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Televisão
Corta e repuxa
O seriado Nip/Tuck satiriza sem dó
médicos e pacientes envolvidos na
febre das cirurgias plásticas

Marcelo Marthe
Divulgação
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| Os protagonistas em ação: programa
gerou protestos dos médicos americanos |
Anos atrás, quando trabalhava como repórter
num jornal de Los Angeles, o americano Ryan Murphy entrevistou um
cirurgião plástico famoso. "Foi como uma lavagem cerebral:
entrei no consultório cheio de ceticismo e saí convencido
de que precisava mudar todo o meu corpo", diz ele. Murphy, hoje
roteirista e produtor de televisão, não seguiu as
dicas do médico. Seu apelo sedutor, contudo, o inspirou na
hora de criar os protagonistas do seriado Nip/Tuck
em português, algo como "corta e repuxa". No ar nos Estados
Unidos desde o ano passado, e com estréia no Brasil nesta
terça-feira, no canal pago Fox, o programa é uma voz
dissonante na leva de atrações que exploram o interesse
popular pelas plásticas. Enquanto reality shows como Extreme
Makeover fazem um tanto de apologia delas, ao mostrar a saga
de pessoas em busca da aparência perfeita, Nip/Tuck satiriza
sem dó esse universo. E o faz valendo-se de um expediente
original: o ponto de vista não é o dos pacientes,
e sim o de dois profissionais do ramo.
Bastam algumas cenas para concluir que não
seria uma boa idéia se entregar aos bisturis desses doutores.
Proprietários de uma clínica em Miami, Christian Troy
(Julian McMahon) e Sean McNamara (Dylan Walsh) têm visões
antagônicas sobre a profissão e a vida. Troy é
um playboy hedonista e sem escrúpulos, que seduz mulheres
com a promessa de burilar seus seios. Ele ataca até pacientes
fragilizadas, como duas patricinhas gêmeas que fazem operações
com o objetivo de se tornar diferentes uma da outra e caem
em desespero ao ver o resultado. McNamara é um profissional
do tipo certinho, mas ao mesmo tempo um pai de família atormentado.
Ele condena as malandragens de seu sócio que não
hesita, por exemplo, em operar um traficante em troca de dinheiro
sujo. É também crítico das mudanças
de aparência desnecessárias tão radical
nisso que proíbe seu filho de operar uma fimose. Em vão:
o adolescente faz isso pelas próprias mãos, com as
conseqüências que se pode imaginar.
Com essa visão cáustica, Nip/Tuck
poderia cair num moralismo raso. Não é o que acontece,
já que a seu criador interessa, mais que criticar, extrair
nonsense desse universo. "Cirurgiões respeitáveis
tratam seus pacientes como pedras brutas que se precisa esculpir.
Os do meu seriado preferem tratá-los como peças de
picanha", disse Murphy em entrevista a VEJA. É fácil
entender o que ele está falando. Nas cenas de operações
há sangue em profusão e os pacientes, anestesiados,
tornam-se corpos patéticos à mercê dos cirurgiões.
Nip/Tuck causou protesto de médicos americanos por
seu retrato exagerado do mundo das plásticas. A piada pode
até ser grotesca mas funciona.
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