Edição 1867 . 18 de agosto de 2004

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A aposta do
homem anfíbio

Atleta mais badalado em Atenas,
o sonho do nadador americano
Michael Phelps é ganhar oito
medalhas de ouro e entrar para
a história dos Jogos


Diogo Schelp



Phelps, em seu habitat : braços quase 10 centímetros mais compridos que o corpo o ajudam a nadar mais rápido


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Feito para a água

O americano Michael Phelps não parece feito para se movimentar em terra firme. Quando caminha, suas pernas curtas mal conseguem equilibrar o tronco longo e os ombros largos. Os braços compridos pendem desajeitados junto ao quadril estreito. Com freqüência, o rapaz tropeça nas próprias pernas. Já na água ele esbanja graciosidade. Dentro da piscina, a anatomia bizarra faz dele uma espécie de canoa longa e leve, capaz de deslizar em alta velocidade pela superfície com a ajuda do par de remos extragrandes. Graças a essas características físicas, Phelps é um dos melhores nadadores da atualidade. Com apenas 19 anos, detém três recordes mundiais e ficou a uma unha de distância de um quarto. Num esporte em que a maioria dos atletas ficaria feliz em se classificar para uma única modalidade, ele disputa oito medalhas em Atenas – o mais fascinante é que seu objetivo é ganhar cada uma delas e, assim, bater o recorde de seu conterrâneo Mark Spitz. Com sete medalhas de ouro na natação nas Olimpíadas de Munique, em 1972, Spitz é o atleta com o maior número de vitórias em uma única edição do evento. É uma marca difícil de superar, mas Phelps foi moldado pela natureza e pelo treinamento para bater recordes.

No último campeonato mundial, em Barcelona, na Espanha, Phelps bateu cinco recordes – dois no mesmo dia, o que nunca havia sido feito antes. E, ao contrário da maioria dos atletas que preferem se especializar em um estilo, ele é versátil: destaca-se nos nados livre, borboleta e costas. Por isso é quase imbatível no medley, a modalidade que combina os quatro estilos de natação. Phelps é um nadador perfeito, mas a tarefa de ultrapassar a marca de Spitz é praticamente impossível. Nos anos 70, ele não tinha adversários tão bons como os que competem na natação hoje. Em algumas das provas que vai disputar, o favorito não é Phelps, mas atletas como o australiano Ian Thorpe e o americano Ian Crocker.

Talvez para parecer mais modesto ou para tornar menos traumático um possível fracasso, Phelps se diz satisfeito se ganhar uma medalha de ouro em Atenas. Partindo de um competidor como ele, que odeia perder, é uma afirmação que ninguém no mundo do esporte poderia levar a sério. O nadador conquistou o quinto lugar na prova de 200 metros borboleta nas Olimpíadas de Sydney, em 2000. Para um atleta de 15 anos, foi um resultado espetacular, mas Phelps voltou para casa frustrado por não ter levado o ouro.

Pendurada na parede de seu quarto, em Baltimore, há uma foto de Ian Crocker. Em 2003, no último campeonato mundial, ele venceu Phelps nos 100 metros borboleta. Como a derrota ocorreu em uma de suas provas favoritas, a foto é uma provocação que Phelps impôs a si mesmo. Até a viagem para Atenas, ele acordava todos os dias às 6 da manhã, olhava para a imagem de Crocker no pódio e ia treinar com ainda mais vontade. A motivação, aliás, parece estar em seu código genético. Nos últimos sete anos, Phelps só ficou cinco dias sem treinar. Nada 80 quilômetros por semana, cinco horas por dia e, ao contrário da maioria dos nadadores, não faz musculação nem corre. Ele simplesmente não se adapta bem aos exercícios em terra.

