Edição 1867 . 18 de agosto de 2004

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Bancos
O maior banco do mundo

Criado no Japão, o Mitsubishi UFJ é dez vezes
maiorque o Itaú, o BB e o Bradesco juntos


Carina Nucci

Na semana passada, depois de mais de um mês de negociação, foi criado o maior banco do mundo. O superbanco é japonês, chama-se Mitsubishi UFJ Holdings e resulta da fusão do Mitsubishi Tokyo Financial Group (MTFG) com o UFJ Holdings. Seu tamanho equivale a dez vezes os ativos do Bradesco, Banco do Brasil e Itaú juntos. A nova instituição, que controlará 1,7 trilhão de dólares, 881 agências e mais de 77.000 funcionários, desbancou o Mizuho Financial Group. Agora, o Japão ocupa os dois primeiros lugares no ranking mundial do setor e o sistema bancário do país vive um momento de recuperação histórico, depois do colapso dos anos 90. Em 2003, o lucro dos 1.000 maiores bancos chegou a 417 bilhões de dólares. Só para efeito de comparação, o setor bancário brasileiro registrou lucro de 7 bilhões de dólares no ano passado.

O primeiro passo para a recuperação do sistema foi dado pela Agência de Serviços Financeiros do Japão, órgão regulador do setor bancário, que estabeleceu regras mais rígidas para os empréstimos ao setor privado. Estancou-se, assim, a sangria provocada pela inadimplência. Os bancos, por sua vez, passaram a cobrar dos empresários um plano de saneamento das finanças, incluindo corte de gastos e aumento de produtividade, antes de conceder novos créditos. Mas os bancos japoneses ainda têm muito que fazer. A taxa de retorno sobre o capital dos bancos japoneses é de apenas 5,2%. Na América Latina, o porcentual é de 24% e nos Estados Unidos chega a 29%. Embora os números tenham melhorado, a lucratividade das instituições financeiras ainda é baixa. O juro próximo de zero adotado pelo governo para tentar tirar a economia do marasmo e a alta incidência de empréstimos podres não ajudam. Se a economia voltar a crescer, como alguns sinais indicam, o mercado de pequenas e médias empresas, no qual o UFJ é forte, terá ótimas perspectivas.

Aliar forças por meio de fusões e aquisições também foi uma das saídas encontradas pelo setor financeiro para sanear os créditos bancários. Uma estratégia, aliás, adotada em todo o sistema financeiro mundial. No Brasil, cerca de um terço das instituições existentes em 1994 mudou de controle ou deixou de existir. De 246 instituições naquela época, o mercado ficou apenas com 164 em 2003. Foi a saída para enfrentar a queda da inflação, que sustentava boa parte de seus lucros. O Bradesco, o maior banco do país, se fortaleceu com a compra do Mercantil em janeiro de 2002. Foi assim também com o Itaú, que adquiriu o Sudameris em dezembro de 2001 e no ano passado registrou o maior lucro do setor – imponentes 928 milhões de dólares.

A conclusão da fusão do Mitsubishi com o UFJ só se dará em outubro do ano que vem. Até lá, as duas instituições terão de lidar com diferenças tão grandes que fizeram a fusão ficar conhecida entre os analistas econômicos como a operação Jekyll e Hyde. Trata-se de uma alusão à obra de R.L. Stevenson, em que o personagem principal tinha dupla personalidade, ora um médico, ora um monstro. Enquanto o Mitsubishi foi o primeiro banco a reembolsar a ajuda do governo obtida nos anos 90 durante o colapso do sistema financeiro, o UFJ ainda deve 12,8 milhões de dólares. O Mitsubishi é lucrativo, o UFJ teve prejuízo de 3,6 bilhões de dólares no ano passado. O Mitsubishi foi o primeiro banco a declarar que havia superado os problemas com o dinheiro emprestado aos clientes na década passada e que não havia sido pago. O UFJ ainda tem 35 milhões de dólares em créditos duvidosos.

As perspectivas, no entanto, são promissoras. O maior banco do mundo terá raízes no meio-oeste do Japão. É lá, entre as cidades de Osaka e Nagoya, que estão as grandes indústrias de eletroeletrônicos, como a Panasonic, e de automóveis, como a Toyota. É lá, também, que se concentram 62% dos negócios do UFJ Holdings. O Mitsubishi estava de olho nesse mercado. Com a fusão, concordou em injetar 4,5 bilhões de dólares no caixa do parceiro japonês como contrapartida para a transação. "Nosso objetivo é conquistar uma base sólida de clientes na parte oeste e central do país", afirmou a VEJA Kohei Tsushime, chefe do departamento de comunicação corporativa do MTFG. O dinheiro servirá para reforçar as reservas do UFJ. Por sua vez, o UFJ vai ganhar acesso aos grandes clientes empresariais de Tóquio e ao mercado externo.

 







Fotos: Roberto Stelzer e Antonio Milena
 
 
 
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