Edição 1867 . 18 de agosto de 2004

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Automóveis
A turma do veneno

Para os aficionados do "tuning", que virou
mania no Brasil, quanto mais acessórios, melhor


Ariel Kostman

 
Fotos André Penner
Silvia Oliveira já gastou mais de 16 000 reais para modificar seu Palio 1.0: o carro emite luz de neon, tem interior de um esportivo e desenho da personagem Lulu Dark no motor. O veículo é uma atração nas ruas

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Há quem tenha automóvel apenas para se locomover. Para outros, ele é um objeto do desejo. Nos últimos tempos, surgiu nas principais cidades brasileiras um terceiro grupo. Seus integrantes não são apenas aficionados de carros – eles os consideram, literalmente, uma extensão de sua personalidade. Está-se falando da turma do "tuning", que consiste em rechear o veículo com o máximo possível de acessórios, de preferência bem extravagantes, tornando-o capaz de destacar seu proprietário na multidão. Freqüentemente, o adepto do tuning (palavra inglesa que significa "afinar" ou "aperfeiçoar") gasta em acessórios mais do que o próprio valor de mercado do carro. Injeções de uma substância chamada óxido nitroso no motor aumentam sua potência, enquanto frisos com luzes de neon e aparelhos de DVD no painel se destinam a tornar o carro mais, digamos, charmoso. "Não bebo e não fumo, meu único vício é mexer no meu carro e, se alguém aparecer com um igual, mudo tudo de novo", diz o comerciário Thiago Queiroz, 21 anos, que roda por São Paulo com um Corsa modelo 94 no qual já investiu 10 000 reais em acessórios.


Porta-malas do Peugeot 306 do arquiteto Alexandre Pohlmann: caixas de som com 1 500 watts de potência e DVD-player

A mania de adaptar automóveis ao gosto do freguês não é nova. Já nos anos 50, os jovens americanos compravam conversíveis antigos e os transformavam em "hot rods" (máquinas quentes). Durante muito tempo, a mudança consistia apenas em envenenar o motor e usar rodas e pneus mais largos. Isso mudou há três anos, com o lançamento do filme Velozes e Furiosos, que tem como atração espetaculares perseguições automobilísticas feitas justamente com veículos personalizados. A partir de então, o tuning ganhou adeptos em proporção geométrica. Nos Estados Unidos, a brincadeira movimentou 3 bilhões de dólares no ano passado. No Brasil, segundo o sindicato dos fabricantes de peças para automóveis, já há mais de 12 000 oficinas especializadas em tuning. Na internet existem dezenas de sites e grupos de discussão dedicados ao tema. Em setembro de 2003, a revista Quatro Rodas lançou uma edição especial dedicada ao tuning. A procura foi tanta que o título irá se tornar mensal. No computador, os mais fanáticos podem modificar seus carros virtualmente no jogo Need for Speed Underground, que custa 90 reais.

Evidentemente, a turma do tuning adora exibir seus carrões em público. Por isso, já se tornaram freqüentes as reuniões em locais espaçosos. Em Curitiba, os pilotos se encontram aos domingos à tarde no Parque Barigui. "Em abril, recebemos 40.000 pessoas no Tuning Show 2004, duas vezes mais que no ano passado", diz Marcelo Preiss, diretor do CTBA Tuning, empresa que organiza os eventos desse tipo na cidade. Freqüentador assíduo dos encontros curitibanos, o corretor de seguros Fábio de Paula Cordeiro, 31 anos, pilota um Honda Civic 93 com preço de mercado de 13.000 reais. Ele já gastou o triplo desse valor nos acessórios. "Sempre quis me diferenciar dos demais donos de veículos modificados", diz Cordeiro, que garante ter visto o filme Velozes e Furiosos mais de dez vezes.


Thiago Queiroz exibe o interior de seu Corsa: "O carro é
meu vício"

Há eventos que reúnem multidões dignas de uma final de campeonato de futebol. No mês passado, em São Paulo, 42.000 pessoas estiveram no X-Treme, que ocupou uma área de 14.000 metros quadrados no Transamérica Expo. O arquiteto paulistano Alexandre Pohlmann, 24 anos, já gastou mais de 60.000 reais num Peugeot 306 pelo qual pagou 20.000. O porta-malas é uma atração à parte. Ele acomoda um DVD e duas enormes caixas de som, cada uma com 1.500 watts, potência suficiente para deixar qualquer um surdo. Alexandre ainda pretende gastar mais com seu Peugeot, que no momento está numa oficina especializada para ganhar um novo desenho na carroceria que o deixará com linhas mais agressivas. "Invisto tudo o que ganho no carro", diz Alexandre. "Para mim, ter um automóvel único é até mais legal que ter uma Ferrari."

Embora o mundo do tuning seja predominantemente masculino, algumas mulheres embarcam na onda com igual entusiasmo. Casada, três filhos, a paulistana Silvia Oliveira incorporou uma personagem, a Tuning Girl, e procura ganhar algum dinheiro com o hobby. Muitas das modificações feitas em seu Palio 1.0 foram pagas por pequenos patrocinadores – lojas de acessórios automotivos –, que, em contrapartida, colocam seus adesivos na carroceria do carro. Vestida como Lulu Dark (saia preta e blusa multicolorida), personagem de um game japonês muito popular entre os jovens, ela costuma exibir seu carro na porta de bares e danceterias. Como o veículo acaba se tornando um chamariz para os fregueses, Silvia quase sempre ganha convites e drinques dos estabelecimentos. Seu próximo passo é criar um site na internet. Como dez em cada dez integrantes da tribo, Silvia adora sair com seu carro pelas ruas e se sentir uma estrela. "É muito gostoso, as pessoas pedem que eu abra a porta, mostre o motor. Acho que sou meio exibicionista mesmo", ela admite.

 




 
 
 
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