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França
A França joga duro
com os fanáticos
País com a maior população
muçulmana
da Europa deporta clérigos islâmicos que
pregam o terror

José Eduardo Barella
Fotos AFP
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AFP
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| O turco Guler, um dos oito estrangeiros deportados: processo
sumário |
Costumes medievais no coração da Europa: muçulmanas
em Paris |
A Europa está às
voltas com um problema atordoante: o crescimento do fundamentalismo
islâmico nas comunidades muçulmanas do continente.
O comando terrorista que atacou os Estados Unidos em 11 de setembro
de 2001 teve origem numa mesquita de Hamburgo, na Alemanha. Muitos
dos terroristas que mataram duas centenas de pessoas em Madri, em
11 de março, viviam na Espanha fazia anos. O desafio europeu
é enfrentar esse ovo de serpente sem pôr a perder o
que a Europa tem de melhor o respeito aos direitos humanos,
a liberdade política e religiosa, a tolerância para
com as minorias. A França acredita ter encontrado uma solução:
agir com mão pesada contra os clérigos estrangeiros
que, em mesquitas francesas, incitam os muçulmanos à
guerra santa. Só neste ano, oito desses fanáticos
foram deportados do país. Outro, o argelino Abdelkader Bouziane,
de 52 anos, conseguiu reverter na Justiça a expulsão.
É bem verdade que não havia provas de que Bouziane
defendesse publicamente a matança de infiéis. O que
ele afirmou numa entrevista, isso sim, foi que o Corão
permite a poligamia e garante ao marido o direito de espancar a
mulher.
Ao ordenar a expulsão
do argelino, o governo francês entendeu que a doutrina que
prega a submissão da mulher é, em síntese,
a mesma que move os homens-bomba. De qualquer forma, espancar mulheres
é uma ofensa à lei e à cultura da França,
país que moldou o conceito moderno de direitos humanos. Para
se livrar dos pregadores terroristas, o governo francês usou
uma lei de 1945 que permite a deportação de estrangeiros
que representem ameaça à segurança do Estado.
Serve como uma luva para afastar pregadores perigosos. Só
10% dos clérigos muçulmanos na França têm
cidadania francesa. O processo contra o turco Mihdat Guler, deportado
em maio, demorou menos de um mês. Guler, que vivia no país
havia 28 anos e tem cinco filhos, todos nascidos na França,
pertence a uma organização cujo objetivo é
instalar um regime teocrático na Turquia. A acusação
foi a de que ele permitia em sua mesquita a distribuição
de folhetos conclamando a Jihad. "Não é mais possível
separar os atos terroristas das palavras que os estimulem", afirmou
o ministro do Interior, Dominique de Villepin, ao justificar as
deportações.
A luta contra a pregação
fundamentalista nas mesquitas também ocorre em outros países
europeus mas a França é de longe o mais engajado
no combate ao fanatismo. A onda de atentados a bomba praticada por
fundamentalistas argelinos em Paris, nos anos 90, convenceu os franceses
a não vacilar diante do extremismo religioso. A rapidez dos
atuais processos de deportação tampouco causou polêmica
do ponto de vista jurídico, pois a legislação
francesa diz que a liberdade de expressão jamais deve se
sobrepor aos outros direitos fundamentais. "Os discursos baseados
na intolerância ferem o direito à dignidade humana,
por isso as deportações têm base legal", disse
a VEJA o jurista Guy Carcassonne, professor da Universidade Nanterre,
em Paris. Outra questão, mais complexa, justifica a mão
pesada do governo contra os integristas. As autoridades temem que
o ódio ao Ocidente pregado pelos clérigos radicais
dificulte ainda mais a integração dos muçulmanos
à sociedade francesa. O processo, que teve início
há quatro décadas com a primeira leva de imigrantes
de ex-colônias do norte da África, retrocedeu nos últimos
anos para uma nova tendência a da volta às raízes
islâmicas.
Essa identificação
étnica e cultural com o Islã é abraçada
com fervor pelos jovens filhos de imigrantes nascidos na França.
A maioria vive em guetos da periferia, castigada pelo desemprego
e por outras mazelas sociais que só alimentam o fosso que
os separa da sociedade francesa. O abismo entre essas duas culturas
é ainda maior quando se comparam valores como a igualdade
de direitos entre homens e mulheres, aborto e homossexualismo. "A
relação entre homens e mulheres é o principal
problema de integração dos imigrantes muçulmanos
à civilização européia", disse a VEJA
o filósofo francês Marcel Gauchet, autor do livro Religion
dans la Démocratie (Religião na Democracia, em
tradução livre). "É um choque terrível,
pois esses jovens não se identificam com uma cultura liberal
que encoraja a igualdade entre os sexos." São eles os mais
vulneráveis ao discurso fundamentalista e uma fonte
de preocupação do governo francês para o futuro.
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