Índice de gordura
acima do recomendado e falta de alimentos básicos: esse
é o modelito nas passarelas, segundo uma pesquisa
Anna Paula Buchalla
Além de um
rosto bonito, modelo que é modelo tem de ter ossos salientes,
braços e pernas finos e quadris estreitos. Aos 13, 14
anos, as meninas candidatas à passarela descobrem que
sem fechar a boca é difícil atingir as medidas
exigidas pelas agências. Começa, então,
a busca pela magreza. Uma pesquisa inédita sobre o perfil
nutricional de modelos brasileiras mostra que, embora 73% delas
estejam no peso ideal do ponto de vista da saúde, 30%
fazem dieta para emagrecer. E da pior maneira possível.
No levantamento, médicos e nutricionistas do Instituto
de Metabolismo e Nutrição e do Hospital do Coração,
de São Paulo, pesaram, mediram e avaliaram o gasto e
o consumo calórico de 26 moças, de 14 a 24 anos.
A grande maioria sofre de sérias deficiências nutricionais
e, o que é paradoxal, metade apresenta uma quantidade
de gordura corporal acima do recomendado. Culpa, sobretudo,
dos regimes malucos para perder peso rapidamente como
jejuar num dia e se empanturrar de chocolate no outro. "Para
essas meninas, é mais fácil passar fome do que
mudar hábitos de vida", diz o cardiologista e nutrólogo
Daniel Magnoni, coordenador do estudo. Trata-se, sem dúvida,
de um comportamento de risco. A falta de critérios à
mesa pode ser um passaporte para a obesidade no futuro (não
tão distante quanto elas imaginam) ou para o surgimento
de distúrbios alimentares como anorexia e bulimia.
Nas "repúblicas"
onde vivem amontoadas, as modelos consomem basicamente carne
grelhada com salada. "É um dos motivos que fazem
com que a dieta delas tenha mais proteínas do que o recomendado
diariamente", diz Magnoni (veja
o quadro). Essas meninas também não
comem frutas. Como tais alimentos tendem a ser calóricos,
eles são abolidos do cardápio. As frutas, no entanto,
são uma rica fonte de fibras. Quase a totalidade das
garotas consome, no máximo, 20 gramas diários
de fibras, quando o ideal seria ingerir de 25 a 35 gramas. Elas
sofrem, ainda, de falta de cálcio, potássio, ferro
e vitaminas do complexo B. Tamanha deficiência nutricional
causa anemia e enfraquece os ossos, entre outros problemas.
Embora magras e altas,
as modelos, assim como todas as mulheres, costumam dar aquela
"roubadinha" no momento de revelar quanto pesam e
medem. Os pesquisadores contam que as participantes do estudo
declararam, em média, 2 quilos a menos e 2 centímetros
a mais. Descontadas as mentirinhas, o peso médio real
das moças ficou em 58 quilos e a altura, em 1,70 metro.
Parece ótimo para você? Pois quase 80% delas gostariam
de pesar até 10% menos. Hoje é assim: não
basta ser magra; é preciso ser magérrima. Os médicos
e nutricionistas do Hospital do Coração acompanharão
as 26 modelos por um ano. Durante esse tempo, elas serão
submetidas a cardápios equilibrados e programas de atividade
física. A idéia é fazer com que mantenham
o peso, mas ganhem músculos e percam gordura. Quem sabe
as mais animadas não vão se dispor a incrementar
a massa cinzenta?