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Governo
O fantasma do autoritarismo
Lula se deixa enganar por
uma associação de assessores
de imprensa de empresas
estatais que se fazem passar
por jornalistas e manda para o Congresso
um projeto de lei que representa o mais sério
ataque à liberdade de expressão no Brasil
desde o regime militar

Malu Gaspar
AP  |
LULA NA PARADA
O presidente em cerimônia militar no Planalto:
vítima do regime de exceção e beneficiado
pelo denuncismo |
Ao entrar em seu vigésimo
mês de governo, o PT tem trunfos importantes para comemorar.
A economia finalmente começou a dar sinais de recuperação,
com a inflação sob controle e o desemprego em queda.
Lá fora, o risco-país permanece baixo e os investidores
estrangeiros mantêm sua atenção no Brasil. O presidente
Lula, que segue como um dirigente prestigiado no exterior, acaba de
recuperar 10 pontos em sua popularidade, voltando a ter 38% de aprovação
do eleitorado brasileiro. A dois meses do primeiro teste do governo
petista nas urnas, sua principal candidata, a prefeita Marta Suplicy,
aparece pela primeira vez na liderança das pesquisas. Nesse
cenário, tudo parecia sob controle e bem encaminhado, com o
país entrando num sereno período de prosperidade
mas o governo resolveu disparar um tiro de bazuca no próprio
pé ao revelar um incontrolável tique autoritário.
Primeiro, divulgou um projeto de controle ditatorial da produção
de cinema e televisão, que incluía até intromissão
na linha editorial da programação. Em seguida, despachou
ao Congresso uma proposta que, em resumo, consiste no mais severo
ataque à liberdade de imprensa no país desde o regime
militar (1964-1985).
Alaor Filho/AE  |
Roberto Stuckert/Ag. O Globo  |
O "CACO"
DA CASA CIVIL
José Dirceu: sua assessoria na Casa Civil incluiu
o artigo que tornou o projeto ainda mais liberticida |
A ÚLTIMA
DO "CHINA"
Na Alemanha nazista, ser judeu não era uma questão
absoluta. Goebbels decidia quem era judeu. Gushiken disse que
a liberdade de imprensa também não é absoluta
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O Palácio do Planalto
não esperava que as duas propostas gerassem uma reação
tão profundamente indignada da sociedade no Brasil
e no exterior. O projeto que cria a agência nacional de cinema
e audiovisual, batizada de Ancinav, já sofreu modificações,
com a exclusão das interferências na linha editorial,
e o ministro da Cultura, Gilberto Gil, anunciou que "tudo o que
possa ser interpretado como autoritário será reescrito
ou eliminado". Porém, a proposta de criação
do Conselho Federal de Jornalismo, cuja missão é "orientar,
disciplinar e fiscalizar" o exercício da profissão
de jornalista, está integralmente mantida, apesar da flagrante
tentativa de cercear a liberdade de imprensa, pensamento e expressão.
"Não poderíamos ter escolhido um momento pior para
lançar esse projeto", diz um ministro com gabinete no Palácio
do Planalto, ao referir-se à onda de denúncias contra
o presidente do Banco Central e o do Banco do Brasil. "Passou a
clara impressão de uma tentativa de ameaçar a imprensa,
que não é a intenção do governo. Por
que razão fomos meter a mão nessa cumbuca?", lamenta-se
o ministro. Talvez porque no DNA de alguns petistas do primeiro
time esteja ainda inscrita a palavra de ordem dos bolcheviques russos:
"Todo o poder aos soviets". Para quem não sabe, soviet,
em russo, significa conselho.
Oscar Cabral  |
SACERDOTE DE
SI PRÓPRIO
O projeto agradou apenas a figuras cavilosas como Frei
Betto, que é padre quando lhe convém, jornalista
quando lhe convém e assessor especial do presidente quando
lhe convém |
Pela proposta remetida ao Congresso, o Conselho Federal de Jornalismo
seria composto de dez membros, com a missão de zelar pelo
comportamento ético dos jornalistas e aí é
que mora o perigo pelas "atividades jornalísticas",
o que não passa de um velado cerceamento da liberdade de
imprensa. Em sua defesa, o governo alega que não é
autor do projeto nem pretende baixar controle algum sobre a imprensa.
