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Tudo
pelos louros
Vencer, vencer
e vencer: esse era
o espírito olímpico da Antiguidade
Thereza Venturoli
Reuters
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| Turistas visitam o Partenon:
o princípio democrático grego era o da igualdade
para iguais |
Tolerância,
fraternidade e igualdade: foi com esses ideais em mente que, em
1892, o barão Pierre de Coubertin apresentou à comunidade
esportiva internacional a idéia de ressuscitar os Jogos Olímpicos.
Coubertin, porém, era um filho de seu tempo, e pensava com
o romantismo típico dele que nada tinha em comum com
os costumes da Grécia antiga. Nos jogos que se realizavam
na cidade sagrada de Olímpia (segundo os registros históricos,
entre o século VIII a.C. e o século IV d.C.), apenas
competir, sem vencer, equivalia à desonra suprema. As corridas,
as lutas, os saltos e os lançamentos de disco e de dardo
serviam como a coroação da superioridade do indivíduo,
oferecida em homenagem ao deus Zeus. E eram também, acima
de tudo, a confirmação do caráter competitivo
dos gregos, flagrante tanto em campos de batalhas quanto em praças
de paz.
Os gregos
competiam em tudo nas artes da guerra, nos esportes, na poesia,
na pintura, na escultura. "Ser sempre o melhor e sobrepujar os outros"
é a recomendação que Peleu dá ao seu
filho, o herói Aquiles, na Ilíada de Homero.
Tudo o que os gregos legaram à civilização
ocidental (e que não é pouco) está tingido
com a marca da rivalidade. No dia-a-dia helênico, não
faltavam concursos. Desde a escola, os jovens eram incentivados
a medir forças nos mais diversos campos do conhecimento
da oratória à música, das artes plásticas
aos esportes. Cada estátua de mármore ou bronze só
era erigida após um criterioso processo de seleção
do melhor escultor. Cada tragédia era encenada diante de
rígidos juízes, que indicavam o autor de maior talento.
Até a mitologia grega exala emulação: deuses
disputam regiões, heróis se batem por glória,
casamentos são acertados conforme se vence esta ou aquela
contenda. E, seja na mitologia, seja no cotidiano, o atletismo sempre
foi a régua pela qual os gregos comparavam os seus feitos.
Como
os Jogos Olímpicos da Antiguidade perduraram por cerca de
1 200 anos, é de imaginar que suas regras e conceitos tenham
se modificado no decorrer desse tempo. Uma coisa que nunca mudou
neles, porém, foi o ideal da vitória a qualquer custo.
Que ninguém se deixe enganar pelo simbolismo singelo da coroa
de louros única premiação oficial para
os campeões. Conquistar a posição de "o primeiro
entre os melhores" trazia não só reputação
de herói, mas outros privilégios muito convenientes.
A reboque da consagração no estádio, a sociedade
cedia ao vitorioso honras de guerreiro, com direito a banquetes,
encomenda de poemas de louvor, construção de estátuas
e, eventualmente, mordomias vitalícias, que incluíam
moradia e refeições pagas por sua cidade-Estado. É
claro que os campeões das Olimpíadas atuais também
voltam para casa com uma medalha de ouro, prata ou bronze
e cobertos de glória, abrindo caminho entre enxames
de fãs, eternizados em fotos de jornais e imagens de televisão
e com maior cacife entre os patrocinadores. Mas há diferenças
marcantes entre o espírito olímpico atual e o da Antiguidade.
Os Jogos
Olímpicos da era moderna convocam representantes de todas
as partes do mundo, em prol da solidariedade, da amizade, da paz
e da diversidade étnica, numa celebração da
democracia e da igualdade entre os povos. Bem, é verdade
que não se podem considerar democráticas e igualitárias
as condições em que disputam uma prova de corrida
um americano que tem a seu dispor, da alimentação
aos uniformes, a tecnologia esportiva mais avançada
e um queniano descalço que lapidou o talento para a velocidade
fugindo de leões. Mas, entre os antigos, a democracia e a
igualdade também não eram conceitos tão universalizantes
assim. Igualitário, para eles, era convidar para as competições
representantes das cidades-Estados e das colônias gregas de
além-mar. Esses povos congraçavam-se como irmãos,
adoradores dos mesmos deuses e falantes da mesma língua.
Estrangeiros que os gregos chamavam de "bárbaros"
não eram admitidos. Não podiam participar,
também, escravos e mulheres. Ou seja, era a igualdade para
os iguais. Talvez por isso não fosse tão difícil
impor a chamada "trégua sagrada" um período
em que se suspendiam todos os conflitos armados, antes, durante
e depois das Olimpíadas.
Alguns
detalhes os Jogos Olímpicos modernos guardaram da Antiguidade.
Por exemplo, a tradição do doping. Historiadores relatam
que, a fim de garantir um lugar no panteão dos heróis
atléticos, os gregos também ingeriam substâncias
plantas, sementes, cogumelos e raízes que aumentavam
sua resistência ou força. Outra tradição
também pouco honrosa que resistiu aos séculos foi
a da honestidade, digamos, menos do que absoluta. Geralmente, trapaças
e quebra das regras eram punidas com castigos corporais, multas
e difamação do fraudador. Mas, sob a égide
do Império Romano, a posição social e política
de cada competidor podia fazer muita diferença no resultado
de uma prova. Assim é que, no século I, o imperador
Nero ganhou todas as provas nas quais se inscrevera não
porque fosse melhor que seus adversários, mas porque mandou
que eles se retirassem da disputa.
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