Edição 1867 . 18 de agosto de 2004

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Cinema
Isso é que é ter estômago

Em Super Size Me, o diretor Morgan
Spurlock vira sua própria cobaia numa
investigação sobre a cultura do fast-food


Isabela Boscov

Divulgação
Spurlock: em um mês, 11 quilos a mais, dores de cabeça e fígado destroçado


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Porções épicas

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Morgan Spurlock nunca foi exatamente um asceta: adora um filé, acha que presunto é uma invenção divina e encara qualquer culinária regional, da cubana à indiana. Foi enquanto estava vendo televisão largado no sofá da mãe, posto a nocaute pelo almoço do Dia de Ação de Graças de 2002, que ele soube de um fato curioso: duas adolescentes americanas estavam processando a rede de lanchonetes McDonald's por torná-las obesas. Em princípio, diz Spurlock, a ação não parecia ter mérito real – ela seria mais um sintoma de um país infestado pela litigância, em que os cidadãos se recusam a assumir suas responsabilidades pessoais e atribuem a culpa por suas falhas às forças maiores das corporações. Mas talvez, raciocinou Spurlock, essas forças sejam de fato maiores. Dessa idéia nasceu o documentário Super Size Me (Estados Unidos, 2004), que estréia nesta sexta-feira em circuito nacional, vindo de uma carreira surpreendentemente lucrativa, e previsivelmente polêmica, nos cinemas americanos (veja quadro).

Para fazer Super Size Me, Spurlock se transformou, durante um mês, em sua própria cobaia. Determinou que nesse período tudo o que ele ingerisse, até a água, deveria vir do McDonald's. Cada item do cardápio teria de ser provado pelo menos uma vez e ele teria de dizer "sim" sempre que um atendente oferecesse o lanche na porção super size. Essa opção, que deixou de constar do menu da rede mais ou menos na ocasião em que o documentário estreou nos Estados Unidos (mero acaso, divulgou a empresa), é um dos melhores negócios do ramo de fast-food: por alguns centavos a mais, o cliente ganha quantidades muito maiores de comida. Custa pouco para ele, custa menos ainda para a lanchonete, e proporciona ao freguês a satisfação de ter conseguido uma pechincha. O número de calorias na bandeja, porém, sobe assustadoramente. Spurlock tinha de aceitar o super size porque isso é o que um americano comum faria – e por isso também ele reduziu de forma drástica sua atividade física, até que ela se encaixasse na média nacional.

A primeira refeição super size de Spurlock é um espetáculo dantesco. Seu bom humor logo dá lugar ao fastio, depois à náusea e, finalmente, à rejeição completa da comida, que termina, meio digerida, numa poça ao lado da janela de seu carro. Antes de começar o experimento, Spurlock passou por exames minuciosos com três médicos diferentes. Todos concordaram que, aos 33 anos, ele exibia saúde e forma física perfeitas. Faltando dez dias para a maratona gastronômica terminar, os três pediram a Spurlock que desistisse: seu colesterol disparara, a deposição de gordura tornara seu fígado pastoso como o de um alcoólatra, e o paciente vivia atormentado por fortes dores de cabeça, mau humor e exaustão. Num depoimento cândido, a namorada de Spurlock, que é chef vegetariana, revela o impacto da dieta sobre a vida amorosa do casal: Spurlock não tinha ânimo para mais nada entre os lençóis que não roncar. Após trinta dias, a silhueta do diretor contabilizava 11 quilos adicionais, que ele demoraria mais de um ano para perder.

Spurlock, que é um dramaturgo premiado e já foi também comentarista esportivo, tem um estilo similar ao de Michael Moore, no sentido de que está sempre diante da câmera e se vale do humor para apresentar suas teses à platéia. Mas é uma presença bem mais equilibrada, e bem menos inflamatória. Super Size Me está repleto de entrevistas com médicos, nutricionistas, advogados e estudiosos das implicações do fenômeno do fast-food – e também com fregueses contumazes da rede de lanchonetes. Seu alvo, diz o diretor, não era o McDonald's em si (que, por coincidência ou não, recentemente passou a oferecer opções de lanches menos calóricos e mais saudáveis). A empresa foi escolhida por ser o gigante do ramo e seu símbolo, e portanto a mais representativa entre as várias que atuam no setor. O McDonald's atende, todos os dias, 46 milhões de pessoas no mundo inteiro. Sua fatia no mercado americano de fast-food – um negócio de 110 bilhões de dólares ao ano, freqüentado por um em cada quatro cidadãos, todos os dias – chega perto dos 50%, e seus gastos com publicidade são da ordem de centenas de milhões de dólares anuais. De acordo com Spurlock, aí é que está uma das chaves da questão: as grandes corporações americanas, estejam elas no setor de alimentação, de artigos esportivos ou qualquer outro, têm um poder virtualmente ilimitado de influenciar o público, e não há valor familiar ou arbítrio pessoal capaz de competir com elas em pé de igualdade. Por isso, diz o diretor, o processo movido pelas duas adolescentes obesas talvez não seja assim tão desprovido de mérito.