"O governo não terá nenhuma ingerência nesse
assunto: trata-se de uma iniciativa dos próprios jornalistas,
que indicarão livremente os integrantes do conselho", escreveu
o assessor de imprensa do Palácio do Planalto, o jornalista
Ricardo Kotscho, em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo.
Da Espanha, Frei Betto, assessor especial do presidente Lula,
disse que os grandes meios de comunicação "fazem um
terrorismo psicológico porque não querem perder o
monopólio da palavra" e, por isso, são contra o conselho.
"Há tempos que os jornalistas, e eu me incluo como profissional
do jornalismo, querem um conselho próprio para a regulamentação
da ética profissional." Desconhecem-se as razões pelas
quais Frei Betto possa saber o que querem os jornalistas brasileiros.
Mas talvez tenha razão, pois, mutante como é, ora
se comporta como jornalista, ora como assessor de Lula, ora como
padre, dependendo do que mais lhe convém em cada momento.
| Carlos Ivan/Ag. O Globo
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"Por que uma democracia que elegeu presidentes quatro
vezes e que teve papel fundamental num processo
de impeachment delegaria a cinco pessoas o controle
de sua imprensa? Além de criar códigos
de conduta e estabelecer normas de processo disciplinar,
o conselho ainda reserva para si a prerrogativa de resolver
"os casos omissos na lei" com punições
que podem chegar à cassação do
registro profissional. O sujeito punido deve procurar
trabalho em outra atividade. Isso é ou não
é intimidador? Qualquer órgão que
represente ameaça à liberdade de informação,
tenha o nome que tiver, a origem que tiver, precisa
ser rejeitado enfaticamente
pela sociedade e por seus representantes democráticos."
WILLIAM
BONNER, editor-chefe
e apresentador do Jornal Nacional
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Nem parece o mesmo governo cujo chefe disse
em dezembro passado, em seu balanço de fim de ano, que "notícia
é tudo aquilo que nós não queremos que seja
publicado, o resto é publicidade". Pois o mesmo governo,
o do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mandou ao Congresso
na semana passada o projeto de lei que cria o Conselho Federal de
Jornalismo, que, em sua essência, transforma jornalistas em
propagandistas de governos. No processo de explicação
das iniciativas, os comissários petistas acabaram revelando
uma preocupante ligação com um passado totalitário
que se achava sepultado pela prática democrática.
O mais enfático viajante desse túnel do tempo ideológico
foi Luiz Gushiken, secretário de Comunicação
e Gestão Estratégica, que tem sala no Palácio
do Planalto, para quem "nada é absoluto, nem a liberdade
de imprensa".
A liberdade de imprensa é não
apenas um bem absoluto da sociedade como está estabelecida
na Constituição brasileira. Nenhuma atividade está
livre de maus profissionais e de cometer abusos. A imprensa muito
menos. Por sua natureza e pela particularidade de seu exercício,
a imprensa está entre as que mais cometem erros e fazem julgamentos
precipitados. Ela precisa mesmo estar sob constante vigilância.
Ocorre que está, sempre. Cada vez que chega às bancas,
os jornais e as revistas estão se submetendo a julgamento
popular instantâneo. Para as reparações mais
específicas, a Constituição prevê que
os abusos da imprensa devem ser corrigidos por meio da Justiça,
sem que exista necessidade de algum órgão superior
para estabelecer limites à liberdade de expressão.
É assim que as coisas funcionam nos países democráticos.
