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Especial
O Brasil na festa
Uma grande delegação
e pouca expectativa de
medalhas são marcas da participação brasileira
em Atenas

André Fontenelle, de Atenas
AFP
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A baixa relevância do Brasil no cenário
dos esportes olímpicos funciona como estímulo à
torcida que comemorará como uma vitória extraordinária
qualquer medalha de ouro conquistada em Atenas e faz dobrar
o peso sobre as costas dos poucos atletas nacionais que têm
alguma chance de sair dos Jogos com algum prêmio na bagagem.
No centro desse palco, Daiane dos Santos começa esta semana
de provas não com a perspectiva de se tornar a heroína
de um país pobre demais para gastar com esporte, mas sim
cobrada pela responsabilidade de tirar 10, a nota máxima,
num tipo de competição em que o julgamento tem lá
sua subjetividade. É quase certo que a ginasta perderá
alguns décimos de ponto na parte artística de suas
apresentações, já que pratica uma espécie
de ginástica-força (veja
como é feita a pontuação no quadro).
"Ela é muito dinâmica e veloz, pula mais alto que todas,
mas não é tão elegante", avisa a juíza
japonesa Rieko Sakurai. "A Elena Gómez é mais artista."
Elena vale anotar para conferir depois
é uma espanhola de 18 anos e rosto infantil que ganhou
o campeonato mundial na disputa de solo um ano antes de Daiane.
O confronto entre as duas ginastas começa no domingo 15,
nas provas classificatórias realizadas no ginásio
Olympiako Klisto Gymnastiro, e terá o desfecho na próxima
semana, na final individual. O joelho da ginasta do Brasil, operado
em junho, ainda falhava na quinta-feira a ponto de impedir que realizasse
a sua pirueta mais ousada. O duplo twist estendido, recém-criado,
é um mortal duplo em que todo o corpo permanece esticado.
Se bem executado, rende um bônus de 0,300 na pontuação.
Não há certeza de que ela venha a realizá-lo
na primeira fase da competição. Sob a vigilância
permanente das câmeras, Daiane já venceu uma prova
preliminar, a da pressão psicológica, com um fairplay
de impressionar campeões. "Fiquei espantado por vê-la
tratada como uma verdadeira deusa", diz Joaquim Cruz, campeão
olímpico dos 800 metros rasos em 1984, que acompanhou treinamentos
recentes da atleta. "É preciso ter estrutura para suportar
tudo isso." Ela garante que tem. "Aqui dentro nada me incomoda",
dizia, na Vila Olímpica, no meio da semana passada.
Reuters
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| A delegação do Brasil desfilando
em Atenas e o treino da ginasta Daiane dos Santos na semana
passada |
Reuters
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Manter os atletas ocupados com qualquer coisa
que não seja a especulação sobre as disputas
é o grande problema dos técnicos nos dias que antecedem
cada prova. Os treinos, aliás, servem mais a esse relaxamento
do que à busca de resultados. Quem tem chance real de levar
medalha alcançou essa condição nas últimas
semanas e não será louco de se expor a uma contusão
ou a uma fadiga de material na véspera da competição.
A revista americana Sports Illustrated apresenta tradicionalmente
no período anterior às Olimpíadas seu pacote
de apostas em medalhas. São previsões respeitadas
como a de uma pitonisa grega no mundo esportivo e com taxa de acerto
de 48% quanto aos medalhistas e de 22% na posição
de cada um no pódio. A tecnologia dessa apuração
é rudimentar. Analisam-se os últimos resultados, confere-se
quem se machucou e se entrevistam dois especialistas. A divulgação
do prognóstico define, na prática, quem será
mais intensamente marcado pela mídia.
Divulgação
COB
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| Vânia Ishii (de branco): desfile
com uma coroa de ramos de oliveira na cabeça |
Para o Brasil, o repórter Brian Cazeneuve,
autor do levantamento, calculou uma coleta de doze medalhas, igual
à de Sydney, mas de melhor qualidade: pelo menos quatro de
ouro, contra nenhuma na Olimpíada anterior, outras quatro
de prata e também quatro de bronze. No caso do judô,
que alcançaria três terceiros lugares e um segundo,
os consultados foram um atleta veterano e o dono de um site inglês
sobre o esporte. Para os judocas, que na semana passada faziam sessões
mistas de treinamento num apertado tablado do subúrbio ateniense
de Dekelia, essa previsão equivale a mais um adversário
a derrotar, fora do tatame. "Na hora da luta, não tem essa
de previsões sobre quem vai ganhar, não", diz, invocando
o equilíbrio nesse esporte, o parrudo judoca Carlos Honorato,
de 1,75 metro e peso no limite na categoria dos médios, 90
quilos. "Se houver duas competições entre os mesmos
lutadores num único dia, os pódios serão diferentes."
