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Brasil
Até o "seu Creysson"
pode
Quase a metade
dos candidatos a
vereador tem só o ensino fundamental.
Para disputar o cargo, saber ler, ainda
que mal, é o que basta

Monica Weinberg
Adailson Calheiros/Tribuna de Alagoas/Pagos
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| Guaribas, no
Piauí: 60%
da população é analfabeta |
Um levantamento
do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre a escolaridade dos 359.000
atuais candidatos a vereador concluiu que 46% deles não conseguiram
passar do ensino fundamental. A pesquisa revelou ainda que, de uma
lista de 219 profissões, a que mais abriga aspirantes a político
é a de agricultor em seguida vêm comerciantes,
servidores públicos municipais e professores do 1º
grau. O estudo do TSE ajuda a dimensionar um fenômeno cada
vez mais visível no Brasil: a popularização
da classe política. "A categoria experimenta uma alteração
em sua composição jamais vista", afirma o professor
e cientista social Leôncio Martins Rodrigues, da Universidade
Estadual de Campinas. Ele é autor de um estudo que comparou
a profissão de origem dos 513 congressistas que compõem
a atual Câmara dos Deputados, em Brasília, com a dos
políticos da legislatura anterior. O trabalho concluiu que
os gabinetes estão sendo cada vez mais ocupados por pessoas
provenientes dos degraus mais baixos da pirâmide social. O
grupo que o cientista chamou de "bloco popular" formado por
metalúrgicos, lavradores e trabalhadores vindos do setor
de serviços foi o que mais cresceu: aumentou 40% de
1998 a 2002.
Existem
três motivos para explicar o ingresso maciço dos mais
pobres nas esferas de poder. Em primeiro lugar, no caso do Congresso,
o crescimento do PT, um partido de bases operárias. Além
disso, no que se refere aos vereadores, houve uma proliferação
do número de municípios no Brasil, nos últimos
quinze anos. Quase 1.500 cidades foram criadas nesse período
91% delas tão pobres que gastam boa parte do que recebem
do governo federal para pagar a seus representantes na Câmara
Municipal. E a esse fato se liga a terceira explicação
para a popularização da carreira política.
"A falta de dinheiro no bolso e a escassez de postos de trabalho
têm ajudado a fazer da atividade um trampolim para muitos
brasileiros, que vêem nela uma oportunidade de ascensão
social", diz o sociólogo José Pastore, professor da
Universidade de São Paulo.
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| Teste de aspirante a
vereador: "onestidade com o prossimo" |
O aumento
do número de políticos vindos das classes mais pobres
é um indicador positivo para a democracia brasileira. Trata-se
de um sinal de que o sistema eleitoral está conseguindo reproduzir
no topo do poder a estrutura da sociedade situação
considerada ideal por estudiosos. Em países onde a democracia
alcançou notória maturidade, como os da Europa Ocidental,
desde o princípio do século XX os setores populares
despejam quadros na política. A diferença é
que, em países como França e Inglaterra, quase 90%
da população tem pelo menos o ensino fundamental.
A baixa escolaridade exibida por quase metade dos candidatos a vereador
no Brasil é preocupante na medida em que pode ter reflexos
na eficiência da máquina pública, sobretudo
em municípios menores, onde o problema está mais concentrado.
Concretamente: como irá um vereador ler e interpretar um
texto de lei para formar uma opinião e votar se mal consegue
colocar no papel as palavras de um ditado feito para uma criança
de 8 anos? E como irá ele elaborar um projeto de lei se não
domina as noções básicas da língua portuguesa?
Deficiências como essas ficaram evidentes nos testes que candidatos
são obrigados a fazer quando não conseguem comprovar,
na Justiça Eleitoral, que são alfabetizados (exigência
legal para qualquer brasileiro que pretenda disputar um cargo político).
Quem não tem documentos escolares passa por um exame escrito,
que pode ser uma interpretação de texto ou um ditado.
Embora os resultados dessas provas tenham mostrado erros crassos
de ortografia e, em muitos casos, nenhuma compreensão dos
textos lidos, a maioria dos examinados tem conseguido manter a candidatura
em pé. É o caso de 26 postulantes ao cargo de vereador
em São Paulo que, considerados inelegíveis por juízes
de suas comarcas, recorreram ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE).
Todos obtiveram autorização para continuar no páreo.
O tribunal considerou que, uma vez que sabem ler e escrever
ainda que precariamente , não podem ser considerados
analfabetos, apenas "semi-analfabetos".
A
baixa escolaridade dos pretendentes a político tem preocupado
os próprios partidos. O PT, que nestas eleições
deverá lançar 30% mais candidatos que em 2000, estuda
a possibilidade de ministrar seminários aos novatos na política
com dois objetivos: ensiná-los a fazer campanha e municiá-los
com noções básicas do que é ser um vereador.
Uma corrente de especialistas acha que a lei deveria ser mais específica
e cobrar dos candidatos, no mínimo, o domínio básico
do português. O problema é que a exigência colocaria
em situação difícil muitos municípios
brasileiros onde a escola ainda é artigo de luxo. Cidades
como Jordão, no Acre, e Guaribas, no Piauí, por exemplo,
têm índices de analfabetismo que beiram os 60%
média nacional de 1900. "Não dá para exigir
que os políticos dessas cidades tenham boa escolaridade",
diz o cientista político Christopher Garman, da consultoria
Tendências. A chegada dos menos abastados ao poder é
uma conquista da democracia, mas o ingresso na política de
pessoas sem nenhum preparo para representar a população,
não. Enquanto o Brasil tiver um sistema educacional precário,
terá de conviver com políticos idem.
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