Mas não nos arraiais do PT, como se observa neste trecho
do artigo de Ricardo Kotscho: "O objetivo central da criação
do CFJ a exemplo do que há muito ocorre com advogados,
médicos, economistas e outras categorias é
exatamente defender a dignidade e a ética exigidas no exercício
da profissão, para garantir à sociedade a plenitude
da liberdade de imprensa, e não a liberdade para alguns profissionais
e algumas empresas divulgarem o que bem entendem a serviço
dos seus interesses".
| Alex Silva/AE
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"Há
duas tentações que nenhum governante pode
sentir: impedir a impressão de notícias
e autorizar a impressão de moedas. Por isso,
defendo a liberdade de imprensa e a autonomia do Banco
Central. E esse projeto do conselho cria uma tentação
autoritária. O autoritarismo raramente se instala
de uma vez. Ele chega sempre aos poucos, sem que as
pessoas percebam. E, às vezes, vem disfarçado
de boas intenções."
CRISTOVAM BUARQUE, senador
(PT-DF) e ex-ministro da Educação |
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Nada mais revelador. Em todas as profissões
citadas pelo secretário de imprensa do PT, inclusive a de
jornalistas, o que garante a qualidade do serviço prestado
à comunidade é justamente o arbítrio individual
dos profissionais e dos dirigentes das empresas onde eles trabalham.
Os conselhos profissionais têm efeito secundário e
muitas vezes nulo no comportamento ético e na prática
cotidiana dos advogados, médicos, economistas e outras categorias
profissionais. "Não existe ética coletiva. A ética
é uma instância individual", ensinava o sociólogo
alemão Max Weber (1864-1920). Não é preciso
filosofar em alemão para saber isso. O próprio Lula
construiu sua carreira fazendo opções éticas
individuais que mudaram sua vida e, com sua eleição
a presidente, a do Brasil. Quando o Partido Comunista quis recrutar
Lula para seus quadros nos anos 70, o jovem e idealista líder
metalúrgico mandou os enviados de Moscou às favas.
Lula achou as propostas e os métodos dos comunistas "imprestáveis
para quem queria fazer política de modo transparente e às
claras", como ele lembraria mais tarde. Os assessores de Lula teriam
poupado o governo de constrangimentos e desgastes desnecessários
com o projeto estapafúrdio caso tivessem informado corretamente
o presidente. Aparentemente não o fizeram.
| "Este governo parece
ter na cabeça o modelo chinês, de combinar
abertura na economia com alguma possibilidade de controle
na política e na cultura. É claro que
os chineses são um caso mais radical. Sempre,
em todos os governos, acalentou-se essa idéia
de controlar a mídia e a cultura. Mas essa possibilidade
chegou num momento em que os meios técnicos tornam
isso impossível, graças às centenas
de possibilidades de comunicação. É
um momento não só de liberdade de expressão
como de democratização da expressão."
FERNANDO GABEIRA, deputado
federal (sem partido/RJ) e jornalista |
Dida Sampaio/AE
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Lula tem uma boa imagem da imprensa, como atestam
suas declarações, em especial uma de fevereiro passado.
"Eu acho que a imprensa joga um papel muito importante quando levanta
as dúvidas, agindo cada vez mais com seriedade", disse o
presidente Lula. É de supor que o presidente foi levado a
acreditar que a Federação Nacional dos Jornalistas
(Fenaj), patrona do projeto, é um órgão composto
de jornalistas no pleno exercício da profissão e empenhados
no dia-a-dia de levantar dúvidas e fazer jornais e revistas
com seriedade. Não é. Do ponto de vista legal, a Fenaj
tem a aparência de um órgão legítimo,
que representa os 100.000 jornalistas
brasileiros. Como menos de 30% dos jornalistas são sindicalizados,
pode-se afirmar que a Fenaj representa uma minoria. Eleita no mês
passado, a diretoria atual da entidade não é uma expressão
de jornalistas que trabalham em jornais, revistas e emissoras de
rádio e televisão. A maior parte está afastada
das redações e presta serviços de assessoria
de imprensa, em geral a empresas estatais e políticos. A
atual diretoria é composta de sete jornalistas, dos quais
apenas dois não são filiados ao PT. E, dos dois não
filiados, um é franca e publicamente simpático ao
partido. Confira:
Sérgio Murillo de Andrade, presidente da Fenaj, está
afastado das redações há catorze anos. Catarinense,
42 anos, foi assessor do primeiro vereador do PT eleito em Florianópolis,
em 1992, e trabalhou na prefeitura na gestão do vice-prefeito
Afrânio Boppré, do PT. É um petista de primeira
hora, filiado ao PT desde 1982.
