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A
aposta do
homem anfíbio
Atleta
mais badalado em
Atenas,
o sonho do nadador americano
Michael Phelps é ganhar oito
medalhas de ouro e entrar para
a história dos Jogos

Diogo Schelp
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| Phelps, em
seu habitat :
braços quase 10
centímetros mais compridos que o corpo o ajudam a nadar
mais rápido |
O americano
Michael Phelps não parece feito para se movimentar em terra
firme. Quando caminha, suas pernas curtas mal conseguem equilibrar
o tronco longo e os ombros largos. Os braços compridos pendem
desajeitados junto ao quadril estreito. Com freqüência,
o rapaz tropeça nas próprias pernas. Já na
água ele esbanja graciosidade. Dentro da piscina, a anatomia
bizarra faz dele uma espécie de canoa longa e leve, capaz
de deslizar em alta velocidade pela superfície com a ajuda
do par de remos extragrandes. Graças a essas características
físicas, Phelps é um dos melhores nadadores da atualidade.
Com apenas 19 anos, detém três recordes mundiais e
ficou a uma unha de distância de um quarto. Num esporte em
que a maioria dos atletas ficaria feliz em se classificar para uma
única modalidade, ele disputa oito medalhas em Atenas
o mais fascinante é que seu objetivo é ganhar cada
uma delas e, assim, bater o recorde de seu conterrâneo Mark
Spitz. Com sete medalhas de ouro na natação nas Olimpíadas
de Munique, em 1972, Spitz é o atleta com o maior número
de vitórias em uma única edição do evento.
É uma marca difícil de superar, mas Phelps foi moldado
pela natureza e pelo treinamento para bater recordes.
No último
campeonato mundial, em Barcelona, na Espanha, Phelps bateu cinco
recordes dois no mesmo dia, o que nunca havia sido feito
antes. E, ao contrário da maioria dos atletas que preferem
se especializar em um estilo, ele é versátil: destaca-se
nos nados livre, borboleta e costas. Por isso é quase imbatível
no medley, a modalidade que combina os quatro estilos de natação.
Phelps é um nadador perfeito, mas a tarefa de ultrapassar
a marca de Spitz é praticamente impossível. Nos anos
70, ele não tinha adversários tão bons como
os que competem na natação hoje. Em algumas das provas
que vai disputar, o favorito não é Phelps, mas atletas
como o australiano Ian Thorpe e o americano Ian Crocker.
Talvez para
parecer mais modesto ou para tornar menos traumático um possível
fracasso, Phelps se diz satisfeito se ganhar uma medalha de ouro
em Atenas. Partindo de um competidor como ele, que odeia perder,
é uma afirmação que ninguém no mundo
do esporte poderia levar a sério. O nadador conquistou o
quinto lugar na prova de 200 metros borboleta nas Olimpíadas
de Sydney, em 2000. Para um atleta de 15 anos, foi um resultado
espetacular, mas Phelps voltou para casa frustrado por não
ter levado o ouro.
Pendurada
na parede de seu quarto, em Baltimore, há uma foto de Ian
Crocker. Em 2003, no último campeonato mundial, ele venceu
Phelps nos 100 metros borboleta. Como a derrota ocorreu em uma de
suas provas favoritas, a foto é uma provocação
que Phelps impôs a si mesmo. Até a viagem para Atenas,
ele acordava todos os dias às 6 da manhã, olhava para
a imagem de Crocker no pódio e ia treinar com ainda mais
vontade. A motivação, aliás, parece estar em
seu código genético. Nos últimos sete anos,
Phelps só ficou cinco dias sem treinar. Nada 80 quilômetros
por semana, cinco horas por dia e, ao contrário da maioria
dos nadadores, não faz musculação nem corre.
Ele simplesmente não se adapta bem aos exercícios
em terra.
A ambição
de vencer oito provas em Atenas transformou Phelps na maior sensação
do início dos Jogos Olímpicos. Na semana passada,
suas entrevistas coletivas reuniam o maior número de jornalistas.
Isso despertou a inveja dos outros nadadores, inclusive americanos.
Alguns de seus colegas de equipe queriam que ele deixasse de participar
de pelo menos uma das provas de revezamento. A decisão sobre
quem integra a equipe nesse tipo de disputa é do treinador.
