Há três anos, VEJA
trouxe a público um vídeo que exibia o pagamento
de propina de um empresário a Maurício Marinho,
funcionário dos Correios e soldado do PTB. A cena de
Marinho embolsando um bolinho de 3 mil reais imortalizou-se
como símbolo maior do escândalo do mensalão
e também como epítome lapidar do estágio
avançado que o câncer da corrupção
atingira no Brasil. Na semana passada, VEJA teve acesso a seis
vídeos cujo enredo se assemelha ao da célebre
fita dos Correios: um corrupto recebendo dinheiro para beneficiar
empresários com contratos no governo. As fitas são
estreladas pelo prefeito de Juiz de fora, Carlos Alberto Bejani,
do mesmo PTB de Marinho. Nelas, Bejani aparece acertando negociatas
com empresários, combinando propinas e recebendo dinheiro,
muito dinheiro em maços, em pacotes, em sacolas,
em malas... Assim como o vídeo de Marinho, os DVDs apreendidos
agora trazem conversas comprometedoras, envolvendo personagens
famosos. Num deles, Bejani aponta a participação
do ex-ministro José Dirceu no esquema de desvio de dinheiro.
As
fitas estavam escondidas na própria casa de Bejani e foram encontradas
quando a PF deflagrou a Operação Pasárgada, há dois
meses. A polícia prendeu Bejani e outras cinqüenta pessoas acusadas
de participar de uma quadrilha que desviava recursos do Fundo de Participação
dos Municípios (FPM) dinheiro que a União repassa às
prefeituras para investimentos. Dias depois, o Tribunal Regional Federal da 1ª
Região mandou soltar todos os presos. Com a descoberta da videoteca da
corrupção, a PF conseguiu devolver os mesmos personagens à
cadeia na última quinta-feira inclusive Bejani e os empresários
que o haviam subornado. Nos diálogos, o prefeito mostra que tem o DNA do
PTB. Ele sempre quer mais. Numa das conversas, os empresários oferecem
120 000 reais por mês para que Bejani assegure um aumento na tarifa dos
ônibus de Juiz de Fora. Ele se ofende com a proposta: "O primeiro aumento
é todo meu! Não vou fechar nada disso! Não vou!".
Bejani:
suposta reunião com Dirceu e comissão de 7 milhões de reais
A
conversa na qual Dirceu é citado foi filmada em 10 de maio de 2006. Disse
Bejani: "Eu tenho uma reunião com José Dirceu às 3 horas
em Belo Horizonte. Tô liberando 70 milhões". O empresário
faz troça: "Nô! Mas que coisa feia, né, sr. Bejani?".
Continua o prefeito: "Setenta milhões! Cê sabe quanto que dá
isso? Sete milhões de comissão". Logo depois, Bejani conseguiu
a liberação do dinheiro junto à Caixa Econômica Federal
e ao Ministério das Cidades. A PF investiga se Dirceu agiu em favor da
quadrilha, mas, no relatório enviado à Justiça, os policiais
não fazem acusação alguma contra o ex-ministro. Dirceu nega
participação no esquema e garante que nunca prestou consultoria
ao prefeito. Os DVDs do crime constituem uma pequena parte das provas recolhidas
pela PF. Segundo as investigações, as ramificações
da quadrilha alcançavam até o TRF da 1ª Região, que
soltou os acusados. Na semana que vem, os desembargadores vão julgar um
recurso impetrado por um dos presos que, se aceito, pode jogar no lixo todas as
provas produzidas pela PF, o que inclui os vídeos do prefeito um
tesouro do crime que reafirma o triste diagnóstico de que aparentemente
nada consegue conter o câncer da corrupção.