Edição 1867 . 18 de agosto de 2004

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Especial
O Brasil na festa

Uma grande delegação e pouca expectativa de
medalhas são marcas da participação brasileira
em Atenas


André Fontenelle, de Atenas


AFP


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Como se faz uma nota 10

EXCLUSIVO ON-LINE
Cobertura das Olimpíadas

A baixa relevância do Brasil no cenário dos esportes olímpicos funciona como estímulo à torcida – que comemorará como uma vitória extraordinária qualquer medalha de ouro conquistada em Atenas – e faz dobrar o peso sobre as costas dos poucos atletas nacionais que têm alguma chance de sair dos Jogos com algum prêmio na bagagem. No centro desse palco, Daiane dos Santos começa esta semana de provas não com a perspectiva de se tornar a heroína de um país pobre demais para gastar com esporte, mas sim cobrada pela responsabilidade de tirar 10, a nota máxima, num tipo de competição em que o julgamento tem lá sua subjetividade. É quase certo que a ginasta perderá alguns décimos de ponto na parte artística de suas apresentações, já que pratica uma espécie de ginástica-força (veja como é feita a pontuação no quadro). "Ela é muito dinâmica e veloz, pula mais alto que todas, mas não é tão elegante", avisa a juíza japonesa Rieko Sakurai. "A Elena Gómez é mais artista."

Elena – vale anotar para conferir depois – é uma espanhola de 18 anos e rosto infantil que ganhou o campeonato mundial na disputa de solo um ano antes de Daiane. O confronto entre as duas ginastas começa no domingo 15, nas provas classificatórias realizadas no ginásio Olympiako Klisto Gymnastiro, e terá o desfecho na próxima semana, na final individual. O joelho da ginasta do Brasil, operado em junho, ainda falhava na quinta-feira a ponto de impedir que realizasse a sua pirueta mais ousada. O duplo twist estendido, recém-criado, é um mortal duplo em que todo o corpo permanece esticado. Se bem executado, rende um bônus de 0,300 na pontuação. Não há certeza de que ela venha a realizá-lo na primeira fase da competição. Sob a vigilância permanente das câmeras, Daiane já venceu uma prova preliminar, a da pressão psicológica, com um fairplay de impressionar campeões. "Fiquei espantado por vê-la tratada como uma verdadeira deusa", diz Joaquim Cruz, campeão olímpico dos 800 metros rasos em 1984, que acompanhou treinamentos recentes da atleta. "É preciso ter estrutura para suportar tudo isso." Ela garante que tem. "Aqui dentro nada me incomoda", dizia, na Vila Olímpica, no meio da semana passada.

Reuters
A delegação do Brasil desfilando em Atenas e o treino da ginasta Daiane dos Santos na semana passada
Reuters

Manter os atletas ocupados com qualquer coisa que não seja a especulação sobre as disputas é o grande problema dos técnicos nos dias que antecedem cada prova. Os treinos, aliás, servem mais a esse relaxamento do que à busca de resultados. Quem tem chance real de levar medalha alcançou essa condição nas últimas semanas e não será louco de se expor a uma contusão ou a uma fadiga de material na véspera da competição. A revista americana Sports Illustrated apresenta tradicionalmente no período anterior às Olimpíadas seu pacote de apostas em medalhas. São previsões respeitadas como a de uma pitonisa grega no mundo esportivo e com taxa de acerto de 48% quanto aos medalhistas e de 22% na posição de cada um no pódio. A tecnologia dessa apuração é rudimentar. Analisam-se os últimos resultados, confere-se quem se machucou e se entrevistam dois especialistas. A divulgação do prognóstico define, na prática, quem será mais intensamente marcado pela mídia.


Divulgação COB
Vânia Ishii (de branco): desfile com uma coroa de ramos de oliveira na cabeça

Para o Brasil, o repórter Brian Cazeneuve, autor do levantamento, calculou uma coleta de doze medalhas, igual à de Sydney, mas de melhor qualidade: pelo menos quatro de ouro, contra nenhuma na Olimpíada anterior, outras quatro de prata e também quatro de bronze. No caso do judô, que alcançaria três terceiros lugares e um segundo, os consultados foram um atleta veterano e o dono de um site inglês sobre o esporte. Para os judocas, que na semana passada faziam sessões mistas de treinamento num apertado tablado do subúrbio ateniense de Dekelia, essa previsão equivale a mais um adversário a derrotar, fora do tatame. "Na hora da luta, não tem essa de previsões sobre quem vai ganhar, não", diz, invocando o equilíbrio nesse esporte, o parrudo judoca Carlos Honorato, de 1,75 metro e peso no limite na categoria dos médios, 90 quilos. "Se houver duas competições entre os mesmos lutadores num único dia, os pódios serão diferentes." Honorato, segundo a publicação, ficaria com a medalha de prata. Ele concorda que seu principal rival será mesmo "o rapaz da Geórgia", como chama Zurab Zviadauri, apontado como campeão. Na delegação do Brasil, também o meio-pesado Mário Sabino Júnior e o pesado Daniel Hernandes são cotados para medalhas, de bronze.


