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Economia e Negócios
A recuperação
de
fora para dentro
Pela primeira
vez em vinte anos,
o Brasil tem aumento forte do
mercado interno e das exportações

Chrystiane Silva
Jorge Araujo/Folha Imagem
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| Porto de Santos:
o
Brasil tem o segundo maior saldo comercial
entre os países emergentes
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Nos últimos dez anos,
a economia brasileira viveu em ritmo de montanha-russa. Em pelo menos
dois momentos a partir de 1994, com o Plano Real, e 2000, ano
seguinte à desvalorização da moeda pareceu
estar entrando na rota do crescimento, mas, em seguida, voltou a despencar.
Os motivos que levaram à queda do produto interno bruto (PIB)
são semelhantes e apontam principalmente para a vulnerabilidade
externa, que fez o país ser atingido com intensidades variadas
pelo efeito de crises no México, na Tailândia, na Rússia
ou na Argentina. O Brasil também sofreu com o apagão
em 2001 e o medo gerado em 2002 pela expectativa de vitória
do PT na eleição. Agora, inicia-se um novo movimento
de recuperação e o país vê-se às
voltas com a dúvida sobre se, desta vez, a história
pode ser diferente. Para boa parte dos economistas, a resposta é
sim, e o motivo é bem palpável. Pela primeira vez em
vinte anos, o Brasil está conseguindo aumentar ao mesmo tempo
o ritmo de crescimento do mercado interno e o das vendas externas.
Nos últimos
doze meses, o Brasil só perdeu para a Rússia, rica
em petróleo, no ranking dos emergentes que registraram os
maiores saldos comerciais. Os cerca de 31 bilhões de dólares
de saldo são bem-vindos por três motivos. Primeiro,
porque são fruto da conquista de mercados no exterior, não
apenas conseqüência da redução das importações.
Segundo, porque ajudam a diminuir a percepção de risco
do país. Entre outras coisas, os investidores costumam examinar
a relação entre exportações e a dívida
externa para aferir a vulnerabilidade. Em terceiro lugar, porque
esses 31 bilhões de dólares servem como uma almofada
para o crescimento. Com a retomada, as importações
já começaram a aumentar, o que é positivo porque
demonstra maior integração do país à
economia mundial. Fala-se muito do sucesso do modelo exportador
dos Tigres Asiáticos, mas esquece-se por vezes de mencionar
que suas importações também são muito
altas. "Estamos vivendo uma situação diferente das
outras fases de recuperação porque temos sinais de
uma mudança estrutural e profunda. Trata-se da abertura da
economia como processo consistente e sistemático", diz o
economista Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial
da Fundação Getúlio Vargas.
A previsão
é que neste ano as exportações cheguem a cerca
de 90 bilhões de dólares, mais de 60% de crescimento
se comparado a 1999. "A exportação foi o chute inicial
para desencadear o processo de crescimento da economia", diz Cristiano
Souza, economista-chefe da MB Associados. Além do resultado
positivo das vendas externas, houve uma melhora do consumo interno
patrocinada pela queda consistente dos juros desde meados do ano
passado, que só foi possível graças ao forte
ajuste fiscal. A taxa real, descontada a inflação,
é a segunda mais baixa desde 1990 e deve ficar em torno de
8% neste ano. No primeiro semestre, a indústria produziu
7,7% a mais e usou 83% de sua capacidade, um dos maiores índices
desde os anos 90. Com o aumento da produção, a taxa
de desemprego caiu para 11,7% em junho, o menor patamar desde janeiro.
O crédito ao consumidor aumentou e o brasileiro foi às
compras. As vendas do comércio varejista cresceram 8,48%.
Está longe de ser o ideal, mas, na comparação
com os últimos dois anos, é uma conquista.
Conquista
de verdade será manter o país na direção
correta. As condições econômicas são
muito favoráveis. Mas é importante que o governo Lula
persista no ajuste fiscal e consiga, com isso, reduzir a dívida
pública, que é de 56%. Esse é um dos sinais
mais importantes a ser dados para manter a confiança dos
investidores no país. E foi o que faltou no Plano Real. Em
1994, a drástica queda da inflação dava ao
governo todas as condições políticas para promover
ajuste fiscal e reformas estruturais, mas o ajuste foi tímido
e as reformas foram apenas iniciadas. Além disso, até
1999, as exportações ficaram muito prejudicadas pela
política cambial, que sobrevalorizou o real. Agora a situação
é muito mais favorável. "Estamos perto de um modelo
ganhador em termos de crescimento", diz Langoni, da FGV.
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