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Edição 2065

18 de junho de 2008
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Idéias
A ideologia que virou insulto

O fascismo é passado, mas muitos de seus
elementos sobrevivem em governos populistas


Diogo Schelp

O insulto preferido do presidente venezuelano Hugo Chávez contra aqueles que o criticam é "fascista". A expressão já lhe serviu para classificar o ex-primeiro-ministro espanhol José María Aznar, a chanceler alemã Angela Merkel, o presidente americano George W. Bush, os estudantes venezuelanos e até a oposição ao seu colega e títere boliviano Evo Morales. Mais de sessenta anos depois de a ideologia de Adolf Hitler e Benito Mussolini ter sido aniquilada, o fascismo é pouco mais do que um insulto. Foi um fenômeno político específico do período entre as duas guerras mundiais, e não se encontram, hoje, as condições necessárias para o seu ressurgimento. Essa tese é defendida pelo sociólogo inglês Michael Mann, da Universidade da Califórnia, cujo livro Fascistas (editora Record; 560 páginas; 66 reais) foi lançado no mês passado no Brasil. É dele, também, a ressalva: o fundamentalismo islâmico e alguns regimes autoritários da atualidade reúnem uma quantidade perigosa de características fascistas. Mann avalia que entre os que mais acumulam esses elementos está Hugo Chávez – justamente o governante que tanto gosta de chamar os outros de "fascista".

A repulsa ao fascismo – a ponto de a expressão ter se convertido em insulto – decorre sobretudo do conhecimento que se tem dos crimes cometidos pelos regimes que seguiam essa ideologia. O assassinato de 6 milhões de judeus pelos nazistas, por exemplo. Mann acredita que a ascensão ao poder de grupos autoritários na Alemanha, Itália, Áustria, Hungria, Romênia e Espanha após a I Guerra se deve bastante a circunstâncias internas específicas de cada um desses países. A maioria deles tinha passado pela experiência recente de uma guerra devastadora e, em todos eles, existia um movimento político organizado com plataforma autoritária. Esses são alguns dos fatores essenciais para a ascensão fascista, segundo o autor. Outras cinco características são compartilhadas por todas as vertentes do fascismo. Os itens que permitem alinhar os governantes atuais em relação ao fascismo são: o nacionalismo, o estatismo, a pretensão de transcender à luta de classes, o expurgo de parte da sociedade e a criação de grupos paramilitares.

Rolls Press/Popperfoto/Getty Images
Hitler em parada militar, em 1933: o regime escolheu um grupo social para exterminar

A ambição de transcender ao conceito de luta de classes é fundamental na definição do fascismo, segundo Mann. Hitler e Mussolini viam suas nações como um todo único e indivisível, no qual não havia espaço sequer para separar a população em operários e patrões. "Por esse motivo, apesar de a esquerda identificar o fascismo como sendo de direita, trata-se de uma ideologia que não pode ser classificada em nenhum dos dois espectros políticos", disse a VEJA Michael Mann. O que existe são fatores comuns tanto ao fascismo quanto ao comunismo: ambos resultam em regimes autoritários sustentados pela mobilização das massas.

Mann acredita que não há motivos para temer os grupelhos que, principalmente na Europa, reivindicam o legado nazi-fascista. Os saudosistas pouco preservam da ideologia original. Em geral, eles têm como única plataforma política a xenofobia, sentimento de reduzido apelo popular. Na visão de Mann, os movimentos ou regimes que hoje mais se parecem com o fascismo do passado encaixam-se no que ele chama de etnonacionalismo. São grupos com matizes socialistas e pretensões de "resistência ao imperialismo" que existem, em diferentes estágios, na Rússia, em países da América Latina (Venezuela e Bolívia são os exemplos mais visíveis) e no fundamentalismo islâmico. Sim, a expressão "islamofascista" utilizada por George W. Bush é bastante adequada. O credo representado por Osama bin Laden tem contornos especiais no universo do radicalismo político. Não pode ser considerado verdadeiramente nacionalista, já que despreza a divisão política do mundo muçulmano em estados soberanos. A semelhança com o fascismo está principalmente na valorização de um grupo social por inteiro, sem divisões de classe, que é a comunidade islâmica, em detrimento dos demais.

Reprodução
Integralistas brasileiros prestam juramento, em 1935: inspiração fascista em clima tropical

Bin Laden é a recriação perfeita de uma característica demagógica típica do fascismo, mas também encontrada nos regimes comunistas ou simplesmente populistas: a decisão de que um grupo é o inimigo do povo e da nação verdadeira e de que é preciso se livrar desse inimigo. Uma visão otimista – se é que se pode ser otimista em um mundo em que Chávez e Osama bin Laden encontram tantos partidários – é que hoje a comunidade internacional dificilmente toleraria a repetição de genocídios da magnitude daquele cometido pelos nazistas. No entanto, o dano que esses "quase fascistas" podem causar a seu próprio povo ou aos estrangeiros escolhidos para representar o papel de "inimigos" é enorme.

 

 
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Fotos Reuters, Jorge Silva, Ebehrouz Mehri/AFP

 



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