Wilton Junior/AE
Ricardo Correa
O nadador Gustavo Borges (à esq.), que se aposenta nestas Olimpíadas, e Thiago Pereira (à dir.), esperança de medalha de prata

A séria e fechada meio-pesado Ednanci Silva seria a única medalhista no judô feminino brasileiro. Mas quem desfilava animada pela Vila Olímpica, na semana passada, era a meio-médio Vânia Ishii. Filha de um sisudo judoca do passado, Chiaki Ishii, medalha de bronze em Munique, em 1972, ela conta ter lutado para lhe agradar nos Jogos de 2000, quando foi derrotada e ouviu dele, pouco depois, um raro elogio: "Otsukaresama (bom trabalho)". Agora, completando 31 anos nesta quinta-feira, na sua última chance olímpica, Vânia quer ouvir de novo essa expressão, por uma vitória. O pai, que sofreu um acidente recentemente, não estará na arquibancada. "Eu me cobrei de maneira muito negativa em Sydney", reconhece Vânia. Sua confiança aumentou a ponto de ter desfilado com uma coroa de ramos de oliveira na cabeça na cerimônia de abertura dos Jogos, na sexta-feira. Esse adereço era o que condecorava os campeões olímpicos na Antiguidade.

Outra chance concreta de os brasileiros terminarem a semana comemorando alguma coisa está na piscina do Centro Igrou Stivou, o parque aquático dos Jogos de Atenas. Thiago Pereira, um adolescente de 18 anos, aparelho nos dentes e bandeira do Brasil tatuada neste ano no tornozelo esquerdo, assume o posto de principal nome da natação, que pouco pode esperar dos veteranos Fernando Scherer e Gustavo Borges. Thiago vem baixando sistematicamente seus tempos nos 200 e nos 400 metros quatro estilos e já detém o recorde sul-americano das duas provas. Na primeira modalidade, tem o terceiro melhor tempo do ano. Nesse ritmo, chegaria ainda 5 metros atrás do fenômeno Michael Phelps, mas nos últimos doze meses reduziu a própria marca em três segundos. Essa evolução foi o bastante para torná-lo cotado à medalha de prata, mas diz que não se deixa iludir. "Minha diferença para o oitavo melhor tempo é de menos de um segundo", explica. Uma tendinite crônica no cotovelo direito, que o obriga a aplicações de gelo depois dos treinos, é outra dificuldade a derrotar.

O fato de que dois nadadores competitivos têm, hoje, apenas um substituto dá a medida da dificuldade de ampliar no país a formação de atletas de alto nível. Funcionam como sinais da mesma natureza a existência de uma única ginasta cotada para medalha, as previsões sobre o judô, a incerteza quanto ao desempenho de Gustavo Kuerten e até a alta expectativa sobre os velejadores de sempre e as seleções de vôlei – praticamente as únicas representantes de um trabalho consistente de formação esportiva. A delegação enviada a Atenas chama atenção por vários detalhes que têm pouco ou nada a ver com a competição. Conta com 246 atletas e 161 dirigentes e membros da comissão técnica. Nossos atletas estão entre os que mais utilizam os exíguos cinqüenta assentos da sala de acesso à internet na Vila Olímpica. Na parede de uma das salas de repouso dentro do setor brasileiro da Vila, há uma mensagem absolutamente inócua do "secretário nacional de Esportes de Alto Rendimento", André Arantes: "É objetivo do excelentíssimo senhor presidente da República ratificar à população brasileira o seu interesse pelo esporte do nosso país". Nenhum atleta foi visto lendo a mensagem. O ministro do Esporte, Agnelo Queiroz, escolheu hospedar-se no navio Queen Mary 2, um dos mais luxuosos do mundo. Em relação aos Jogos propriamente ditos, o papel do Brasil ainda é, em grande parte, o de engrossar a multidão concentrada na festa de abertura, na qual a delegação foi uma das campeãs em aplauso.

 
 
 
 
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