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Cinema
A espiã que veio
do frio
A trajetória
da comunista Olga chega
ao cinema
com os vícios, e sem as
virtudes, de uma novela

Isabela Boscov
Divulgação
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| Olga (Camila)
treina para ser
um soldado do comunismo:
nota de rodapé |
Não
fosse ter despertado o interesse do escritor Fernando Morais e daí
resultado num best-seller, Olga Benario (1908-1942) não teria
ocupado mais do que uma nota de rodapé da história
brasileira. Como atesta o próprio Morais, quase não
havia registros sobre a agente soviética que ajudou Luís
Carlos Prestes a voltar clandestinamente ao Brasil de seu exílio,
no início de 1935, fazendo-se passar por sua mulher. Só
que o casal de mentira se apaixonou de verdade, e Olga, que nascera
rica, desistiu de retornar a Moscou para ficar por aqui e ajudar
Prestes em sua tentativa (redondamente fracassada) de derrubar a
ditadura de Getúlio Vargas e implantar a revolução.
Existem indícios, aliás, de que Olga era algo mais
do que guarda-costas de Prestes: o assassinato de Vargas seria sua
verdadeira missão. Fosse o que fosse, Olga terminou presa,
como Prestes, e foi deportada para a sua Alemanha natal em circunstâncias
dramáticas: era judia e estava grávida. Deu à
luz numa prisão alemã e conseguiu manter a filha ao
seu lado por catorze meses, até a criança ser tirada
dela e, sem que Olga soubesse dessa atenuante, entregue aos cuidados
da mãe e da irmã de Prestes. É essa combinação
de elementos que faz de Olga Benario um desses personagens tão
fáceis de romantizar e transformar em "emblema de uma época".
E é dessa tarefa que quer se ocupar o filme Olga
(Brasil, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país,
com Camila Morgado no papel-título.
A época
que Olga deveria simbolizar é a fase romântica, por
assim dizer, do comunismo, quando se acreditava que ele poderia
ser uma solução social e uma alternativa viável
ao fascismo então em ascensão na Europa. Mas Olga
não quer falar de política. Até porque isso
obrigaria o filme a entrar em detalhes embaraçosos, como
o fato de que o stalinismo já mostrara suas verdadeiras cores
e começava a ficar difícil enxergar algo de ideal
no Partido Comunista (a não ser um modelo ideal de tirania,
claro) ou, mais constrangedor ainda, o fato de que após
sua libertação, em 1945, Prestes viria a consignar
seu apoio a Getúlio Vargas, o algoz de sua mulher. Olga
resume o credo ideológico de sua protagonista ao mínimo
indispensável a jovem que deu a vida por seus ideais
e investe tudo no melodrama. Não haveria aí,
em princípio, nenhum problema. Trata-se da opção
do diretor Jayme Monjardim e da roteirista e produtora Rita Buzzar.
O problema está no filme em si: arrastado, pomposo e declamatório,
Olga mais parece uma novela que um filme. Tem a mesma produção
diligente mas pouco imaginativa, a trilha que indica ao espectador
sem parar que emoção sentir, a mesma
falta de evolução dramática ou de personagens,
o mesmo excesso de closes. Quase todos, aliás, dos lindos
olhos claros e repletos de lágrimas de Camila Morgado. Os
protagonistas são Olga e Prestes, mas poderiam ser os igualmente
sofredores Giulianna e Matteo de Terra Nostra (uma das muitas
novelas de sucesso dirigidas por Monjardim). Só que sem o
alívio das tramas paralelas e dos coadjuvantes pitorescos.
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