A ambição de vencer oito provas em Atenas transformou Phelps na maior sensação do início dos Jogos Olímpicos. Na semana passada, suas entrevistas coletivas reuniam o maior número de jornalistas. Isso despertou a inveja dos outros nadadores, inclusive americanos. Alguns de seus colegas de equipe queriam que ele deixasse de participar de pelo menos uma das provas de revezamento. A decisão sobre quem integra a equipe nesse tipo de disputa é do treinador. Se conseguisse chegar à final de todas as oito categorias que pretendia disputar, Phelps teria de pular na água vinte vezes em oito dias. O desgaste físico de competir em tantas provas é enorme. Mais do que qualquer outro nadador, Phelps está preparado para isso. Em maio passado, especialistas mediram a taxa de ácido lático no sangue do atleta após uma prova exaustiva. O índice foi muito baixo: 5 milimols por litro de sangue. O normal seria uma taxa entre 10 e 15 milimols por litro. Quanto mais baixa a concentração de ácido lático no corpo depois de uma atividade física intensa, maior é a capacidade de os músculos se recuperarem do esforço. "Em geral, um nadador demora dois ou três dias para se recuperar totalmente de uma prova", diz Marcos Bernhoefit, médico da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos. No caso de Phelps, vinte minutos após competir seu corpo já está como novo, pronto para outra.

O americano tem praticamente todos os atributos de um nadador ideal. Suas juntas são superflexíveis, o que permite um movimento mais efetivo de braços, pernas e quadris. Seu cotovelo, por exemplo, flexiona para trás 10 graus além do normal. Phelps possui braços longos e mãos e pés grandes, o que ajuda a deslocar mais água e, portanto, melhora o desempenho das braçadas e das pernadas. Ele tem 1,95 metro de altura, mas as pernas são de um homem bem mais baixo. Isso traz duas vantagens: primeiro, as pernas pequenas significam menos massa para arrastar com a força dos braços e, segundo, o centro gravitacional do corpo fica mais próximo dos pulmões, o que facilita a flutuação. Phelps tem também habilidade natural para posicionar o corpo corretamente na água, exigindo poucas correções de estilo. Ele nada tão rápido que se dá ao luxo de investir pouco nos momentos da prova em que é mais lento: na largada e na virada. Seu reflexo não é dos melhores e ele com freqüência é o último a cair na água. Desengonçado, ele sobe no bloco de largada pelo lado, que é mais baixo que a parte de trás. Tudo isso é compensado pela estrutura corporal e pelo metabolismo, que foram condicionados à piscina desde cedo.

O fenômeno da natação mundial começou no esporte aos 7 anos de idade, incentivado pela irmã, nadadora de elite que por pouco não participou das Olimpíadas de Atlanta, em 1996. No início, o pequeno Michael tinha pânico de colocar o rosto na água. Só conseguia nadar de costas. Aos poucos foi perdendo o medo e revelando sua verdadeira vocação. Na escola, Michael Phelps era hiperativo e tinha dificuldade de se concentrar nas aulas. Na piscina, era imbatível. Aos 11 anos, o treinador Bob Bowman disse a seus pais que, com dedicação, Michael se tornaria um dos melhores nadadores do mundo. Desde então, sua vida se concentrou no esporte. O pai, um policial, separou-se da família quando Phelps tinha 9 anos e tem pouco contato com o filho. Já a mãe e o treinador cercam o rapaz de cuidados. Repetem todo o tempo que ele não deve beber do copo dos outros para não correr o risco de ingerir alguma substância proibida pelas regras antidoping. E que não deve praticar nenhum outro esporte para não se machucar. Phelps viajou por todo o globo para disputar competições e não viu muita coisa por onde passou, porque mal saiu dos hotéis e das piscinas.

A recompensa por tanto esforço e privação veio em dinheiro. Phelps já assegurou 5 milhões de dólares em patrocínio. A Speedo, um de seus patrocinadores, prometeu-lhe mais 1 milhão de dólares se conseguisse conquistar pelo menos sete medalhas de ouro em Atenas. Para cada recorde que bate, sua mãe, Deborah, lhe permite um pequeno luxo: incrementar e envenenar seu Cadillac com acessórios iguais aos dos carros dos cantores de rap, seus maiores ídolos. "Acho que já ganhei bastante dinheiro para um garoto da minha idade", costuma dizer Phelps. Calcula-se que, se for bem nestes Jogos Olímpicos, pode ganhar entre 30 milhões e 50 milhões de dólares nos próximos anos. Phelps vale o que lhe pagam. "Mesmo nadando com um braço e uma perna amarrados ele teria chance de conquistar uma medalha", exagera Alberto Pinto da Silva, um dos treinadores da equipe brasileira de natação. Do jeito que gosta de desafios, Phelps talvez até fosse capaz de dar essa colher de chá aos oponentes.

Com reportagem de Gustavo Poloni

 
 
 
 
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