Edição 1867 . 18 de agosto de 2004

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Televisão
Corta e repuxa

O seriado Nip/Tuck satiriza sem dó
médicos e pacientes envolvidos na
febre das cirurgias plásticas


Marcelo Marthe


Divulgação
Os protagonistas em ação: programa gerou protestos dos médicos americanos

DA INTERNET
Vídeos com o making of do seriado
Vídeo 1
Vídeo 2

Anos atrás, quando trabalhava como repórter num jornal de Los Angeles, o americano Ryan Murphy entrevistou um cirurgião plástico famoso. "Foi como uma lavagem cerebral: entrei no consultório cheio de ceticismo e saí convencido de que precisava mudar todo o meu corpo", diz ele. Murphy, hoje roteirista e produtor de televisão, não seguiu as dicas do médico. Seu apelo sedutor, contudo, o inspirou na hora de criar os protagonistas do seriado Nip/Tuck – em português, algo como "corta e repuxa". No ar nos Estados Unidos desde o ano passado, e com estréia no Brasil nesta terça-feira, no canal pago Fox, o programa é uma voz dissonante na leva de atrações que exploram o interesse popular pelas plásticas. Enquanto reality shows como Extreme Makeover fazem um tanto de apologia delas, ao mostrar a saga de pessoas em busca da aparência perfeita, Nip/Tuck satiriza sem dó esse universo. E o faz valendo-se de um expediente original: o ponto de vista não é o dos pacientes, e sim o de dois profissionais do ramo.

Bastam algumas cenas para concluir que não seria uma boa idéia se entregar aos bisturis desses doutores. Proprietários de uma clínica em Miami, Christian Troy (Julian McMahon) e Sean McNamara (Dylan Walsh) têm visões antagônicas sobre a profissão e a vida. Troy é um playboy hedonista e sem escrúpulos, que seduz mulheres com a promessa de burilar seus seios. Ele ataca até pacientes fragilizadas, como duas patricinhas gêmeas que fazem operações com o objetivo de se tornar diferentes uma da outra – e caem em desespero ao ver o resultado. McNamara é um profissional do tipo certinho, mas ao mesmo tempo um pai de família atormentado. Ele condena as malandragens de seu sócio – que não hesita, por exemplo, em operar um traficante em troca de dinheiro sujo. É também crítico das mudanças de aparência desnecessárias – tão radical nisso que proíbe seu filho de operar uma fimose. Em vão: o adolescente faz isso pelas próprias mãos, com as conseqüências que se pode imaginar.

Com essa visão cáustica, Nip/Tuck poderia cair num moralismo raso. Não é o que acontece, já que a seu criador interessa, mais que criticar, extrair nonsense desse universo. "Cirurgiões respeitáveis tratam seus pacientes como pedras brutas que se precisa esculpir. Os do meu seriado preferem tratá-los como peças de picanha", disse Murphy em entrevista a VEJA. É fácil entender o que ele está falando. Nas cenas de operações há sangue em profusão e os pacientes, anestesiados, tornam-se corpos patéticos à mercê dos cirurgiões. Nip/Tuck causou protesto de médicos americanos por seu retrato exagerado do mundo das plásticas. A piada pode até ser grotesca – mas funciona.

 

 
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