Edição 1867 . 18 de agosto de 2004

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França
A França joga duro
com os fanáticos

País com a maior população muçulmana
da Europa deporta clérigos islâmicos que
pregam o terror


José Eduardo Barella


Fotos AFP
AFP
O turco Guler, um dos oito estrangeiros deportados: processo sumário Costumes medievais no coração da Europa: muçulmanas em Paris

EXCLUSIVO ON-LINE
Em Profundidade: Islamismo

A Europa está às voltas com um problema atordoante: o crescimento do fundamentalismo islâmico nas comunidades muçulmanas do continente. O comando terrorista que atacou os Estados Unidos em 11 de setembro de 2001 teve origem numa mesquita de Hamburgo, na Alemanha. Muitos dos terroristas que mataram duas centenas de pessoas em Madri, em 11 de março, viviam na Espanha fazia anos. O desafio europeu é enfrentar esse ovo de serpente sem pôr a perder o que a Europa tem de melhor – o respeito aos direitos humanos, a liberdade política e religiosa, a tolerância para com as minorias. A França acredita ter encontrado uma solução: agir com mão pesada contra os clérigos estrangeiros que, em mesquitas francesas, incitam os muçulmanos à guerra santa. Só neste ano, oito desses fanáticos foram deportados do país. Outro, o argelino Abdelkader Bouziane, de 52 anos, conseguiu reverter na Justiça a expulsão. É bem verdade que não havia provas de que Bouziane defendesse publicamente a matança de infiéis. O que ele afirmou numa entrevista, isso sim, foi que o Corão permite a poligamia e garante ao marido o direito de espancar a mulher.

Ao ordenar a expulsão do argelino, o governo francês entendeu que a doutrina que prega a submissão da mulher é, em síntese, a mesma que move os homens-bomba. De qualquer forma, espancar mulheres é uma ofensa à lei e à cultura da França, país que moldou o conceito moderno de direitos humanos. Para se livrar dos pregadores terroristas, o governo francês usou uma lei de 1945 que permite a deportação de estrangeiros que representem ameaça à segurança do Estado. Serve como uma luva para afastar pregadores perigosos. Só 10% dos clérigos muçulmanos na França têm cidadania francesa. O processo contra o turco Mihdat Guler, deportado em maio, demorou menos de um mês. Guler, que vivia no país havia 28 anos e tem cinco filhos, todos nascidos na França, pertence a uma organização cujo objetivo é instalar um regime teocrático na Turquia. A acusação foi a de que ele permitia em sua mesquita a distribuição de folhetos conclamando a Jihad. "Não é mais possível separar os atos terroristas das palavras que os estimulem", afirmou o ministro do Interior, Dominique de Villepin, ao justificar as deportações.

A luta contra a pregação fundamentalista nas mesquitas também ocorre em outros países europeus – mas a França é de longe o mais engajado no combate ao fanatismo. A onda de atentados a bomba praticada por fundamentalistas argelinos em Paris, nos anos 90, convenceu os franceses a não vacilar diante do extremismo religioso. A rapidez dos atuais processos de deportação tampouco causou polêmica do ponto de vista jurídico, pois a legislação francesa diz que a liberdade de expressão jamais deve se sobrepor aos outros direitos fundamentais. "Os discursos baseados na intolerância ferem o direito à dignidade humana, por isso as deportações têm base legal", disse a VEJA o jurista Guy Carcassonne, professor da Universidade Nanterre, em Paris. Outra questão, mais complexa, justifica a mão pesada do governo contra os integristas. As autoridades temem que o ódio ao Ocidente pregado pelos clérigos radicais dificulte ainda mais a integração dos muçulmanos à sociedade francesa. O processo, que teve início há quatro décadas com a primeira leva de imigrantes de ex-colônias do norte da África, retrocedeu nos últimos anos para uma nova tendência – a da volta às raízes islâmicas.

Essa identificação étnica e cultural com o Islã é abraçada com fervor pelos jovens filhos de imigrantes nascidos na França. A maioria vive em guetos da periferia, castigada pelo desemprego e por outras mazelas sociais que só alimentam o fosso que os separa da sociedade francesa. O abismo entre essas duas culturas é ainda maior quando se comparam valores como a igualdade de direitos entre homens e mulheres, aborto e homossexualismo. "A relação entre homens e mulheres é o principal problema de integração dos imigrantes muçulmanos à civilização européia", disse a VEJA o filósofo francês Marcel Gauchet, autor do livro Religion dans la Démocratie (Religião na Democracia, em tradução livre). "É um choque terrível, pois esses jovens não se identificam com uma cultura liberal que encoraja a igualdade entre os sexos." São eles os mais vulneráveis ao discurso fundamentalista – e uma fonte de preocupação do governo francês para o futuro.

 
 
 
 
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