Qual dos dois Hugo Chávez é sincero? O radical
que defendia com paixão as Farc? Ou o presidente amansado
que aconselha os narcoterroristas a depor as armas? "A
esta altura, na América Latina, está fora de lugar
um movimento guerrilheiro armado", explicou Chávez
em seu programa dominical Alô Presidente, no dia
8. Em seguida, pediu a libertação incondicional
dos mais de 700 reféns em mãos das Farc. Entender
as mudanças no discurso do presidente venezuelano sempre
foi um desafio. É certo que ele late mais do que morde.
Seus vilipêndios contra o "império" e
o "diabo" (George W. Bush), por exemplo, não
afetaram o fato de os Estados Unidos serem o maior comprador
do petróleo venezuelano. Chávez já mudou
de posição outras vezes, apenas para ser desmentido
logo depois. Talvez se tenha agora algo mais sério na
guinada: a preocupação de Chávez com a
própria sobrevivência política.
Desde o fim de 2007,
o índice de aprovação do presidente venezuelano
caiu 20 pontos porcentuais. Apesar de a Venezuela dispor de
uma das maiores reservas de petróleo do mundo, a inflação
disparou e faltam produtos básicos nas prateleiras. Depois
de derrotado no plebiscito do ano passado, Chávez enfrenta
o desafio de eleições para deputados, governadores
e prefeitos marcadas para novembro. O apoio às Farc
cuja profundidade foi exposta em documentos encontrados nos
computadores de Raúl Reyes, chefe das Farc morto pelo
Exército colombiano, em março é
um fator negativo. Sete em cada dez venezuelanos consideram
o grupo como terrorista. No último sábado, um
dia antes de propor a paz no país vizinho, Chávez
viu-se às voltas com outro constrangimento: a prisão
na Colômbia de um sargento do Exército venezuelano
ao tentar vender munição aos narcoterroristas.
"Chávez resolveu tomar distância das Farc
porque, do contrário, sabe que afundaria com elas",
disse a VEJA Luis Vicente de León, diretor do instituto
de pesquisas de opinião Datanalisis, em Caracas.
A perda de apoio popular
também explica outras voltas atrás do coronel.
Na semana passada, Chávez revogou a Lei de Inteligência,
decretada por ele próprio, que transformaria a Venezuela
em um estado policial similar a Cuba. O recuo faz sentido, pois
a adoção da lei iria pôr em dúvida
a existência de uma democracia na Venezuela. O fato de
ter sido eleito democraticamente três vezes é a
base da legitimidade de Chávez. Sem isso, ele se torna,
aos olhos do mundo, apenas outro ditador desprezível.
Na quarta-feira, o presidente sentou-se com empresários
para lançar um pacote de medidas econômicas. O
que em outros países seria um evento natural, na Venezuela
é uma surpresa, considerando que muitos dos presentes
eram empresários cujas fábricas Chávez
tinha ameaçado expropriar.
O pedido para que
as Farc abandonem as armas ocorre em ótimo momento para
o governo colombiano, que tem conseguido enfraquecer o grupo
terrorista com operações militares e uma bem-sucedida
campanha de esclarecimento internacional. Os documentos descobertos
nos notebooks de Reyes têm um papel relevante nisso. Na
semana passada, surgiram informações de que as
Farc estariam dispostas a libertar seqüestrados, entre
eles a ex-candidata a presidente Ingrid Betancourt, que se encontra
há mais de seis anos em cativeiro. Meses atrás
as Farc entregaram seis de suas vítimas a Chávez.
Desta vez, outro presidente pode ser escolhido como intermediário
até o nome de Luiz Inácio Lula da Silva
é cogitado. Talvez aí esteja outra esperteza do
coronel. Se reféns forem libertados, Chávez poderá
dizer que a soltura ocorreu a seu pedido.
O perigo dos messiânicos
Moises Castillo/AP
Ramírez: ex-vice-presidente
diz que Ortega pretende se perpetuar no poder
O nicaragüense Sergio Ramírez, de 65 anos,
foi um dos líderes da Revolução Sandinista,
que derrubou a ditadura de Anastasio Somoza, na Nicarágua,
e vice-presidente no governo de Daniel Ortega entre 1984
e 1990. Em 1996, abandonou a política para se dedicar
à literatura. Ramírez esteve no Brasil,
na semana passada, para participar de um ciclo de palestras
em Porto Alegre. Ele foi entrevistado pelo repórter
Thomaz Favaro.
Por que parte
da esquerda ainda mantém uma visão romântica
das Farc? A esta altura, ninguém, por idealismo,
pode ver as Farc como uma guerrilha romântica. Uma
das grandes mudanças qualitativas que ocorreram
na América Latina foi o fim da visão idealista
da guerrilha. O pecado original das Farc é seu
vínculo com o narcotráfico, e isso não
há como apagar jamais.
A esquerda está
no poder em vários países da América
Latina. Qual será o grande teste para esses governos?
Será aceitar a alternância de poder. Parece-me
que isso já começou com Lula, que, se quisesse,
poderia forçar um terceiro mandato. Sempre há
pessoas falando ao ouvido de um presidente: "Você
é imprescindível". São cantos
de sereia que um estadista precisa saber desconsiderar,
por mais popular que ele seja. Quando alguém fica
muito tempo no poder, se deteriora. A corrupção
e o nepotismo correm soltos, como acontece na Nicarágua
e na Venezuela.
AFP
Ingrid: pode ser libertada
Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa têm
como prioridade reformar a Constituição.
Por quê? São presidentes que se elegeram
não para governar o país através
da democracia, mas para criar um novo tipo de poder, que
arrase o anterior e estabeleça as bases de um projeto
de longo prazo com espaço para um único
governante eles próprios. Gente como Chávez
e Morales acredita estar à frente de um projeto
messiânico.
Daniel Ortega
regressou ao poder na Nicarágua travestido de democrata.
Pode-se confiar nele? Tive uma relação muito
estreita com Ortega nos anos 80. Na época, a Frente
Sandinista era um partido monolítico com um caráter
messiânico. No nosso governo, tudo funcionava em
torno do partido, não havia um autoritarismo pessoal.
Hoje, Ortega é o cabeça de um projeto messiânico
do qual participam apenas ele e sua esposa. Nem mesmo
a Frente Sandinista está incluída. Acredito
que ele vai fazer todo o possível para se perpetuar
no poder.
É mais
fácil conquistar leitores ou eleitores? Quando
perdi as eleições para presidente, em 1996,
percebi que tinha muito mais leitores que eleitores, porque
minha votação foi baixíssima. Os
dois territórios são difíceis. Para
um escritor, é preciso travar uma batalha diária
pela conquista de público. O mesmo ocorre com um
político, que precisa de eleitores para manter
o seu mandato. Mas eu abandonei a política e só
falo do assunto quando me perguntam.