Frederico Barbosa Ghedini, 51 anos, é vice-presidente da
entidade e trabalha numa editora especializada em publicações
sobre tecnologia da informação e telecomunicação
desde 1988. Atualmente, está licenciado da empresa. É
sócio-fundador do PT em São Paulo.
Antônio Pereira Filho, segundo-vice-presidente, filiou-se
ao PT em dezembro do ano passado. Aos 36 anos, integra a direção
do partido em Alagoas e trabalha como assessor de imprensa de um
sindicato.
Celso Schroeder, secretário-geral, é professor universitário,
trabalha como chargista desde 1986 e está filiado ao PT há
mais de quinze anos. Em 1994, candidatou-se sem sucesso a deputado
federal pelo partido.
Aloísio Soares Lopes, primeiro-secretário, 38 anos,
mineiro. Há cinco anos trabalha como assessor de imprensa.
É filiado ao PT desde 1992.
Maria José Braga, 40 anos, tesoureira, não tem filiação
partidária. Trabalha como repórter de jornal. É
simpatizante do PT. Na última eleição, assinou
um manifesto de apoio à candidata petista ao governo de Goiás.
Carmem Lúcia Souza da Silva, segunda-tesoureira, 32 anos,
preside o Sindicato dos Jornalistas do Pará. Em dez anos
de profissão, foi repórter, assessora de imprensa
e professora universitária. Não tem filiação
partidária.
Pelo projeto enviado ao Congresso, caberá
a esses sete jornalistas indicar a primeira diretoria do Conselho
Federal de Jornalismo. É exagero supor que os conselheiros
serão simpáticos ao PT nas suas escolhas? Nos últimos
dias, várias autoridades do governo, incluindo o próprio
presidente da República, vieram a público reclamar
do "denuncismo" da imprensa, que estaria agindo de forma irresponsável
ao enxovalhar a honra alheia sem apresentar provas. A imprensa
no Brasil e no mundo comete erros e exageros, é claro.
Alceni Guerra, ministro da Saúde do governo Fernando Collor,
foi massacrado pela imprensa, inclusive por VEJA, sob a suspeita
de que teria promovido um festival de irregularidades em sua gestão,
mas mais tarde a suspeita se comprovou infundada. Eduardo Jorge
Caldas Pereira, ex-secretário-geral da Presidência
da República no governo de Fernando Henrique, foi sistematicamente
acusado de fazer tráfico de influência quando estava
no cargo. Hoje, quatro anos depois, não se comprovou nada
de irregular durante sua passagem pelo Palácio do Planalto.
Na semana passada, o ex-jornalista Luís Costa Pinto, que
trabalhou em VEJA no início dos anos 90, publicou um depoimento
na revista IstoÉ relatando sua participação
em uma reportagem de capa de VEJA de 1993. A matéria, sobre
o então deputado Ibsen Pinheiro, continha números
errados a respeito do dinheiro movimentado pelo político,
que acabou cassado pela CPI dos Anões do Orçamento.
A imprensa erra, mas os erros acabam aparecendo quando não
são corrigidos logo em seguida pela apuração
correta dos fatos. VEJA lamenta os enganos que cometeu nos casos
de Alceni, Eduardo Jorge e Ibsen Pinheiro.
