Edição 1867 . 18 de agosto de 2004

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Ambiente
Como uma praga bíblica

Nuvens de gafanhotos devastam o noroeste da África, parte da Austrália e do Afeganistão

Os gafanhotos são citados na Bíblia, no capítulo 10 do Exodo, como uma das dez pragas enviadas ao Egito como represália ao faraó, que se recusava a libertar o povo hebreu. Desde os tempos em que se imputavam todas as catástrofes à ira divina, portanto, a humanidade convive com esses insetos predadores, que se deslocam em enxames capazes de encobrir a luz do sol e de destruir uma plantação em minutos. Nas últimas semanas, vários países do noroeste da África voltaram a sofrer com eles, no pior ataque desde o final da década de 80. Os insetos já devastaram plantações na Argélia, Líbia, Marrocos e Tunísia. Mais recentemente, chegaram à Mauritânia (inclusive à capital, Nuakchott), norte do Senegal, Mali, Nigéria, Chade e Burkina Fasso. "Pelo menos 80% da nossa colheita foi afetada e 800 000 pessoas vão passar fome", prevê Mohamed Lemine, dirigente da Federação Nacional de Agricultura da Mauritânia. O noroeste da África sempre teve problemas com gafanhotos, mas a praga permaneceu sob controle na última década. No ano passado, após anos de seca, choveu mais na região que o habitual. O fenômeno melhorou a produção das lavouras, mas, ao mesmo tempo, contribuiu para a proliferação dos insetos.

Parte do problema também se deve a uma área de litígio de 50 quilômetros de extensão situada entre o Marrocos e a Argélia. Os dois países disputam a posse da região há anos e, como não chegam a um acordo, o local continua abandonado, transformando-se numa enorme incubadora de gafanhotos. Uma única fêmea é capaz de botar dezenas de ovos. Os bichos estão se reproduzindo em níveis alarmantes e a situação deve piorar em setembro, período de procriação da espécie. Os gafanhotos também vêm atacando com voracidade outros países. Na Austrália, as nuvens de insetos já devastaram centenas de hectares desde março. É a pior infestação dos últimos quatro anos. No Afeganistão, em 2002, eles destruíram 70% da colheita total do país.

Combater a infestação de gafanhotos é uma tarefa difícil porque, além de se reproduzirem em ritmo muito rápido, eles têm uma capacidade surpreendente de locomoção – podem viajar 100 quilômetros por dia pegando carona em correntes de ar. Além disso, cada enxame reúne cerca de 50 milhões de insetos. Os governos dos países do noroeste da África se esforçam para combater a praga aplicando inseticidas nas plantações e tentando eliminar as larvas, mas, pobres e desorganizados, não têm funcionários nem equipamentos suficientes para cobrir todo o território invadido. As populações dos povoados atingidos já começaram a fazer correntes de oração, à espera de um milagre.

 

 
 
 
 
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