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História
O tesouro de Lucio Costa
Acervo acumulado
por sessenta anos
resgata a memória do criador de Brasília

Lucila Soares
Arquivo/AE
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| Israel Pinheiro,
presidente da
Novacap, Lucio Costa,
Oscar Niemeyer e JK: detalhes
da saga de Brasília
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Em 1992,
seis anos antes de sua morte, o arquiteto Lucio Costa justificou
da seguinte maneira o pedido de patrocínio de seu livro Registro
de uma Vivência: "O objetivo é dar conhecimento
ao público de onde vim, do que fiz e da pessoa que sou",
escreveu no formulário-padrão da Fundação
Banco do Brasil. Não era falsa modéstia. Ainda hoje,
Lucio Costa é conhecido internacionalmente como um dos mais
importantes arquitetos e urbanistas do século passado, mas
aqui é devidamente reconhecido quase que só entre
seus pares. Agora estão sendo dados passos importantes para
resgatar a memória do criador de Brasília. Até
o fim de 2005, o acervo de Lucio Costa estará organizado,
catalogado e disponível na internet. VEJA teve acesso com
exclusividade ao material que ele acumulou durante mais de sessenta
anos em seu apartamento, de frente para o mar do Leblon, no Rio
de Janeiro. Nesta reportagem estão reproduzidas cartas inéditas
que ajudarão, depois de organizado o acervo, a compor um
belo painel do Brasil feito por um intelectual lúcido e sensível
cuja vida atravessou praticamente todo o século XX.
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Niemeyer
para Costa

No caso
do Congresso, o problema assumiu então caráter
mais sério, pois
sem a conclusão dessa obra não haverá
possibilidade de mudança. Isso vem preocupando
muito o Juscelino, que apelou para minha ida
para Brasília, a fim de que cessassem as dúvidas,
as consultas e as viagens de esclarecimento,
que trazem atrasos contínuos e
irreparáveis para as construções.
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Fernando Pimentel
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| O arquiteto
em casa, no
Rio de Janeiro: olhar
lúcido e sensível
sobre o século XX
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No caso, o verbo resgatar adquire seu sentido mais concreto. Ali,
misturam-se esboços de alguns dos mais importantes marcos
da arquitetura brasileira, croquis de fachadas e de vestidos concebidos
para sua mulher, Julieta, cartas, coleções de revistas
e até um envelope que leva o título paradoxal de "coisas
sem nenhum valor", dado pelo próprio Lucio Costa. Uma amostra
do acervo veio a público na exposição comemorativa
do centenário do arquiteto, em 2002. Mas a maior parte permanece
inédita, uma vez que só agora a mina documental será
realmente esquadrinhada, com patrocínio da Petrobras. São
vários os veios a ser explorados. Existem papéis preciosos
pela informação histórica, como a carta na
qual Oscar Niemeyer comunica sua mudança para Brasília
e descreve a tensão em relação à real
possibilidade de cumprir o prazo estabelecido por JK. Há
os que acrescentam detalhes pitorescos a episódios conhecidos
caso da carta em que Le Corbusier, o grande mestre suíço-francês
da arquitetura moderna, reclama não ter recebido ainda parte
do pagamento pela consultoria que prestou na elaboração
do projeto do Ministério da Educação e Cultura,
no Rio de Janeiro, obra emblemática da virada modernista
da arquitetura brasileira. (Na resposta, com habilidade de diplomata,
Lucio Costa diz ao mestre que nada mais lhe é devido.) Outros
ainda são valiosos como registro de uma personalidade inquieta
e crítica, que tinha o hábito de manifestar-se sobre
qualquer assunto, sempre num estilo elegante e num português
que jamais seguiu as reformas ortográficas promovidas ao
longo do século passado. O arco é amplo, como demonstram
as cartas reproduzidas nestas páginas dirigidas a José
Aparecido, então governador do Distrito Federal, sobre o
Palácio do Jaburu, e a João Saldanha, ex-técnico
da seleção brasileira, sobre o uniforme do time.
Lucio Costa
nasceu na França, em 1902, chegou ao Rio de Janeiro recém-nascido
e voltou com a família para Paris por mais seis anos. Depois
estudou na Suíça e na Inglaterra e retornou ao Brasil
para cursar belas-artes, conforme desejo de seu pai. Daí
resultou um homem de maneiras e modo de trajar aristocrático,
quase sempre de terno e gravata (ou, pelo menos, de camisa social)
e um pulôver pendurado no braço, independentemente
da temperatura que os termômetros marcassem nos trópicos.
Mais tarde, pince-nez e longos bigodes brancos deram o toque
final à estampa. Sobre sua visão de mundo, a principal
marca dessa formação foi uma radical independência.
Ele nunca se preocupou em alinhar-se à esquerda ou à
direita nem se furtou a tomar posições antipáticas
à opinião pública. Em meados da década
de 70, quando nove entre dez cariocas eram contra a demolição
do Palácio Monroe, sede do Senado até a inauguração
de Brasília, Lucio Costa, então membro do Conselho
de Planejamento Urbano do Rio de Janeiro, deu um parecer contrário
ao tombamento, argumentando que o prédio carecia de valor
arquitetônico. Em 1974, em carta a Niemeyer, conhecido por
sua militância comunista, manifestou uma posição
que, principalmente naquela época, deixaria de cabelo em
pé qualquer militante de esquerda. "As sociedades de livre
empresa poderão talvez alcançar mais depressa o bem-estar
social e a felicidade individual a que todos aspiramos, porque são
mais dinâmicas do que as sociedades socialistas", diz.
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Le Corbusier
cobra...