O curioso é que, nos últimos
anos, talvez não haja denúncia publicada neste país
sem a participação oculta de petistas, que são
mestres graduados em fuçar dados sigilosos para fustigar
adversários. Os parlamentares do PT também se especializaram
em fazer eco a denúncias sem provas e fomentar o denuncismo
que agora parece tanto incomodá-los. A própria carreira
política do presidente Lula, e de boa parte dos petistas
mais estrelados, beneficiou-se largamente da prática denuncista
do PT, ajudando a construir a imagem de lisura ética e de
combatividade oposicionista do partido. Uma das táticas mais
usadas pelo PT era colocar militantes em postos estratégicos
do Estado, onde teriam acesso a informações relevantes,
e fazer com que vazassem à imprensa. Agora, o governo do
PT faz o contrário. Na semana passada, divulgou o rascunho
de um decreto pelo qual os servidores são proibidos de falar
à imprensa, prerrogativa que ficaria exclusiva a ministros,
assessores especiais e chefes de autarquia. É tão
autoritário que até o presidente do PT, José
Genoíno, se mostrou contra a proposta.
"O servidor público, diante de questões
que sinta que são irregulares e ferem a Constituição,
não pode ser proibido de falar", diz Genoíno ao defender
que os servidores se rebelem contra a medida, caso entre em vigor.
"Temos de democratizar ao máximo a sociedade e a relação
do Estado com a sociedade", acrescenta Genoíno. O governo
parece querer controlar a imprensa pelas portas de entrada e saída,
regulando o acesso dos jornalistas às fontes e examinando
o que se publica. É uma atitude perfeitamente totalitária
e revela a inclinação do governo em querer controlar
tudo. Se o Palácio do Planalto quer ampliar o acesso ao sigilo
fiscal por parte de órgãos públicos de investigação,
como o governo também propôs na semana passada, cabe
discutir, pois, nesse caso, o governo está lidando com um
dado que está sob sua responsabilidade os dados fiscais
de cada declarante. A imprensa, porém, não faz parte
do aparato estatal nas democracias. A imprensa não está
sob a esfera de controle ou responsabilidade do Estado. A imprensa
não é nem complementar ao Estado. Ela é livre,
independente e, em seus melhores momentos, antagônica ao Estado.
Não há democracia que controle
a imprensa. Nas ditaduras, no entanto, o lema do "todo o poder aos
soviets" está em alta. No Gabão, o ditador
Omar Bongo, com o qual o presidente Lula desfilou em carro aberto
pelas ruas de Libreville semanas atrás, criou um conselho,
integrado por membros indicados pelo governo, cuja missão
é punir jornalistas e órgãos de comunicação
que publicam artigos caluniosos ou incorretos, segundo critérios
dos governistas. Em 2002, dois jornais semanais foram acusados de
"minar a confiança no Estado e a dignidade de autoridades
governamentais". No Quênia, existe censura prévia:
todas as matérias devem ser enviadas à análise
das autoridades antes de ser publicadas. A infração
à norma rende multa de 13.000
dólares e prisão de até três anos. Em
ditaduras mais estáveis, como Cuba e China, a imprensa é
um mero e desprezível apêndice do poder. Em Cuba, um
departamento vinculado ao comitê central do Partido Comunista
escolhe, revisa e corrige as reportagens veiculadas pelos órgãos
de comunicação oficiais.
Nas democracias mais sólidas do mundo,
a imprensa livre faz parte da ordem natural das coisas. Não
por acaso, esses países têm, simultaneamente, a melhor
e a pior imprensa. Na Inglaterra, onde não há lei
específica para a imprensa, ficando os veículos de
comunicação e seus profissionais sujeitos à
lei ordinária, existem publicações de primeiríssima
qualidade e, também, os célebres tablóides
sensacionalistas, que não relutam em invadir a vida privada
de quem quer que seja em busca de uma notícia. Em 1993, uma
comissão parlamentar inglesa, numa tentativa de controlar
o sensacionalismo, propôs a criação de um conselho
com poder de punir os tablóides. Não deu certo. Tanto
os trabalhistas quanto os conservadores se negaram a aprovar leis
que limitassem a liberdade de imprensa. Nos Estados Unidos, graças
à Primeira Emenda da Constituição, não
há um único mecanismo legal de cerceamento da imprensa.
