Em comparação
com outros super-heróis, que têm de salvar o mundo
de uma variedade de perigos usando a inteligência e os
superpoderes, as atribuições de Hulk são
limitadas: ficar verde, estragar suas roupas e destruir muitas
coisas. Ele nem sequer sabe que é o cientista Bruce Banner,
e que só está assim grande e colorido porque algo
o deixou nervoso. À parte então as considerações
que os fãs do quadrinho da Marvel possam tecer sobre
sua origem e seu destino, para o restante do público
fica um pouquinho difícil entender que apelo é
esse capaz de justificar duas adaptações em cinco
anos, ambas envolvendo nomes graúdos Eric Bana
e o cineasta Ang Lee na primeira, e Edward Norton, Liv Tyler
e o diretor Louis Leterrier neste O Incrível Hulk(The Incredible Hulk, Estados Unidos, 2008), desde sexta-feira
em cartaz no país.
Norton, como Bruce Banner: do
oval para o quadrado
Se é que serve
de explicação, os dois Hulk divergem na
levada. O de Ang Lee era existencial e deprimido. Este aqui
favorece a ação. O experimento com radiação
gama que transforma Banner em monstro é recapitulado
durante os créditos iniciais, a fim de que imediatamente
a seguir possamos apanhá-lo em seu exílio. Para
alguém que não pode ficar alterado, o cientista
escolhe um lugar que, por aqui, sabe-se não ser muito
propício: a favela da Rocinha, onde ele conversa com
um vira-lata, aprende a controlar as emoções com
Rickson Gracie e trabalha numa fábrica de refrigerantes
(cujos funcionários são dublados em um português
atroz). Mas que ninguém subestime a obstinação
do general Ross (William Hurt) em encontrá-lo e subjugá-lo.
Para tanto, o militar se dispõe até a criar um
outro monstro: Abominação, a versão deformada
do soldado Emil Blonsky (Tim Roth, de muito longe a melhor coisa
do filme).
Em sua primeira metade,
Hulk segura a atenção, graças ao
talento do francês Louis Leterrier, da série Carga
Explosiva, para dar ritmo a perseguições.
Quando Roth assume a forma de Abominação, o filme
desanda. Em vez de tensão, o que se tem é pancadaria
e, em vez de dois bons atores, dois bonecos de computação
gráfica, que nem com muito esforço lembram os
sujeitos dos quais se originaram. Ninguém (ou quase ninguém)
espera uma experiência transformadora sem trocadilho
de um filme como Hulk. Mas estará no seu
direito quem estranhar que Norton, com aquele rosto perfeitamente
oval, ganhe o queixo quadrado de Tarcísio Meira só
porque está irritado.