Eu
não fui pago ainda (desde 14 de agosto!!). Que
pensar, que fazer? Diga isso ao Drummond (Carlos
Drummond de Andrade, então chefe de gabinete
do ministro Gustavo Capanema), porque esta situação
não pode mais se prolongar.
...Costa diz
que já pagou

Caro
Le Corbusier, Permita-me
lembrá-lo, além disso, de que em abril
de 1939, (...) os honorários que havia recebido
lhe pareciam ainda razoáveis, posto que então
me escreveu: "Não haveria um meio de organizar
um trabalho em comum entre seu grupo e eu, no espírito
daquele do Palácio do Ministério da Educação
Nacional, para qualquer tipo de problema?"
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Paula Johas/Ag. O Globo
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| O prédio do MEC:
discussão nos bastidores de um marco da arquitetura moderna
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Também em relação à arquitetura, a independência
foi sua marca. Detestava o termo "modernista", embora tenha sido
o grande formulador da arquitetura moderna no Brasil e influenciado
toda uma geração de arquitetos que se formou sob o
lema "simplicidade, perfeita adaptação ao meio e à
função e conseqüente beleza". Na vida pessoal,
isso se traduziu num até exagerado desapego a bens materiais.
Levou até o fim uma vida modesta. Tinha entre seus grandes
prazeres comer chocolate amargo com chocolate ao leite, acompanhado
por vinho branco seco. E circulava pelo Rio de Janeiro a bordo de
um Fusquinha que, ao ser herdado por Julieta, sua neta mais velha,
tinha um buraco no chão. Como não gostava de oculistas,
comprava seus óculos em farmácia o que prejudicou
sua visão a ponto de deixá-lo quase cego no fim da
vida.
Outro veio
da exploração da papelada é a profusão
de croquis que, no caso dos projetos de arquitetura, permitirão
em muitos casos reconstituir boa parte de seu processo de criação.
Mas os desenhos podem ser, também, simplesmente objetos de
fruição. Dono de um traço belíssimo,
Lucio Costa fazia registros minuciosos de fachadas, bairros e cidades
quando viajava. Dificilmente existirá, em Portugal, melhor
registro das fachadas de cidades como Porto, Lisboa ou Évora
que os feitos por ele no início da década de 50. São
quatro pequenos blocos de desenho, que o arquiteto morreu julgando
desaparecidos e foram recuperados na recente arrumação
promovida por Helena, sua segunda filha, que decidiu fazer uma reforma
e mudar-se para o apartamento do pai.
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Estética
no campo