De acordo com Josh Friedman, diretor da Faculdade de Jornalismo
da Universidade Colúmbia, em Nova York, a criação
de um conselho regulatório da imprensa que visa fiscalizar
e penalizar veículos e jornalistas é uma ameaça
à democracia. "Isso é um absurdo. Trata-se de uma
forma de o governo proteger a si mesmo e evitar que a população
do país tenha acesso a informações para tirar
as próprias conclusões. Fiscalização
e censura são comuns em ditaduras, não em governos
democráticos", disse a VEJA.
Além da escalada de medidas autoritárias
da semana passada, o governo petista já deu sinais dessa
inclinação quando abordou outros assuntos. O mais
surpreendente foi constatar a vontade do governo de aprovar a chamada
Lei da Mordaça, que pretende punir os integrantes do Ministério
Público que repassarem à imprensa informações
sobre investigações ainda em curso. É surpreendente
porque, quando estava na oposição, o PT não
apenas estimulou essa prática como fez ataques cerrados à
idéia da Lei da Mordaça, proposta pelo governo tucano.
Agora, ficou a favor. O dado mais perigoso é que o governo
dá a impressão de que tem vontade de controlar tudo.
Como o próprio nome diz, totalitarismo é a doutrina
que não se satisfaz em controlar os processos sob a competência
do Estado. O totalitarismo almeja controlar todos os processos,
mesmo aqueles nos quais a interferência estatal deveria ser
meramente marginal como a vida em família, a pesquisa
científica, a produção artística.
A Alemanha nazista produziu os mais completos
manuais de submissão da imprensa, do cinema, do teatro, das
artes plásticas, da literatura, da educação.
Na ex-União Soviética, durante o reinado de Josef
Stalin, os livros escolares de história foram reescritos,
jornais velhos foram reeditados e inimigos políticos eram
eliminados das fotografias. No Camboja de Pol Pot, ter uma emissora
de rádio, ainda que rudimentar, era considerado crime capital.
Na Itália fascista, o ministro da Educação,
Giovanni Gentile, um dos nomes mais influentes do governo de Mussolini,
dizia o seguinte: "Tudo para o Estado, nada contra o Estado, ninguém
fora do Estado". No Brasil de Lula, obviamente, não existe
nada parecido com isso. O governo do PT está apenas confuso.
É liberal na economia e autoritário na política.
"O governo do PT tem o emblema de Janus, o deus bifronte da mitologia",
diz o antropólogo Roberto DaMatta, da PUC do Rio de Janeiro.
"Há um lado liberal e outro reacionário, hierárquico
e autoritário, que quer cada macaco em seu galho vigiado
constantemente por um gorila. Quer reviver a tática gorilista
da ditadura." Parece tolo. É um perigo.
A
melhor e a pior imprensa
Em quase 200 anos de existência,
o jornal inglês The Guardian adquiriu uma
reputação inabalável de seriedade
e independência. Nas bancas de seu país,
ele divide espaço com o tablóide The
Sun que, fundado em 1964, se tornou sinônimo
de jornalismo sensacionalista. A aplicação
incondicional do princípio da liberdade de imprensa
na Inglaterra, uma das democracias mais vigorosas do
planeta, tem nesse fenômeno um de seus corolários:
os melhores jornais do mundo convivendo com os piores.
Os dois únicos "controles" sobre essas publicações
vêm do mercado e da Justiça, e o The
Sun exemplifica de maneira exuberante o funcionamento
do sistema: com tiragem de 3,5 milhões de exemplares,
é o jornal de língua inglesa com a maior
circulação internacional e também
dono de uma extensa lista de processos, impetrados por
personalidades que se sentiram atingidas por suas manchetes.
