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Ambiente
Como uma praga bíblica
Nuvens de gafanhotos devastam o noroeste da África, parte da Austrália e do Afeganistão
Os
gafanhotos são citados na Bíblia, no capítulo 10 do
Exodo, como uma das dez pragas enviadas ao Egito como represália ao faraó,
que se recusava a libertar o povo hebreu. Desde os tempos em que se imputavam
todas as catástrofes à ira divina, portanto, a humanidade convive
com esses insetos predadores, que se deslocam em enxames capazes de encobrir a
luz do sol e de destruir uma plantação em minutos. Nas últimas
semanas, vários países do noroeste da África voltaram a sofrer
com eles, no pior ataque desde o final da década de 80. Os insetos já
devastaram plantações na Argélia, Líbia, Marrocos
e Tunísia. Mais recentemente, chegaram à Mauritânia (inclusive
à capital, Nuakchott), norte do Senegal, Mali, Nigéria, Chade e
Burkina Fasso. "Pelo menos 80% da nossa colheita foi afetada e 800 000 pessoas
vão passar fome", prevê Mohamed Lemine, dirigente da Federação
Nacional de Agricultura da Mauritânia. O noroeste da África sempre
teve problemas com gafanhotos, mas a praga permaneceu sob controle na última
década. No ano passado, após anos de seca, choveu mais na região
que o habitual. O fenômeno melhorou a produção das lavouras,
mas, ao mesmo tempo, contribuiu para a proliferação dos insetos.
Parte
do problema também se deve a uma área de litígio de 50 quilômetros
de extensão situada entre o Marrocos e a Argélia. Os dois países
disputam a posse da região há anos e, como não chegam a um
acordo, o local continua abandonado, transformando-se numa enorme incubadora de
gafanhotos. Uma única fêmea é capaz de botar dezenas de ovos.
Os bichos estão se reproduzindo em níveis alarmantes e a situação
deve piorar em setembro, período de procriação da espécie.
Os gafanhotos também vêm atacando com voracidade outros países.
Na Austrália, as nuvens de insetos já devastaram centenas de hectares
desde março. É a pior infestação dos últimos
quatro anos. No Afeganistão, em 2002, eles destruíram 70% da colheita
total do país.
Combater a infestação de gafanhotos é uma tarefa difícil
porque, além de se reproduzirem em ritmo muito rápido, eles têm
uma capacidade surpreendente de locomoção podem viajar 100
quilômetros por dia pegando carona em correntes de ar. Além disso,
cada enxame reúne cerca de 50 milhões de insetos. Os governos dos
países do noroeste da África se esforçam para combater a
praga aplicando inseticidas nas plantações e tentando eliminar as
larvas, mas, pobres e desorganizados, não têm funcionários
nem equipamentos suficientes para cobrir todo o território invadido. As
populações dos povoados atingidos já começaram a fazer
correntes de oração, à espera de um milagre.
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