Edição 1867 . 18 de agosto de 2004

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Tudo pelos louros

Vencer, vencer e vencer: esse era
o espírito olímpico da Antiguidade

Thereza Venturoli

 

 
Reuters
Turistas visitam o Partenon: o princípio democrático grego era o da igualdade para iguais

Tolerância, fraternidade e igualdade: foi com esses ideais em mente que, em 1892, o barão Pierre de Coubertin apresentou à comunidade esportiva internacional a idéia de ressuscitar os Jogos Olímpicos. Coubertin, porém, era um filho de seu tempo, e pensava com o romantismo típico dele – que nada tinha em comum com os costumes da Grécia antiga. Nos jogos que se realizavam na cidade sagrada de Olímpia (segundo os registros históricos, entre o século VIII a.C. e o século IV d.C.), apenas competir, sem vencer, equivalia à desonra suprema. As corridas, as lutas, os saltos e os lançamentos de disco e de dardo serviam como a coroação da superioridade do indivíduo, oferecida em homenagem ao deus Zeus. E eram também, acima de tudo, a confirmação do caráter competitivo dos gregos, flagrante tanto em campos de batalhas quanto em praças de paz.

Os gregos competiam em tudo – nas artes da guerra, nos esportes, na poesia, na pintura, na escultura. "Ser sempre o melhor e sobrepujar os outros" é a recomendação que Peleu dá ao seu filho, o herói Aquiles, na Ilíada de Homero. Tudo o que os gregos legaram à civilização ocidental (e que não é pouco) está tingido com a marca da rivalidade. No dia-a-dia helênico, não faltavam concursos. Desde a escola, os jovens eram incentivados a medir forças nos mais diversos campos do conhecimento – da oratória à música, das artes plásticas aos esportes. Cada estátua de mármore ou bronze só era erigida após um criterioso processo de seleção do melhor escultor. Cada tragédia era encenada diante de rígidos juízes, que indicavam o autor de maior talento. Até a mitologia grega exala emulação: deuses disputam regiões, heróis se batem por glória, casamentos são acertados conforme se vence esta ou aquela contenda. E, seja na mitologia, seja no cotidiano, o atletismo sempre foi a régua pela qual os gregos comparavam os seus feitos.


Como os Jogos Olímpicos da Antiguidade perduraram por cerca de 1 200 anos, é de imaginar que suas regras e conceitos tenham se modificado no decorrer desse tempo. Uma coisa que nunca mudou neles, porém, foi o ideal da vitória a qualquer custo. Que ninguém se deixe enganar pelo simbolismo singelo da coroa de louros – única premiação oficial para os campeões. Conquistar a posição de "o primeiro entre os melhores" trazia não só reputação de herói, mas outros privilégios muito convenientes. A reboque da consagração no estádio, a sociedade cedia ao vitorioso honras de guerreiro, com direito a banquetes, encomenda de poemas de louvor, construção de estátuas e, eventualmente, mordomias vitalícias, que incluíam moradia e refeições pagas por sua cidade-Estado. É claro que os campeões das Olimpíadas atuais também voltam para casa com uma medalha – de ouro, prata ou bronze – e cobertos de glória, abrindo caminho entre enxames de fãs, eternizados em fotos de jornais e imagens de televisão e com maior cacife entre os patrocinadores. Mas há diferenças marcantes entre o espírito olímpico atual e o da Antiguidade.

Os Jogos Olímpicos da era moderna convocam representantes de todas as partes do mundo, em prol da solidariedade, da amizade, da paz e da diversidade étnica, numa celebração da democracia e da igualdade entre os povos. Bem, é verdade que não se podem considerar democráticas e igualitárias as condições em que disputam uma prova de corrida um americano – que tem a seu dispor, da alimentação aos uniformes, a tecnologia esportiva mais avançada – e um queniano descalço que lapidou o talento para a velocidade fugindo de leões. Mas, entre os antigos, a democracia e a igualdade também não eram conceitos tão universalizantes assim. Igualitário, para eles, era convidar para as competições representantes das cidades-Estados e das colônias gregas de além-mar. Esses povos congraçavam-se como irmãos, adoradores dos mesmos deuses e falantes da mesma língua. Estrangeiros – que os gregos chamavam de "bárbaros" – não eram admitidos. Não podiam participar, também, escravos e mulheres. Ou seja, era a igualdade para os iguais. Talvez por isso não fosse tão difícil impor a chamada "trégua sagrada" – um período em que se suspendiam todos os conflitos armados, antes, durante e depois das Olimpíadas.

Alguns detalhes os Jogos Olímpicos modernos guardaram da Antiguidade. Por exemplo, a tradição do doping. Historiadores relatam que, a fim de garantir um lugar no panteão dos heróis atléticos, os gregos também ingeriam substâncias – plantas, sementes, cogumelos e raízes – que aumentavam sua resistência ou força. Outra tradição também pouco honrosa que resistiu aos séculos foi a da honestidade, digamos, menos do que absoluta. Geralmente, trapaças e quebra das regras eram punidas com castigos corporais, multas e difamação do fraudador. Mas, sob a égide do Império Romano, a posição social e política de cada competidor podia fazer muita diferença no resultado de uma prova. Assim é que, no século I, o imperador Nero ganhou todas as provas nas quais se inscrevera – não porque fosse melhor que seus adversários, mas porque mandou que eles se retirassem da disputa.

 
 
 
 
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