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Edição 2065

18 de junho de 2008
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Livros
Guerreiros sem controle

Em Blackwater, o jornalista Jeremy Scahill conta
a história da maior empresa mercenária no Iraque
e expõe os dilemas da privatização da guerra


Diogo Schelp

Gervasio Sanches/AP
Agentes da Blackwater (de boné) ajudam soldados a se defender de ataque de milícia xiita, em 2004, em Najaf

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Trecho do livro

Em 2004, às vésperas de deixar o seu cargo de administrador do Iraque, para o qual havia sido nomeado treze meses antes pelo presidente americano George W. Bush, Paul Bremer baixou uma lei chamada Ordem 17. No dia seguinte, transferiu o poder a um governo provisório formado por iraquianos. O derradeiro decreto de Bremer proibia a Justiça iraquiana de processar funcionários que estivessem trabalhando para os Estados Unidos no país. As conseqüências dessa regra e a promiscuidade entre governo americano e empresas de segurança privada no Iraque são os elementos que dão fôlego ao thriller jornalístico Blackwater – A Ascensão do Exército Mercenário Mais Poderoso do Mundo (tradução de Claudio Carina e Ivan Weisz Kuck; Companhia das Letras; 552 páginas; 52 reais), a partir desta semana nas livrarias brasileiras. O autor é o jornalista americano Jeremy Scahill. Publicado no início de 2007 nos Estados Unidos, o livro foi atualizado neste ano para incluir a história e a repercussão do massacre cometido em Bagdá pelos capangas da empresa de segurança Blackwater, em setembro passado. Scahill não poupa nos detalhes mórbidos ao descrever o tiroteio que matou dezessete civis iraquianos em uma praça da capital.

Com base nos testemunhos dos sobreviventes do episódio, Scahill chegou à mesma conclusão a que havia chegado uma investigação feita pelo FBI, a polícia federal americana, semanas após o massacre: os mercenários não haviam sido atacados e não tinham um bom motivo para atirar contra as pessoas na praça. Tomando o cuidado de identificar as fontes de suas informações, Scahill reconstrói como o governo americano, em especial o Departamento de Estado, tentou abafar o caso e proteger a Blackwater, que já faturou 1 bilhão de dólares em contratos de segurança no Iraque – sem licitação pública. Em audiência no Congresso americano, o dono da Blackwater, Erik Prince, teve a audácia de dizer que seus homens jamais mataram civis inocentes. O livro tem indícios suficientes, no entanto, para convencer que são comuns os abusos cometidos pelos guarda-costas contratados para proteger diplomatas estrangeiros e militares de alta patente no Iraque. Segundo Scahill, só a Blackwater se envolveu em 195 escaramuças armadas no Iraque no período de dois anos, e os mercenários atiraram primeiro em 80% delas.

Susan Walsh/AP
Prince, no Congresso americano: dono de um exército privado de 2 100 homens


A explicação para esses números é uma só: a certeza da impunidade. Enquanto os soldados americanos que cometem assassinatos no Iraque são levados à corte marcial, os mercenários encontram-se em um limbo jurídico. Eles são imunes à Justiça iraquiana e não estão sujeitos à disciplina das forças regulares americanas. Uma lei recente prevê que os mercenários podem responder nos tribunais dos Estados Unidos por crimes cometidos no Iraque. Para isso, é preciso que peritos do FBI viajem para o Oriente Médio para colher as provas, uma tarefa arriscada que só pode ser feita com a escolta da própria Blackwater ou de outras 170 empresas do ramo. Esse conflito de interesses é o ponto essencial do livro: o governo americano depende dos mercenários no Iraque a tal ponto que não consegue – ou não quer – controlá-los. A secretária de Estado Condoleezza Rice foi escoltada pela Blackwater em suas visitas ao país. O general David Petraeus, o comandante das tropas americanas no Iraque, também é mantido vivo graças ao trabalho dos mercenários.

Scahill erra, em uma rápida passagem do livro, ao tentar usar o exemplo da Blackwater para fazer uma crítica generalizada da privatização. O verdadeiro problema é outro: a falta de controles adequados sobre um serviço autônomo de segurança. O governo americano encontrou nos mercenários uma forma de reduzir os custos políticos da guerra. O recrutamento terceirizado incomoda menos a opinião pública e o Exército não precisa se responsabilizar pelas ações de funcionários privados. Quem perde com isso é a população iraquiana, que não tem garantias contra abusos cometidos pelos guarda-costas. Por essas e outras, Scahill não esconde, no livro, seu desprezo pela administração Bush. Mas ele é sincero ao avaliar que o papel dos mercenários na guerra apenas tende a aumentar em um eventual governo democrata. Afinal, o candidato Barack Obama promete retirar as tropas americanas do Iraque em dezesseis meses, se for eleito. Quem ficaria para trás para garantir a ordem? Empresas de segurança como a Blackwater, pagas pelos Estados Unidos.

 



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