Edição 1867 . 18 de agosto de 2004

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História
O tesouro de Lucio Costa

Acervo acumulado por sessenta anos
resgata a memória do criador de Brasília


Lucila Soares

 
Arquivo/AE
Israel Pinheiro, presidente da Novacap, Lucio Costa, Oscar Niemeyer e JK: detalhes da saga de Brasília

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Em 1992, seis anos antes de sua morte, o arquiteto Lucio Costa justificou da seguinte maneira o pedido de patrocínio de seu livro Registro de uma Vivência: "O objetivo é dar conhecimento ao público de onde vim, do que fiz e da pessoa que sou", escreveu no formulário-padrão da Fundação Banco do Brasil. Não era falsa modéstia. Ainda hoje, Lucio Costa é conhecido internacionalmente como um dos mais importantes arquitetos e urbanistas do século passado, mas aqui é devidamente reconhecido quase que só entre seus pares. Agora estão sendo dados passos importantes para resgatar a memória do criador de Brasília. Até o fim de 2005, o acervo de Lucio Costa estará organizado, catalogado e disponível na internet. VEJA teve acesso com exclusividade ao material que ele acumulou durante mais de sessenta anos em seu apartamento, de frente para o mar do Leblon, no Rio de Janeiro. Nesta reportagem estão reproduzidas cartas inéditas que ajudarão, depois de organizado o acervo, a compor um belo painel do Brasil feito por um intelectual lúcido e sensível cuja vida atravessou praticamente todo o século XX.

 

Niemeyer para Costa

No caso do Congresso, o problema assumiu então caráter mais sério, pois sem a conclusão dessa obra não haverá possibilidade de mudança. Isso vem preocupando muito o Juscelino, que apelou para minha ida para Brasília, a fim de que cessassem as dúvidas, as consultas e as viagens de esclarecimento, que trazem atrasos contínuos e irreparáveis para as construções.



Fernando Pimentel
O arquiteto em casa, no Rio de Janeiro: olhar lúcido e sensível sobre o século XX


No caso, o verbo resgatar adquire seu sentido mais concreto. Ali, misturam-se esboços de alguns dos mais importantes marcos da arquitetura brasileira, croquis de fachadas e de vestidos concebidos para sua mulher, Julieta, cartas, coleções de revistas e até um envelope que leva o título paradoxal de "coisas sem nenhum valor", dado pelo próprio Lucio Costa. Uma amostra do acervo veio a público na exposição comemorativa do centenário do arquiteto, em 2002. Mas a maior parte permanece inédita, uma vez que só agora a mina documental será realmente esquadrinhada, com patrocínio da Petrobras. São vários os veios a ser explorados. Existem papéis preciosos pela informação histórica, como a carta na qual Oscar Niemeyer comunica sua mudança para Brasília e descreve a tensão em relação à real possibilidade de cumprir o prazo estabelecido por JK. Há os que acrescentam detalhes pitorescos a episódios conhecidos – caso da carta em que Le Corbusier, o grande mestre suíço-francês da arquitetura moderna, reclama não ter recebido ainda parte do pagamento pela consultoria que prestou na elaboração do projeto do Ministério da Educação e Cultura, no Rio de Janeiro, obra emblemática da virada modernista da arquitetura brasileira. (Na resposta, com habilidade de diplomata, Lucio Costa diz ao mestre que nada mais lhe é devido.) Outros ainda são valiosos como registro de uma personalidade inquieta e crítica, que tinha o hábito de manifestar-se sobre qualquer assunto, sempre num estilo elegante e num português que jamais seguiu as reformas ortográficas promovidas ao longo do século passado. O arco é amplo, como demonstram as cartas reproduzidas nestas páginas dirigidas a José Aparecido, então governador do Distrito Federal, sobre o Palácio do Jaburu, e a João Saldanha, ex-técnico da seleção brasileira, sobre o uniforme do time.

Lucio Costa nasceu na França, em 1902, chegou ao Rio de Janeiro recém-nascido e voltou com a família para Paris por mais seis anos. Depois estudou na Suíça e na Inglaterra e retornou ao Brasil para cursar belas-artes, conforme desejo de seu pai. Daí resultou um homem de maneiras e modo de trajar aristocrático, quase sempre de terno e gravata (ou, pelo menos, de camisa social) e um pulôver pendurado no braço, independentemente da temperatura que os termômetros marcassem nos trópicos. Mais tarde, pince-nez e longos bigodes brancos deram o toque final à estampa. Sobre sua visão de mundo, a principal marca dessa formação foi uma radical independência. Ele nunca se preocupou em alinhar-se à esquerda ou à direita nem se furtou a tomar posições antipáticas à opinião pública. Em meados da década de 70, quando nove entre dez cariocas eram contra a demolição do Palácio Monroe, sede do Senado até a inauguração de Brasília, Lucio Costa, então membro do Conselho de Planejamento Urbano do Rio de Janeiro, deu um parecer contrário ao tombamento, argumentando que o prédio carecia de valor arquitetônico. Em 1974, em carta a Niemeyer, conhecido por sua militância comunista, manifestou uma posição que, principalmente naquela época, deixaria de cabelo em pé qualquer militante de esquerda. "As sociedades de livre empresa poderão talvez alcançar mais depressa o bem-estar social e a felicidade individual a que todos aspiramos, porque são mais dinâmicas do que as sociedades socialistas", diz.

