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Livros As peripécias de um jesuíta
que renegou sua religião,
No fim da década de 80, nascia uma nova preocupação entre os historiadores. Recusando os paradigmas do marxismo ou do estruturalismo, eles preferiram se debruçar sobre a história dos indivíduos. Nada de estudar grupos sociais. Mas, sim, atores cujas marcas e sinais pudessem ser rastreados. Obtinha-se assim um relato mais claro das estratégias individuais e de suas relações com a sociedade. O efeito era como o de ampliar o foco de uma objetiva. Essa abordagem foi denominada micro-história. Apesar do alto nível das pesquisas feitas na universidade brasileira, faltava-nos um trabalho que desse carne e sangue a essa proposta. Ele nasceu da pena de Ronaldo Vainfas, professor titular de história na Universidade Federal Fluminense e grande especialista do período colonial. Autor de várias obras, profundo conhecedor dos documentos inquisitoriais, foi encontrar entre eles o personagem de seu novo livro, Traição (Companhia das Letras; 384 páginas; 47 reais). Seu nome: Manoel de Moraes, um padre jesuíta culpado por traições e heresias que o Santo Ofício quis esclarecer. O historiador retomou esse processo e desvendou, ao mesmo tempo, a complexidade de vidas submetidas a conflitos e guerras, ao trânsito entre o Velho e o Novo Mundo e às mediações culturais entre holandeses e portugueses, índios e negros.
Não foi o único a trair. Segundo o autor, um emaranhado de cumplicidades e deslealdades marcou o tempo dos flamengos entre nós, sendo Calabar o exemplo mais conhecido. Na Holanda, Manoel se tornou funcionário da Companhia das Índias, além de ter se casado duas vezes. Como "o cesteiro que faz um cesto faz um cento", atraiçoou de novo. Mesmo vivendo bem entre os calvinistas, tornou ao catolicismo, assistindo à missa às escondidas. Enquanto isso, o Santo Ofício de Lisboa somava as denúncias apresentadas contra o antigo jesuíta. E foram muitas. "Queimado em estátua", em praça pública de Lisboa, seus problemas mais sérios tiveram início. Perseguido por ter se casado duas vezes com "heréticas", ora agradando às autoridades portuguesas, ora às holandesas, Manoel se enredou cada vez mais numa trama de equívocos que muito serviu aos seus detratores. Na verdade, tentava vender seus serviços a quem pagasse mais. Julgado pelo Tribunal do Santo Ofício, foi torturado e obrigado a sair num auto-de-fé. O pior foi ter os bens confiscados. Seu fim, ninguém sabe, ninguém viu. Expulso da história, entrou na literatura e virou personagem de vários romancistas. Numa obra robusta, Ronaldo Vainfas sublinha suas excepcionais qualidades de pesquisador. Manuseando com habilidade processos e textos raros do século XVII, reconstitui, graças a toda sorte de indícios, o comportamento de um indivíduo. O resultado? Aprendemos mais com as peripécias de Manoel de Moraes do que nos ensinam as grandes, e por vezes maçantes, sínteses históricas.
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