Edição 1867 . 18 de agosto de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
VEJA on-line
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Internacional
Tripla ação

O governador de Nova Jersey pula
a cerca, sai do armário e renuncia


Lizia Bydlowski

 
AP
McGreevey depois do discurso: mulher sorridente,
pai (à dir.) constrangido

EXCLUSIVO ON-LINE
Conheça o País: Estados Unidos

No fim da semana, um furacão se formava no Oceano Atlântico e ameaçava abater-se sobre a costa leste dos Estados Unidos. No Estado de Nova Jersey, grudado de um lado em Nova York e de outro no mar – na rota, portanto, da intempérie –, ninguém estava ligando. Lá, só se falava em outro turbilhão: a atitude tomada pelo governador democrata James McGreevey, que num discurso de seis minutos transmitido em rede nacional pelas TVs anunciou, de um fôlego só, que 1) é gay; 2) teve um caso com outro homem; e 3) decidiu renunciar ao cargo a partir de 15 de novembro. Encerrado o pronunciamento, McGreevey deu a mão à segunda mulher, a sorridente Dina Matos, com quem tem uma filha de 2 anos (tem outra, de 12, com a primeira mulher, que mora no Canadá), e, acompanhado do pai, Jack (ex-fuzileiro naval e cara de total constrangimento), e da mãe, Ronnie, foi embora sem falar com ninguém. Atônitos, repórteres e assessores que lotavam o prédio do governo na capital, Trenton, tentavam digerir as revelações.

Elas começaram lá pelo meio do curto discurso. "Chega um ponto na vida da pessoa em que ela tem de olhar fundo no espelho da alma e decifrar sua verdade no mundo – não como a desejamos, ou esperamos, mas como é de fato. E a minha verdade é: sou um americano gay." E mais adiante: "Estou aqui hoje porque, vergonhosamente, mantive um relacionamento adulto e consensual com outro homem, o que viola os laços do matrimônio. Foi errado. Foi estúpido. Foi indesculpável". E por fim: "Dadas as circunstâncias que cercam o relacionamento e seu provável impacto sobre minha família e minha capacidade de governar, decidi que o caminho certo é a renúncia. Para facilitar a transição, ela entrará em vigor em 15 de novembro deste ano". Nos círculos próximos ao governo estadual, havia muito se comentava sobre a conduta sexual do governador, mas, para o eleitorado em geral, foi absoluta surpresa. "Ninguém imaginava", disse a VEJA a brasileira Silvia Schottinger, que mora em Nova Jersey há vinte anos. "Na propaganda do governo, ele aparecia com a mulher e a filhinha e a frase 'Um homem de família'", conta.

Cipel: 5 milhões de dólares
para não abrir processo e
não contar tudo

McGreevey assumiu o cargo em 2002 e ainda tinha um ano e meio de mandato pela frente. No próprio dia da posse, já mexia os pauzinhos para entronizar em uma sala no 2º andar da sede do governo aquele que seria o pivô da crise: o israelense Golan Cipel, 35 anos, ex-soldado, ex-relações-públicas, poeta nas horas vagas, uma figura meio misteriosa que ele conheceu em visita a Israel dois anos antes e que cismou de nomear encarregado da segurança antiterror. A nomeação de Cipel não emplacou, visto que suas credenciais para o cargo, exaltadas em um currículo preparado pelo gabinete do governador, eram na verdade praticamente nulas. McGreevey fez dele então seu assessor pessoal, com salário de 110.000 dólares por ano, e assim permaneceu por oito meses, quando a falta de uma função definida – e a boataria incessante nas repartições – o obrigou a sair. McGreevey, impávido ombro amigo, ainda lhe deu referências para outros dois empregos.

Dias antes da renúncia, funcionários do governo de Nova Jersey alertaram o FBI para o fato de que Cipel, que andara ameaçando abrir um processo de assédio sexual contra o governador, agora estava pedindo 5 milhões de dólares para pôr uma pedra no assunto. Na sexta-feira, por intermédio de um advogado, Cipel virou a história: disse que ele é que foi vítima de "insistentes avanços sexuais" de McGreevey, e que ele é que recebeu uma proposta em dinheiro para ficar calado. Quanto a abrir o processo, foi enigmático: "O tempo dirá". Supõe-se que, entre dois megaescândalos, McGreevey tenha optado pelo menor – ou, pelo menos, o que veio acompanhado de mea-culpa. Pessoalmente dolorosa, como certamente foi, a atitude do governador tem vertentes político-partidárias. A começar por Cipel, boa parte de suas nomeações foi alvo de críticas; dois secretários, do Comércio e da Justiça, e o chefe de polícia tiveram de se afastar, acusados de abuso de poder e negócios escusos. Dois grandes financiadores de sua campanha estão sob investigação, um deles por tentativa de extorsão (uma fita gravada enredaria o próprio governador no caso). Como anotou o The New York Times em seu editorial: "No turvo ambiente político que o cerca, ser gay pode ser o menor dos problemas de McGreevey".

 
 
 
 
topo voltar