O trecho mais arrepiante de Super Size Me é aquele em que Spurlock visita escolas americanas na hora da merenda. Pizzas, hambúrgueres, bebidas doces e chocolates não só são servidos à vontade em muitas delas como são as únicas opções possíveis. Em outras escolas, as cozinheiras comemoram a iniciativa do governo de mandar a alimentação pronta e encaixotada, o que diminuiu muito seu trabalho de elaborar e preparar cardápios. Agora elas servem chili com carne, sopa de tomate e que tais – nada fresco, tudo enlatado e carregado de sódio e açúcar. Nessas condições, não é fácil educar crianças para uma alimentação saudável. Spurlock, que esteve no Brasil no fim de julho, impressionou-se com o alcance da cultura de fast-food. Ficou sem entender as filas que se formavam na lanchonete de rede próxima ao seu hotel paulistano, enquanto o restaurante por quilo da vizinhança, com suas refeições frescas, balanceadas e baratas, exibia um movimento morno. A comparação só reforçou aquilo que ele já aprendera em Super Size Me, diz o diretor: comida e marketing tendem a ser uma combinação indigesta.

 

Realidades bem mais estranhas que a ficção

Marcelo Carnaval/Ag. O Globo
Ônibus 174: uma radiografia do caos social

Morgan Spurlock fez Super Size Me com 65 000 dólares de suas economias. Jeffrey Blitz, diretor do empolgante Spellbound, sobre os torneios americanos de soletrar palavras, assinou catorze cartões de crédito para rolar seus custos de produção. Roger & Eu deixou a conta bancária do então estreante Michael Moore 160 000 dólares mais magra – uma ninharia para um filme, mas uma quantia vultosa para um indivíduo. Essas histórias de sacrifício são antigas entre os documentaristas. O que é novo, para eles, é a chance de fazer sucesso com um gênero do qual, até poucos anos atrás, os exibidores fugiam como quem corre da peste. Aborrecido, didático, oficialesco – esses adjetivos, que quase sempre vinham ligados ao substantivo documentário, hoje foram trocados por outros, como "fascinante", "intrigante", "explosivo", "perturbador". Os cineastas que vivem dessa atividade têm três palavras para explicar o fenômeno: Sundance e Michael Moore – o festival criado por Robert Redford, pela tenacidade com que apoiou a não-ficção, e Moore, por ter aberto uma trilha de sucesso onde antes o fracasso era quase uma certeza.

É claro que sucesso é um conceito relativo nesse universo. A renda mundial de Fahrenheit 11 de Setembro já anda em 136 milhões de dólares, mas trata-se de uma exceção. Menos de um décimo disso já é um resultado espetacular – e o suficiente para os donos de cinema se entusiasmarem com o gênero. Inclusive no Brasil, onde, desde janeiro, dezesseis documentários estrearam em circuito comercial. O Brasil é forte também na produção. Tem desde luminares veteranos, como o Eduardo Coutinho de Cabra Marcado para Morrer e Edifício Master, até jovens talentos, como o José Padilha de Ônibus 174. Padilha, aliás, é um caso curioso: sua magnífica exploração do caos social brasileiro, feita a partir do célebre seqüestro de um coletivo carioca, em 2000, gerou muito mais cobertura na imprensa estrangeira do que na nacional.

Divulgação
Friedmans: colapso em primeira mão

Padilha e Coutinho não rezam pela nova e mais flexível cartilha do documentário, como Moore e Spurlock, que flertam (e às vezes casam) com o libelo. Também não querem saber de instruir ou doutrinar, os propósitos a que o documentário esteve amarrado durante quase toda a sua existência. Seu objetivo, assim como o de todos os grandes talentos que vêm se tornando conhecidos na área, é expor. Expor, principalmente, o quanto verdade e objetividade são conceitos frágeis. Exemplos brilhantes dessa nova tendência estão em dois documentários americanos recentes, Sob a Névoa da Guerra e Na Captura dos Friedmans. No primeiro, o diretor Errol Morris entrevista Robert McNamara, ex-secretário de Defesa americano e principal arquiteto da Guerra do Vietnã. Aos 85 anos, McNamara revela memória prodigiosa e impressionantes vigor intelectual, ponderação e carisma. O saldo é o pânico: como um líder com tais qualidades enfiou seu país num atoleiro, e o que se pode esperar então de líderes menos gabaritados? Em Friedmans, assiste-se a outro tipo de conflito – a batalha travada entre os membros de uma família de classe média quando o pai e um dos filhos são acusados de abuso sexual de menores. O colapso foi todo registrado pelo filho mais velho, com sua câmera de vídeo. É isso que os documentários vêm mostrando ao público: a realidade é mais estranha, e mais complicada, do que a ficção.

 

 

 
 
 
 
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