 

Le Corbusier cobra...

Eu não fui pago ainda (desde 14 de agosto!!). Que pensar, que fazer? Diga isso ao Drummond (Carlos Drummond de Andrade, então chefe de gabinete do ministro Gustavo Capanema), porque esta situação não pode mais se prolongar.

...Costa diz que já pagou

Caro Le Corbusier, Permita-me lembrá-lo, além disso, de que em abril de 1939, (...) os honorários que havia recebido lhe pareciam ainda razoáveis, posto que então me escreveu: "Não haveria um meio de organizar um trabalho em comum entre seu grupo e eu, no espírito daquele do Palácio do Ministério da Educação Nacional, para qualquer tipo de problema?"



Paula Johas/Ag. O Globo
O prédio do MEC: discussão nos bastidores de um marco da arquitetura moderna


Também em relação à arquitetura, a independência foi sua marca. Detestava o termo "modernista", embora tenha sido o grande formulador da arquitetura moderna no Brasil e influenciado toda uma geração de arquitetos que se formou sob o lema "simplicidade, perfeita adaptação ao meio e à função e conseqüente beleza". Na vida pessoal, isso se traduziu num até exagerado desapego a bens materiais. Levou até o fim uma vida modesta. Tinha entre seus grandes prazeres comer chocolate amargo com chocolate ao leite, acompanhado por vinho branco seco. E circulava pelo Rio de Janeiro a bordo de um Fusquinha que, ao ser herdado por Julieta, sua neta mais velha, tinha um buraco no chão. Como não gostava de oculistas, comprava seus óculos em farmácia – o que prejudicou sua visão a ponto de deixá-lo quase cego no fim da vida.

Outro veio da exploração da papelada é a profusão de croquis que, no caso dos projetos de arquitetura, permitirão em muitos casos reconstituir boa parte de seu processo de criação. Mas os desenhos podem ser, também, simplesmente objetos de fruição. Dono de um traço belíssimo, Lucio Costa fazia registros minuciosos de fachadas, bairros e cidades quando viajava. Dificilmente existirá, em Portugal, melhor registro das fachadas de cidades como Porto, Lisboa ou Évora que os feitos por ele no início da década de 50. São quatro pequenos blocos de desenho, que o arquiteto morreu julgando desaparecidos e foram recuperados na recente arrumação promovida por Helena, sua segunda filha, que decidiu fazer uma reforma e mudar-se para o apartamento do pai.

 

Estética no campo

Prezado João Saldanha, (...) Cheguei mesmo ao extremo de telefonar, certa vez, ao João Havelange pedindo que trocasse os ridículos calções azul-claro por calções decentes azul-escuro – azul-marinha ("bleu marine, navy blue"). Ele concordou, mas não tomou qualquer providência. (...)



Lemyr Martins
Jogadores na década de 70: protesto contra a "cândida e paradoxal aparência caipira"


Embora todo o conjunto seja fascinante, o apelo de tudo o que se refere a Brasília é quase irresistível. São dezenas os croquis e anotações guardados por Lucio Costa desde que fez o primeiro traço da nova capital, que começou a ser desenhada nos doze dias de viagem de navio, voltando de Nova York em 1956. A história é pouco conhecida. Lucio Costa inscreveu-se em segredo no concurso que escolheria o plano piloto da nova capital e trabalhou durante dois meses absolutamente sozinho, no escritório e em sua casa no Leblon. Quem lembra em detalhes essa empreitada solitária é o engenheiro Augusto Guimarães, hoje com 86 anos, que foi chefe da divisão de urbanismo da Novacap, a empresa criada para desenvolver e construir Brasília. "Eu estava desenvolvendo com ele um outro trabalho e não percebi o menor indício de que ele estava fazendo o projeto. Li no Diário de Notícias que ele havia ganho a concorrência", conta Guimarães. Como num corte cinematográfico, tem-se acesso ao relato do crítico de arte Flávio de Aquino, que assistiu à escolha do plano piloto na qualidade de assessor de Oscar Niemeyer, que representava a Novacap na comissão. O projeto de Lucio Costa chegou dez minutos antes do prazo final, levado por Maria Elisa, filha do arquiteto. "Eram rabiscos toscos, feitos a lápis de cor, pequenos desenhos a nanquim e um texto batido a máquina", conta Aquino, em artigo publicado em 1974 pela revista Manchete. "Ficamos desiludidos. Mas o presidente da comissão, sir William Holford, começou a estudar as pranchas. De repente, exclamou, entusiasmado: "Esta é a maior contribuição urbanística do século XX!".



