do Vicariato, com o mar
a rugir lá embaixo, Demurral foi tomado pela
cobiça."
Trecho
de Shadowmancer O Feiticeiro
das Sombras
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