Se conseguisse chegar à final de todas as oito categorias
que pretendia disputar, Phelps teria de pular na água vinte
vezes em oito dias. O desgaste físico de competir em tantas
provas é enorme. Mais do que qualquer outro nadador, Phelps
está preparado para isso. Em maio passado, especialistas
mediram a taxa de ácido lático no sangue do atleta
após uma prova exaustiva. O índice foi muito baixo:
5 milimols por litro de sangue. O normal seria uma taxa entre 10
e 15 milimols por litro. Quanto mais baixa a concentração
de ácido lático no corpo depois de uma atividade física
intensa, maior é a capacidade de os músculos se recuperarem
do esforço. "Em geral, um nadador demora dois ou três
dias para se recuperar totalmente de uma prova", diz Marcos Bernhoefit,
médico da Confederação Brasileira de Desportos
Aquáticos. No caso de Phelps, vinte minutos após competir
seu corpo já está como novo, pronto para outra.
O americano
tem praticamente todos os atributos de um nadador ideal. Suas juntas
são superflexíveis, o que permite um movimento mais
efetivo de braços, pernas e quadris. Seu cotovelo, por exemplo,
flexiona para trás 10 graus além do normal. Phelps
possui braços longos e mãos e pés grandes,
o que ajuda a deslocar mais água e, portanto, melhora o desempenho
das braçadas e das pernadas. Ele tem 1,95 metro de altura,
mas as pernas são de um homem bem mais baixo. Isso traz duas
vantagens: primeiro, as pernas pequenas significam menos massa para
arrastar com a força dos braços e, segundo, o centro
gravitacional do corpo fica mais próximo dos pulmões,
o que facilita a flutuação. Phelps tem também
habilidade natural para posicionar o corpo corretamente na água,
exigindo poucas correções de estilo. Ele nada tão
rápido que se dá ao luxo de investir pouco nos momentos
da prova em que é mais lento: na largada e na virada. Seu
reflexo não é dos melhores e ele com freqüência
é o último a cair na água. Desengonçado,
ele sobe no bloco de largada pelo lado, que é mais baixo
que a parte de trás. Tudo isso é compensado pela estrutura
corporal e pelo metabolismo, que foram condicionados à piscina
desde cedo.
O fenômeno
da natação mundial começou no esporte aos 7
anos de idade, incentivado pela irmã, nadadora de elite que
por pouco não participou das Olimpíadas de Atlanta,
em 1996. No início, o pequeno Michael tinha pânico
de colocar o rosto na água. Só conseguia nadar de
costas. Aos poucos foi perdendo o medo e revelando sua verdadeira
vocação. Na escola, Michael Phelps era hiperativo
e tinha dificuldade de se concentrar nas aulas. Na piscina, era
imbatível. Aos 11 anos, o treinador Bob Bowman disse a seus
pais que, com dedicação, Michael se tornaria um dos
melhores nadadores do mundo. Desde então, sua vida se concentrou
no esporte. O pai, um policial, separou-se da família quando
Phelps tinha 9 anos e tem pouco contato com o filho. Já a
mãe e o treinador cercam o rapaz de cuidados. Repetem todo
o tempo que ele não deve beber do copo dos outros para não
correr o risco de ingerir alguma substância proibida pelas
regras antidoping. E que não deve praticar nenhum outro esporte
para não se machucar. Phelps viajou por todo o globo para
disputar competições e não viu muita coisa
por onde passou, porque mal saiu dos hotéis e das piscinas.
A recompensa
por tanto esforço e privação veio em dinheiro.
Phelps já assegurou 5 milhões de dólares em
patrocínio. A Speedo, um de seus patrocinadores, prometeu-lhe
mais 1 milhão de dólares se conseguisse conquistar
pelo menos sete medalhas de ouro em Atenas. Para cada recorde que
bate, sua mãe, Deborah, lhe permite um pequeno luxo: incrementar
e envenenar seu Cadillac com acessórios iguais aos dos carros
dos cantores de rap, seus maiores ídolos. "Acho que já
ganhei bastante dinheiro para um garoto da minha idade", costuma
dizer Phelps. Calcula-se que, se for bem nestes Jogos Olímpicos,
pode ganhar entre 30 milhões e 50 milhões de dólares
nos próximos anos. Phelps vale o que lhe pagam. "Mesmo nadando
com um braço e uma perna amarrados ele teria chance de conquistar
uma medalha", exagera Alberto Pinto da Silva, um dos treinadores
da equipe brasileira de natação. Do jeito que gosta
de desafios, Phelps talvez até fosse capaz de dar essa colher
de chá aos oponentes.
Com
reportagem de Gustavo
Poloni
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