Honorato, segundo a publicação, ficaria com a medalha
de prata. Ele concorda que seu principal rival será mesmo
"o rapaz da Geórgia", como chama Zurab Zviadauri, apontado
como campeão. Na delegação do Brasil, também
o meio-pesado Mário Sabino Júnior e o pesado Daniel
Hernandes são cotados para medalhas, de bronze.
Wilton Junior/AE
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Ricardo Correa
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| O nadador Gustavo Borges (à
esq.), que se aposenta nestas Olimpíadas, e Thiago
Pereira (à dir.), esperança de medalha
de prata |
A séria e fechada meio-pesado Ednanci
Silva seria a única medalhista no judô feminino brasileiro.
Mas quem desfilava animada pela Vila Olímpica, na semana
passada, era a meio-médio Vânia Ishii. Filha de um
sisudo judoca do passado, Chiaki Ishii, medalha de bronze em Munique,
em 1972, ela conta ter lutado para lhe agradar nos Jogos de 2000,
quando foi derrotada e ouviu dele, pouco depois, um raro elogio:
"Otsukaresama (bom trabalho)". Agora, completando 31 anos nesta
quinta-feira, na sua última chance olímpica, Vânia
quer ouvir de novo essa expressão, por uma vitória.
O pai, que sofreu um acidente recentemente, não estará
na arquibancada. "Eu me cobrei de maneira muito negativa em Sydney",
reconhece Vânia. Sua confiança aumentou a ponto de
ter desfilado com uma coroa de ramos de oliveira na cabeça
na cerimônia de abertura dos Jogos, na sexta-feira. Esse adereço
era o que condecorava os campeões olímpicos na Antiguidade.
Outra chance concreta de os brasileiros terminarem
a semana comemorando alguma coisa está na piscina do Centro
Igrou Stivou, o parque aquático dos Jogos de Atenas. Thiago
Pereira, um adolescente de 18 anos, aparelho nos dentes e bandeira
do Brasil tatuada neste ano no tornozelo esquerdo, assume o posto
de principal nome da natação, que pouco pode esperar
dos veteranos Fernando Scherer e Gustavo Borges. Thiago vem baixando
sistematicamente seus tempos nos 200 e nos 400 metros quatro estilos
e já detém o recorde sul-americano das duas provas.
Na primeira modalidade, tem o terceiro melhor tempo do ano. Nesse
ritmo, chegaria ainda 5 metros atrás do fenômeno Michael
Phelps, mas nos últimos doze meses reduziu a própria
marca em três segundos. Essa evolução foi o
bastante para torná-lo cotado à medalha de prata,
mas diz que não se deixa iludir. "Minha diferença
para o oitavo melhor tempo é de menos de um segundo", explica.
Uma tendinite crônica no cotovelo direito, que o obriga a
aplicações de gelo depois dos treinos, é outra
dificuldade a derrotar.
O fato de que dois nadadores competitivos
têm, hoje, apenas um substituto dá a medida da dificuldade
de ampliar no país a formação de atletas de
alto nível. Funcionam como sinais da mesma natureza a existência
de uma única ginasta cotada para medalha, as previsões
sobre o judô, a incerteza quanto ao desempenho de Gustavo
Kuerten e até a alta expectativa sobre os velejadores de
sempre e as seleções de vôlei praticamente
as únicas representantes de um trabalho consistente de formação
esportiva. A delegação enviada a Atenas chama atenção
por vários detalhes que têm pouco ou nada a ver com
a competição. Conta com 246 atletas e 161 dirigentes
e membros da comissão técnica. Nossos atletas estão
entre os que mais utilizam os exíguos cinqüenta assentos
da sala de acesso à internet na Vila Olímpica. Na
parede de uma das salas de repouso dentro do setor brasileiro da
Vila, há uma mensagem absolutamente inócua do "secretário
nacional de Esportes de Alto Rendimento", André Arantes:
"É objetivo do excelentíssimo senhor presidente da
República ratificar à população brasileira
o seu interesse pelo esporte do nosso país". Nenhum atleta
foi visto lendo a mensagem. O ministro do Esporte, Agnelo Queiroz,
escolheu hospedar-se no navio Queen Mary 2, um dos mais luxuosos
do mundo. Em relação aos Jogos propriamente ditos,
o papel do Brasil ainda é, em grande parte, o de engrossar
a multidão concentrada na festa de abertura, na qual a delegação
foi uma das campeãs em aplauso.
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