Edição 1867 . 18 de agosto de 2004

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Cinema
A espiã que veio do frio

A trajetória da comunista Olga chega
ao cinema
com os vícios, e sem as
virtudes, de uma novela


Isabela Boscov

 
Divulgação
Olga (Camila) treina para ser um soldado do comunismo: nota de rodapé

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DOS ARQUIVOS DE VEJA
"Memórias do cárcere", 14/2/2001

Não fosse ter despertado o interesse do escritor Fernando Morais e daí resultado num best-seller, Olga Benario (1908-1942) não teria ocupado mais do que uma nota de rodapé da história brasileira. Como atesta o próprio Morais, quase não havia registros sobre a agente soviética que ajudou Luís Carlos Prestes a voltar clandestinamente ao Brasil de seu exílio, no início de 1935, fazendo-se passar por sua mulher. Só que o casal de mentira se apaixonou de verdade, e Olga, que nascera rica, desistiu de retornar a Moscou para ficar por aqui e ajudar Prestes em sua tentativa (redondamente fracassada) de derrubar a ditadura de Getúlio Vargas e implantar a revolução. Existem indícios, aliás, de que Olga era algo mais do que guarda-costas de Prestes: o assassinato de Vargas seria sua verdadeira missão. Fosse o que fosse, Olga terminou presa, como Prestes, e foi deportada para a sua Alemanha natal em circunstâncias dramáticas: era judia e estava grávida. Deu à luz numa prisão alemã e conseguiu manter a filha ao seu lado por catorze meses, até a criança ser tirada dela e, sem que Olga soubesse dessa atenuante, entregue aos cuidados da mãe e da irmã de Prestes. É essa combinação de elementos que faz de Olga Benario um desses personagens tão fáceis de romantizar e transformar em "emblema de uma época". E é dessa tarefa que quer se ocupar o filme Olga (Brasil, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país, com Camila Morgado no papel-título.

A época que Olga deveria simbolizar é a fase romântica, por assim dizer, do comunismo, quando se acreditava que ele poderia ser uma solução social e uma alternativa viável ao fascismo então em ascensão na Europa. Mas Olga não quer falar de política. Até porque isso obrigaria o filme a entrar em detalhes embaraçosos, como o fato de que o stalinismo já mostrara suas verdadeiras cores e começava a ficar difícil enxergar algo de ideal no Partido Comunista (a não ser um modelo ideal de tirania, claro) – ou, mais constrangedor ainda, o fato de que após sua libertação, em 1945, Prestes viria a consignar seu apoio a Getúlio Vargas, o algoz de sua mulher. Olga resume o credo ideológico de sua protagonista ao mínimo indispensável – a jovem que deu a vida por seus ideais – e investe tudo no melodrama. Não haveria aí, em princípio, nenhum problema. Trata-se da opção do diretor Jayme Monjardim e da roteirista e produtora Rita Buzzar. O problema está no filme em si: arrastado, pomposo e declamatório, Olga mais parece uma novela que um filme. Tem a mesma produção diligente mas pouco imaginativa, a trilha que indica ao espectador – sem parar – que emoção sentir, a mesma falta de evolução dramática ou de personagens, o mesmo excesso de closes. Quase todos, aliás, dos lindos olhos claros e repletos de lágrimas de Camila Morgado. Os protagonistas são Olga e Prestes, mas poderiam ser os igualmente sofredores Giulianna e Matteo de Terra Nostra (uma das muitas novelas de sucesso dirigidas por Monjardim). Só que sem o alívio das tramas paralelas e dos coadjuvantes pitorescos.

 
 
 
 
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