Uma idéia para o Jaburu

Roberto Jayme
O Jaburu, construído em 1976: "típica manifestação de subdesenvolvimento"


Prezado Governador,
Naturalmente o assustei com a minha idéia aparentemente intempestiva de, aproveitando o interregno, transformar esse absurdo que foi a criação de um "palácio" para residência do vice-presidente – típica manifestação de incontido sub-desenvolvimento – em Casa dos moradores das cidades satélites no chamado "Plano-piloto", ou seja, na capital político-administrativa que muitos deles ajudaram a construir. Esses dois terços da população do DF teriam assim no Jaburu a sua casa, cuja guarda e manutenção ficariam sob a direta responsabilidade e administração de uma diretoria composta de representantes de cada um desses assentamentos, para que sejam, e de fato se sintam, donos dela.



Acervo Lucio Costa/Reprodução Oscar Cabral
Croqui de uma fachada portuguesa feito nos anos 50: desenhos ficaram desaparecidos por quarenta anos


Com efeito, 44 anos depois da inauguração de Brasília, é difícil ter a dimensão do que foi a ousadia de Juscelino Kubitschek ao decidir transferir a capital para o meio do cerrado – em meados dos anos 50, para o meio do nada. E Lucio Costa compreendeu como poucos o significado dessa decisão. "A cidade não será, no caso, uma decorrência do planejamento regional, mas a causa dele: sua fundação é que dará ensejo ao ulterior desenvolvimento planejado da região. Trata-se de um ato deliberado de posse, de um gesto de sentido ainda desbravador, nos moldes da tradição colonial", disse na Memória Descritiva do Plano Piloto de Brasília, em 1957. Daí sua profunda mágoa com a saraivada de críticas que Brasília recebeu. Embora tenha, ele próprio, discordado muitas vezes do rumo tomado pelo desenvolvimento da cidade e passado muitos anos se recusando a rever a capital, sempre defendeu sua criação. Admitia, por exemplo, que a cidade não era concebida para a flânerie (passeios a pé, em francês), devido às longas distâncias. Mas jamais concordou que Brasília fosse uma cidade desumana, uma das teclas prediletas de seus críticos.


A mágoa de Lucio Costa é muito conhecida e está fartamente documentada. Menos explorado é seu reencontro com a cidade, como está narrado no roteiro feito em 1986 para fotografar a Brasília "verdadeira", que ele encontrara dois anos antes, quando foi à capital em companhia de sua filha Maria Elisa. "Ele ficou uma semana solto por lá e voltou fascinado com a constatação de que já havia toda uma geração nascida na cidade", lembra Maria Elisa. No cabeçalho, uma recomendação geral: "Brasília + gente, convívio normal das pessoas com a beleza". Segue-se uma lista de situações que, de acordo com Lucio Costa, comprovavam que, da perspectiva humana, sua criação era um êxito. E uma recomendação final: "Tudo bem fotografado, de um ponto de vista a favor, otimista, e não 'contra'".

Acervo Lucio Costa/Reprodução Oscar Cabral
Lucio Costa na década de 10: formação na França e na Inglaterra


Sobre um aspecto da criação de Brasília Lucio Costa nunca se manifestou claramente: o fato de que a esmagadora maioria das pessoas atribui a autoria da cidade a Oscar Niemeyer, ignorando-o até como parceiro. É compreensível, na medida em que é a beleza da arquitetura de Niemeyer que enche os olhos de quem vê a capital. Ou, usando a definição de que Maria Elisa lança mão quando tem de se referir a isso, é um fenômeno semelhante ao que torna o ator principal do filme mais conhecido que o diretor. Mas é uma injustiça que, seguramente, incomodou Lucio Costa. Desde que foi chamado a participar da empreitada brasiliense, ele se referia à capital como "cidade inventada". Na década de 80, passou a referir-se a ela como "cidade que eu inventei". "É como se ele quisesse garantir que isso não seria esquecido", diz Maria Elisa.

 
 
 
 
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