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| Um caso para o CFJ
Marcos Alves/Diário
de São Paulo/Ag. O Globo  |
ZECA
DIRCEU
Em Cruzeiro do Oeste, um editorial do jornal
da cidade teve como título o slogan de campanha
do filho de José Dirceu. Nem o CFJ agüentaria
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Candidato a prefeito pelo PT em
Cruzeiro do Oeste, no Paraná, José Carlos
Becker de Oliveira, 26 anos, filho do ministro José
Dirceu, construiu em sua cidade o que parece ser a república
dos sonhos de integrantes do governo federal: aquela
em que a imprensa só publica notícias
que lhes são favoráveis. No início
do ano, a Folha de S.Paulo noticiou que Zeca
Dirceu, como prefere ser chamado agora que está
em campanha, vinha usando da influência paterna
para interceder, junto ao governo federal, pela liberação
de recursos para a sua região. Desde então
o filho do ministro-chefe da Casa Civil decidiu não
só que não mais falaria à imprensa
nacional como proibiu todos os integrantes de sua coligação,
que reúne doze partidos, de fazê-lo. Entrevistas
do candidato, afirma sua assessoria de imprensa, só
para o único jornal de Cruzeiro, o Tribuna
do Oeste. Para entender tal deferência, basta
dizer que, na semana passada, o título de um
dos editoriais do semanário reproduzia, letra
por letra, o slogan da campanha de Zeca: "Cruzeiro tem
futuro". E, para o caso de alguém ainda ter dúvidas
sobre o entusiasmo com que a Tribuna encara a
candidatura do petista, seu proprietário, Fernando
Amaral, faz questão de deixar bem claro: "Meu
jornal é a favor do Zeca. Credencial de filho
de ministro vale muito mais do que a de deputado federal",
diz. Dos outros três candidatos à prefeitura
de Cruzeiro do Oeste, com 19.000
habitantes, só um tem espaço na Tribuna:
o atual prefeito, Yukio Tominaga, do PPS que
o jornal, em letras garrafais, costuma chamar de "lelé
da cuca". Ah, sim: a assessoria de Zeca esclarece que
o candidato também fala "ocasionalmente" com
o Umuarama Ilustrado (diário que circula
na cidade vizinha e que, no início de agosto,
publicou duas manchetes consecutivas informando que
o ministro Dirceu visitava a região para lançar
a candidatura do filho) e concede entrevistas à
rádio local. Não por coincidência,
a Rádio Difusora de Cruzeiro do Oeste tem como
sócio Valter Rocha, candidato a vice-prefeito
na chapa de Zeca, e seus estúdios funcionam como
uma espécie de subsede do comitê de campanha:
o programa de rádio do candidato a ser levado
ao ar no horário gratuito, por exemplo, será
gravado lá. Desse jeito, nem a Fenaj agüenta.
Cynara Menezes,
de Cruzeiro do Oeste |
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| Pressão sobre o Supremo
Celso Junior/AE
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CONVERSAS
DE PRESIDENTES
Jobim e Lula estão em sintonia e
se falam sempre |
Às vésperas de uma votação
que pode trazer prejuízo financeiro e político
ao governo, o Palácio do Planalto lançou
uma ofensiva para aumentar sua influência sobre
os ministros do Supremo Tribunal Federal. Não
há nada de ilegal nessa investida, mas ela certamente
representa uma tentativa de subordinar um poder independente,
o Judiciário, às necessidades de outro,
o Executivo. O que está em jogo é a contribuição
previdenciária dos servidores públicos
inativos, cuja legalidade será julgada pelo tribunal
na quarta-feira 18. Principal ponto da reforma da Previdência,
aprovada em 2003 pelo Congresso, a taxação
de inativos pode gerar arrecadação de
1,9 bilhão de reais ao ano e é contestada
por sindicatos de servidores. A votação
foi interrompida em maio, com 2 votos contra o governo
e 1 a favor.
O próprio presidente Lula
é ator nessa campanha de aproximação
entre Executivo e Judiciário. Um flerte com Nelson
Jobim, presidente do Supremo, teve início no
fim de junho, em um jantar na casa do presidente da
Câmara, João Paulo Cunha. Desde então,
Lula e Jobim tornaram-se interlocutores freqüentes.
Novo jantar deve ocorrer até o fim de agosto,
desta vez com o presidente do Supremo como anfitrião.