Prezado
João Saldanha,
(...) Cheguei mesmo ao extremo de telefonar, certa
vez, ao João Havelange pedindo que trocasse os
ridículos calções azul-claro por
calções decentes azul-escuro azul-marinha
("bleu marine, navy blue"). Ele concordou, mas
não tomou qualquer providência. (...)
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Lemyr Martins
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| Jogadores na década
de 70: protesto contra a "cândida e paradoxal aparência
caipira" |
Embora todo o conjunto seja fascinante, o apelo de tudo o que se
refere a Brasília é quase irresistível. São
dezenas os croquis e anotações guardados por Lucio
Costa desde que fez o primeiro traço da nova capital, que
começou a ser desenhada nos doze dias de viagem de navio,
voltando de Nova York em 1956. A história é pouco
conhecida. Lucio Costa inscreveu-se em segredo no concurso que escolheria
o plano piloto da nova capital e trabalhou durante dois meses absolutamente
sozinho, no escritório e em sua casa no Leblon. Quem lembra
em detalhes essa empreitada solitária é o engenheiro
Augusto Guimarães, hoje com 86 anos, que foi chefe da divisão
de urbanismo da Novacap, a empresa criada para desenvolver e construir
Brasília. "Eu estava desenvolvendo com ele um outro trabalho
e não percebi o menor indício de que ele estava fazendo
o projeto. Li no Diário de Notícias que ele
havia ganho a concorrência", conta Guimarães. Como
num corte cinematográfico, tem-se acesso ao relato do crítico
de arte Flávio de Aquino, que assistiu à escolha do
plano piloto na qualidade de assessor de Oscar Niemeyer, que representava
a Novacap na comissão. O projeto de Lucio Costa chegou dez
minutos antes do prazo final, levado por Maria Elisa, filha do arquiteto.
"Eram rabiscos toscos, feitos a lápis de cor, pequenos desenhos
a nanquim e um texto batido a máquina", conta Aquino, em
artigo publicado em 1974 pela revista Manchete. "Ficamos
desiludidos. Mas o presidente da comissão, sir William Holford,
começou a estudar as pranchas. De repente, exclamou, entusiasmado:
"Esta é a maior contribuição urbanística
do século XX!".
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Uma idéia
para o Jaburu
Roberto Jayme
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| O
Jaburu, construído em 1976: "típica
manifestação de subdesenvolvimento"
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Prezado Governador, Naturalmente
o assustei com a minha idéia aparentemente intempestiva
de, aproveitando o interregno, transformar esse absurdo
que foi a criação de um "palácio"
para residência do vice-presidente típica
manifestação de incontido sub-desenvolvimento
em Casa dos moradores das cidades satélites
no chamado "Plano-piloto", ou seja, na capital político-administrativa
que muitos deles ajudaram a construir. Esses
dois terços da população do DF
teriam assim no Jaburu a sua casa, cuja guarda
e manutenção ficariam sob a direta responsabilidade
e administração de uma diretoria composta
de representantes de cada um desses assentamentos, para
que sejam, e de fato se sintam, donos dela.
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Acervo Lucio Costa/Reprodução
Oscar Cabral
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| Croqui de uma fachada
portuguesa feito nos anos 50: desenhos ficaram desaparecidos
por quarenta anos
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Com efeito, 44 anos depois da inauguração de Brasília,
é difícil ter a dimensão do que foi a ousadia
de Juscelino Kubitschek ao decidir transferir a capital para o meio
do cerrado em meados dos anos 50, para o meio do nada. E
Lucio Costa compreendeu como poucos o significado dessa decisão.
"A cidade não será, no caso, uma decorrência
do planejamento regional, mas a causa dele: sua fundação
é que dará ensejo ao ulterior desenvolvimento planejado
da região. Trata-se de um ato deliberado de posse, de um
gesto de sentido ainda desbravador, nos moldes da tradição
colonial", disse na Memória Descritiva do Plano Piloto de
Brasília, em 1957. Daí sua profunda mágoa com
a saraivada de críticas que Brasília recebeu. Embora
tenha, ele próprio, discordado muitas vezes do rumo tomado
pelo desenvolvimento da cidade e passado muitos anos se recusando
a rever a capital, sempre defendeu sua criação. Admitia,
por exemplo, que a cidade não era concebida para a flânerie
(passeios a pé, em francês), devido às longas
distâncias. Mas jamais concordou que Brasília fosse
uma cidade desumana, uma das teclas prediletas de seus críticos.
A mágoa
de Lucio Costa é muito conhecida e está fartamente
documentada. Menos explorado é seu reencontro com a cidade,
como está narrado no roteiro feito em 1986 para fotografar
a Brasília "verdadeira", que ele encontrara dois anos antes,
quando foi à capital em companhia de sua filha Maria Elisa.
"Ele ficou uma semana solto por lá e voltou fascinado com
a constatação de que já havia toda uma geração
nascida na cidade", lembra Maria Elisa. No cabeçalho, uma
recomendação geral: "Brasília + gente, convívio
normal das pessoas com a beleza". Segue-se uma lista de situações
que, de acordo com Lucio Costa, comprovavam que, da perspectiva
humana, sua criação era um êxito. E uma recomendação
final: "Tudo bem fotografado, de um ponto de vista a favor, otimista,
e não 'contra'".
Acervo Lucio Costa/Reprodução
Oscar Cabral
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| Lucio Costa na década
de 10: formação na França e na Inglaterra
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Sobre um aspecto da criação de Brasília Lucio
Costa nunca se manifestou claramente: o fato de que a esmagadora
maioria das pessoas atribui a autoria da cidade a Oscar Niemeyer,
ignorando-o até como parceiro. É compreensível,
na medida em que é a beleza da arquitetura de Niemeyer que
enche os olhos de quem vê a capital. Ou, usando a definição
de que Maria Elisa lança mão quando tem de se referir
a isso, é um fenômeno semelhante ao que torna o ator
principal do filme mais conhecido que o diretor. Mas é uma
injustiça que, seguramente, incomodou Lucio Costa. Desde
que foi chamado a participar da empreitada brasiliense, ele se referia
à capital como "cidade inventada". Na década de 80,
passou a referir-se a ela como "cidade que eu inventei". "É
como se ele quisesse garantir que isso não seria esquecido",
diz Maria Elisa.
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