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Automóveis
A turma do veneno
Para os aficionados
do "tuning", que virou
mania no Brasil, quanto mais acessórios, melhor

Ariel Kostman
Fotos André Penner
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| Silvia
Oliveira já gastou
mais de 16 000 reais para modificar seu Palio 1.0: o carro emite
luz de neon, tem interior de um esportivo e desenho da personagem
Lulu Dark no motor. O veículo é uma atração
nas ruas |
Há
quem tenha automóvel apenas para se locomover. Para outros,
ele é um objeto do desejo. Nos últimos tempos, surgiu
nas principais cidades brasileiras um terceiro grupo. Seus integrantes
não são apenas aficionados de carros eles os
consideram, literalmente, uma extensão de sua personalidade.
Está-se falando da turma do "tuning", que consiste em rechear
o veículo com o máximo possível de acessórios,
de preferência bem extravagantes, tornando-o capaz de destacar
seu proprietário na multidão. Freqüentemente,
o adepto do tuning (palavra inglesa que significa "afinar" ou "aperfeiçoar")
gasta em acessórios mais do que o próprio valor de
mercado do carro. Injeções de uma substância
chamada óxido nitroso no motor aumentam sua potência,
enquanto frisos com luzes de neon e aparelhos de DVD no painel se
destinam a tornar o carro mais, digamos, charmoso. "Não bebo
e não fumo, meu único vício é mexer
no meu carro e, se alguém aparecer com um igual, mudo tudo
de novo", diz o comerciário Thiago Queiroz, 21 anos, que
roda por São Paulo com um Corsa modelo 94 no qual já
investiu 10 000 reais em acessórios.
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| Porta-malas do Peugeot
306 do arquiteto Alexandre Pohlmann: caixas de som com 1 500
watts de potência e DVD-player |
A mania
de adaptar automóveis ao gosto do freguês não
é nova. Já nos anos 50, os jovens americanos compravam
conversíveis antigos e os transformavam em "hot rods" (máquinas
quentes). Durante muito tempo, a mudança consistia apenas
em envenenar o motor e usar rodas e pneus mais largos. Isso mudou
há três anos, com o lançamento do filme Velozes
e Furiosos, que tem como atração espetaculares
perseguições automobilísticas feitas justamente
com veículos personalizados. A partir de então, o
tuning ganhou adeptos em proporção geométrica.
Nos Estados Unidos, a brincadeira movimentou 3 bilhões de
dólares no ano passado. No Brasil, segundo o sindicato dos
fabricantes de peças para automóveis, já há
mais de 12 000 oficinas especializadas em tuning. Na internet existem
dezenas de sites e grupos de discussão dedicados ao tema.
Em setembro de 2003, a revista Quatro Rodas lançou
uma edição especial dedicada ao tuning. A procura
foi tanta que o título irá se tornar mensal. No computador,
os mais fanáticos podem modificar seus carros virtualmente
no jogo Need for Speed Underground, que custa 90 reais.
Evidentemente,
a turma do tuning adora exibir seus carrões em público.
Por isso, já se tornaram freqüentes as reuniões
em locais espaçosos. Em Curitiba, os pilotos se encontram
aos domingos à tarde no Parque Barigui. "Em abril, recebemos
40.000 pessoas no Tuning Show 2004, duas vezes mais que no ano passado",
diz Marcelo Preiss, diretor do CTBA Tuning, empresa que organiza
os eventos desse tipo na cidade. Freqüentador assíduo
dos encontros curitibanos, o corretor de seguros Fábio de
Paula Cordeiro, 31 anos, pilota um Honda Civic 93 com preço
de mercado de 13.000 reais. Ele já gastou o triplo desse
valor nos acessórios. "Sempre quis me diferenciar dos demais
donos de veículos modificados", diz Cordeiro, que garante
ter visto o filme Velozes e Furiosos mais de dez vezes.
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Thiago Queiroz
exibe o interior de seu Corsa: "O carro é
meu vício" |
Há
eventos que reúnem multidões dignas de uma final de
campeonato de futebol. No mês passado, em São Paulo,
42.000 pessoas estiveram no X-Treme, que ocupou uma área
de 14.000 metros quadrados no Transamérica Expo. O arquiteto
paulistano Alexandre Pohlmann, 24 anos, já gastou mais de
60.000 reais num Peugeot 306 pelo qual pagou 20.000. O porta-malas
é uma atração à parte. Ele acomoda um
DVD e duas enormes caixas de som, cada uma com 1.500 watts, potência
suficiente para deixar qualquer um surdo. Alexandre ainda pretende
gastar mais com seu Peugeot, que no momento está numa oficina
especializada para ganhar um novo desenho na carroceria que o deixará
com linhas mais agressivas. "Invisto tudo o que ganho no carro",
diz Alexandre. "Para mim, ter um automóvel único é
até mais legal que ter uma Ferrari."
Embora
o mundo do tuning seja predominantemente masculino, algumas mulheres
embarcam na onda com igual entusiasmo. Casada, três filhos,
a paulistana Silvia Oliveira incorporou uma personagem, a Tuning
Girl, e procura ganhar algum dinheiro com o hobby. Muitas das modificações
feitas em seu Palio 1.0 foram pagas por pequenos patrocinadores
lojas de acessórios automotivos , que, em contrapartida,
colocam seus adesivos na carroceria do carro. Vestida como Lulu
Dark (saia preta e blusa multicolorida), personagem de um game japonês
muito popular entre os jovens, ela costuma exibir seu carro na porta
de bares e danceterias. Como o veículo acaba se tornando
um chamariz para os fregueses, Silvia quase sempre ganha convites
e drinques dos estabelecimentos. Seu próximo passo é
criar um site na internet. Como dez em cada dez integrantes da tribo,
Silvia adora sair com seu carro pelas ruas e se sentir uma estrela.
"É muito gostoso, as pessoas pedem que eu abra a porta, mostre
o motor. Acho que sou meio exibicionista mesmo", ela admite.
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