Em 1965, quando Mel Brooks criou a
série Agente 86, a Guerra Fria estava no auge
e, a exemplo do que faria mais tarde com o nazismo em Primavera
para Hitler (o filme que deu origem ao musical Os Produtores),
o comediante tomou uma ameaça nefasta e virou-a do avesso,
para mostrar a tolice e a doidice embutidas no princípio
da destruição mutuamente assegurada (em inglês,
mutually assured destruction, que forma a muito apropriada
sigla MAD), decorrente do fato de que tanto os Estados Unidos
quanto a União Soviética possuíam arsenal
nuclear para destruir um ao outro e ao planeta várias
vezes. Na série, que sobreviveu até 1970 e se tornou
um clássico, Don Adams era Maxwell Smart, que fazia de
tudo para não justificar seu sobrenome, "esperto".
Como o agente 86 da organização C.O.N.T.R.O.L.E.,
ele renovava a cada episódio sua reputação
de parvoíce sem atenuantes exceto pela meiguice
e boa vontade, que lhe rendiam a tolerância do Chefe e a
afeição de sua parceira, a eficiente Agente 99.
Não que o C.O.N.T.R.O.L.E. não merecesse um funcionário
como Smart: todas as semanas, a atrapalhada agência secreta
só frustrava os planos de sua rival K.A.O.S. porque esta
também era um exemplo de inépcia e estupidez. Em
um total de 138 episódios, Brooks e seu co-roteirista,
o venerando Buck Henry, não só popularizaram um
sem-número de sacadas quase dadaístas no seu absurdo,
como o sapatofone e o cone do silêncio (veja
o quadro), como também firmaram uma espécie
de manifesto. Se a série pudesse ser resumida em duas frases,
elas seriam: o mundo está nas mãos de loucos e imbecis
e somos todos também loucos e imbecis de deixar
que seja assim. Respeitar essa qualidade primordial, do nonsense
e da troça, é o primeiro dos muitos acertos do longa-metragem
adaptado da série, Agente 86(Get Smart,
Estados Unidos, 2008), que estréia nesta sexta-feira no
país.
No filme, Steve Carell
é Maxwell Smart, ainda um dedicado e chatíssimo
analista do C.O.N.T.R.O.L.E. ("se vocês observarem
a página 738 do meu relatório de hoje...",
ele diz, em suas preleções). Por causa de um ataque
da K.A.O.S. à sede de sua organização,
que expõe as verdadeiras identidades de todos os espiões
espalhados pelo mundo, Smart ganha a oportunidade de se provar
como agente de campo. Isto é, desde que obedeça
(o que ele não pretende fazer) à experiente Agente
99 (Anne Hathaway), que pôde voltar à ativa porque
fez uma série de cirurgias plásticas e passou
de loira a morena. A missão da dupla consiste em impedir
o tráfico de armas nucleares, mas, felizmente, o roteiro
a trata como mero pretexto para apresentar personagens deliciosos,
do Chefe (Alan Arkin) e do Agente 23 (Dwayne Johnson, que vem
ganhando respeito merecido e não quer mais ser chamado
de The Rock) a um capanga com problemas conjugais (o indiano
Dalip Singh, que tem 2,18 metros de altura e quase o mesmo tanto
de queixo). As excelentes escolhas de elenco incluem ainda Bill
Murray como o Agente 13, que se esconde sempre em lugares improváveis,
como gavetas; Terence Stamp como o vilão Siegfried; James
Caan como o tapado presidente americano; e Nate Torrence e Masi
Oka, esse último da série Heroes, como
uma dupla de nerds medrosos empregados pelo C.O.N.T.R.O.L.E.
Da mesma forma que
na série (e isso era parte de seu charme), às
vezes as blagues acertam o alvo, às vezes não
mas o que importa é que vêm em tal quantidade
e velocidade que, no conjunto, fazem o filme funcionar. Numa
demonstração admirável de versatilidade,
os roteiristas e o diretor Peter Segal, até aqui mais
conhecido pelos filmes que fez com Adam Sandler, saem-se bem
tanto nas piadas miúdas (por exemplo, a cena em que o
Chefe erra vez após vez a pronúncia de um nome)
como nas seqüências concebidas à maneira de
esquetes cômicos dentre estas, é inigualável
a competição numa pista de baile entre 86 e 99,
ele dançando com uma gorducha e ela, com um vilão
russo. Acima de tudo, o que faz Agente 86 ser um prazer
é uma questão de conceito ou, vá lá,
daquilo que o protagonista nunca teve, o bom senso: reconhecer
que certas coisas são eternas na origem e que não
é preciso reformá-las para que pareçam
modernas. Um pensamento que vale tanto para a qualidade da sátira
de Mel Brooks e Buck Henry como também para o que eles
queriam ridicularizar a tolice e a doidice.
Manual
do agente secreto
Piadas que a série
inventou e o filme aproveitou
C.O.N.T.R.O.L.E.
e K.A.O.S.
São organizações
arquiinimigas.
O C.O.N.T.R.O.L.E., que Maxwell Smart integra, é
a do bem. A K.A.O.S. é a do mal, à qual
pertence o grande rival de Smart, o vilão Siegfried.
A intenção era que os nomes fossem acrônimos,
mas os criadores Mel Brooks e Buck Henry nunca conseguiram
bolar um significado para as iniciais
AGENTE 99
Nos primeiros
roteiros, a paciente parceira de Smart se chamava Agente
69 escolha vetada pela censura da época
por ser sexualmente sugestiva
SAPATOFONE
É um
exemplo típico do humor de Brooks: nada mais idiota
do que ter de descalçar o sapato direito para falar
ao telefone com o Chefe. Outro aparelho igualmente estúpido
é o rádio colocado em um dos dentes, que
capta só o que o seu usuário diz e nada
à sua volta
CONE DO
SILÊNCIO
Na série,
um cone de acrílico descia sobre Maxwell Smart
e o Chefe quando eles discutiam assuntos sigilosos. No
filme, ele foi substituído por um cone de plasma,
ainda mais inútil, já que impede que um
interlocutor ouça o que o outro diz
AGENTE 13
Era uma das
piadas recorrentes da série, já que vivia
sendo postado em esconderijos improváveis, como
gavetas, caixas de correio e lavadoras. No filme, Bill
Murray faz uma ponta como o infeliz agente, colocado de
vigia dentro do oco de uma árvore