|
|
Internacional
Tripla ação
O governador
de Nova Jersey pula
a cerca, sai do armário e renuncia

Lizia Bydlowski
AP
 |
McGreevey depois do
discurso: mulher sorridente,
pai (à dir.) constrangido |
No fim da
semana, um furacão se formava no Oceano Atlântico e
ameaçava abater-se sobre a costa leste dos Estados Unidos.
No Estado de Nova Jersey, grudado de um lado em Nova York e de outro
no mar na rota, portanto, da intempérie , ninguém
estava ligando. Lá, só se falava em outro turbilhão:
a atitude tomada pelo governador democrata James McGreevey, que
num discurso de seis minutos transmitido em rede nacional pelas
TVs anunciou, de um fôlego só, que 1) é gay;
2) teve um caso com outro homem; e 3) decidiu renunciar ao cargo
a partir de 15 de novembro. Encerrado o pronunciamento, McGreevey
deu a mão à segunda mulher, a sorridente Dina Matos,
com quem tem uma filha de 2 anos (tem outra, de 12, com a primeira
mulher, que mora no Canadá), e, acompanhado do pai, Jack
(ex-fuzileiro naval e cara de total constrangimento), e da mãe,
Ronnie, foi embora sem falar com ninguém. Atônitos,
repórteres e assessores que lotavam o prédio do governo
na capital, Trenton, tentavam digerir as revelações.
Elas começaram
lá pelo meio do curto discurso. "Chega um ponto na vida da
pessoa em que ela tem de olhar fundo no espelho da alma e decifrar
sua verdade no mundo não como a desejamos, ou esperamos,
mas como é de fato. E a minha verdade é: sou um americano
gay." E mais adiante: "Estou aqui hoje porque, vergonhosamente,
mantive um relacionamento adulto e consensual com outro homem, o
que viola os laços do matrimônio. Foi errado. Foi estúpido.
Foi indesculpável". E por fim: "Dadas as circunstâncias
que cercam o relacionamento e seu provável impacto sobre
minha família e minha capacidade de governar, decidi que
o caminho certo é a renúncia. Para facilitar a transição,
ela entrará em vigor em 15 de novembro deste ano". Nos círculos
próximos ao governo estadual, havia muito se comentava sobre
a conduta sexual do governador, mas, para o eleitorado em geral,
foi absoluta surpresa. "Ninguém imaginava", disse a VEJA
a brasileira Silvia Schottinger, que mora em Nova Jersey há
vinte anos. "Na propaganda do governo, ele aparecia com a mulher
e a filhinha e a frase 'Um homem de família'", conta.
 |
Cipel: 5 milhões
de dólares
para não abrir processo e
não contar tudo |
McGreevey
assumiu o cargo em 2002 e ainda tinha um ano e meio de mandato pela
frente. No próprio dia da posse, já mexia os pauzinhos
para entronizar em uma sala no 2º andar da sede do governo
aquele que seria o pivô da crise: o israelense Golan Cipel,
35 anos, ex-soldado, ex-relações-públicas,
poeta nas horas vagas, uma figura meio misteriosa que ele conheceu
em visita a Israel dois anos antes e que cismou de nomear encarregado
da segurança antiterror. A nomeação de Cipel
não emplacou, visto que suas credenciais para o cargo, exaltadas
em um currículo preparado pelo gabinete do governador, eram
na verdade praticamente nulas. McGreevey fez dele então seu
assessor pessoal, com salário de 110.000 dólares por
ano, e assim permaneceu por oito meses, quando a falta de uma função
definida e a boataria incessante nas repartições
o obrigou a sair. McGreevey, impávido ombro amigo,
ainda lhe deu referências para outros dois empregos.
Dias antes
da renúncia, funcionários do governo de Nova Jersey
alertaram o FBI para o fato de que Cipel, que andara ameaçando
abrir um processo de assédio sexual contra o governador,
agora estava pedindo 5 milhões de dólares para pôr
uma pedra no assunto. Na sexta-feira, por intermédio de um
advogado, Cipel virou a história: disse que ele é
que foi vítima de "insistentes avanços sexuais" de
McGreevey, e que ele é que recebeu uma proposta em dinheiro
para ficar calado. Quanto a abrir o processo, foi enigmático:
"O tempo dirá". Supõe-se que, entre dois megaescândalos,
McGreevey tenha optado pelo menor ou, pelo menos, o que veio
acompanhado de mea-culpa. Pessoalmente dolorosa, como certamente
foi, a atitude do governador tem vertentes político-partidárias.
A começar por Cipel, boa parte de suas nomeações
foi alvo de críticas; dois secretários, do Comércio
e da Justiça, e o chefe de polícia tiveram de se afastar,
acusados de abuso de poder e negócios escusos. Dois grandes
financiadores de sua campanha estão sob investigação,
um deles por tentativa de extorsão (uma fita gravada enredaria
o próprio governador no caso). Como anotou o The New York
Times em seu editorial: "No turvo ambiente político que
o cerca, ser gay pode ser o menor dos problemas de McGreevey".
|