Outros personagens promovem a aproximação
de Jobim com o Planalto. O ministro da Justiça,
Márcio Thomaz Bastos, telefona-lhe diariamente,
além de encontrá-lo ao menos uma vez por
semana. Henrique Meirelles, presidente do Banco Central,
aproveitou-se de um encontro institucional para tratar
do tema com ele. E até o ministro da Previdência,
Amir Lando, já procurou o presidente do STF.
A estratégia parece dar frutos. Em conversas
reservadas, Jobim tem dito que não aceita que
o Supremo seja palco de revanches da oposição
por causa de derrotas que ela tenha sofrido no Congresso.
Um linguajar que agrada ao Planalto.
Mas a pressão do governo
não se restringe a um ministro. Márcio
Thomaz Bastos não se descuida dos quatro juízes
indicados ao Supremo já no mandato de Lula: Joaquim
Barbosa, Cezar Peluso, Eros Grau e Ayres Britto. O ministro
da Justiça não conseguiu impedir um voto
contrário de Britto no caso dos inativos e faz
marcação cerrada para que isso não
se repita. Ele conta com auxílios. Até
o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, tem encontrado
tempo para doutrinar os ministros do Supremo. Finalmente,
o advogado-geral da União, Álvaro Ribeiro
Costa, empenha-se na tarefa de convencimento como se
disso dependesse seu cargo. E talvez seja mesmo esse
o caso. Incompatibilizado com José Dirceu e criticado
por boa parte do governo, Costa está em situação
difícil. Um bom trabalho junto ao STF seria um
trunfo para ele. Costa tem comparecido a todas as sessões
do Supremo. Nos intervalos, vai à sala de café
do tribunal e aborda os ministros. "É uma situação
desagradável, uma tentativa de convencimento
explícita na casa de um poder independente",
reclama um dos magistrados. Apesar de toda a agitação,
ninguém arrisca um palpite público sobre
a votação. O placar deverá ser
de 6 a 5. Para que lado, ninguém sabe.
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| Vladimir
Ilyich Lenin |
Thomas
Jefferson |
| "POR
QUE DEVERÍAMOS ACEITAR A LIBERDADE
DE EXPRESSÃO E DE IMPRENSA? POR
QUE
DEVERIA UM GOVERNO, QUE ESTA FAZENDO O QUE
ACREDITA ESTAR CERTO, PERMITIR QUE O CRITIQUEM?
ELE NÃO ACEITARIA A
OPOSIÇÃO DE ARMAS
LETAIS. MAS IDÉIAS SÃO MUITO
MAIS FATAIS QUE ARMAS." |
"UMA
VEZ QUE A BASE DE NOSSO GOVERNO É A
OPINIÃO DO POVO, NOSSO PRIMEIRO OBJETIVO
DEVERIA SER MANTÊ-LA INTACTA. E, SE
COUBESSE A MIM DECIDIR SE PRECISAMOS DE UM
GOVERNO SEM IMPRENSA OU DE UMA IMPRENSA SEM
GOVERNO, EU NÃO HESITARIA UM MOMENTO
EM ESCOLHER A SEGUNDA SITUAÇÃO."
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Thomas
Jefferson (1743-1826) e Vladimir Lenin (1870-1924) foram
líderes de revoluções que formularam
regras básicas das sociedades que ajudaram a
criar os Estados Unidos e a União Soviética,
respectivamente. As frases acima registram o pensamento
de ambos sobre a liberdade de expressão. O ideário
de Lenin resultou num regime em que a censura foi férrea
e o silenciamento dos dissidentes, sistemático.
As crenças de Jefferson, radicalmente opostas,
traduzem-se ainda hoje nos editoriais dos grandes jornais
americanos ou em libelos satíricos como Fahrenheit
11 de Setembro, do documentarista Michael Moore.
Ou seja, num sistema em que sagrado não é
o governo, mas o direito de criticá-lo. Também
por isso os Estados Unidos são o que são.
Pela razão inversa, a União Soviética
morreu. |
|
Com reportagem de
Alexandre Oltramari e Otávio
Cabral, de Brasília; Ronaldo França, do
Rio de Janeiro;
e André Rizek, de São Paulo
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