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Auto-retrato
Como nasceu seu interesse pela esquistossomose? No 3º ano da faculdade, fui estagiar num grupo de testes de medicamentos contra a doença no Instituto Nacional de Endemias Rurais, hoje pertencente à Fiocruz. O antígeno (substância que estimula o organismo a produzir anticorpos) usado nessas pesquisas era feito a partir de vermes triturados um composto preparado de maneira rudimentar. Tive, então, a idéia de usar as secreções e excreções dos próprios vermes. Como esses compostos são mais puros do que os parasitas amassados por inteiro, eles poderiam dar origem a um antígeno mais preciso. Foi o que ocorreu. Nos testes em coelhos, minha mistura atingiu uma eficácia superior a 90%. O desenvolvimento de uma vacina leva, em média, dez anos. Por que a sua demorou tanto? Por causa das limitações tecnológicas do Brasil. Esse atraso fez com que apenas no início da década de 90 conseguíssemos identificar o antígeno da vacina, a molécula SM14. Houve um momento em que pensei ter chegado ao fim da linha. Dezenas de antígenos contra a esquistossomose já estavam sendo testados em várias partes do mundo e nós nem sequer havíamos descoberto a nossa molécula. Era como se os outros países andassem em aviões supersônicos e nós viajássemos em carroças. Como a senhora superou essas dificuldades? Em 1987, entrei num curso de pós-doutorado de três meses no Marine Biological Laboratory, nos Estados Unidos. Foi uma grande oportunidade, porque os alunos que já estivessem envolvidos em projetos em seu país de origem poderiam dar continuidade a eles. Transportei o material de pesquisa (amostras de soro e vermes congelados) numa caixinha de isopor, dentro do meu nécessaire. Lá, trabalhei dia e noite. Meus colegas queriam me levar para passear e eu respondia: "Não posso. Logo mais vou voltar para o mato e tenho de aproveitar ao máximo os equipamentos daqui". Retornei com algumas moléculas identificadas. Cinco anos depois, eu e minha equipe chegamos ao antígeno definitivo.
Em 1998, o seu antígeno recebeu a chancela da Organização Mundial de Saúde (OMS). O que isso significa? Foi a primeira vez que o Brasil chegou à seleção final de antígenos na OMS. De todas as moléculas contra a esquistossomose em estudo no mundo, a instituição classificou apenas duas como promissoras a nossa e uma francesa. Sem falsa modéstia, a nossa vacina é muito melhor. A francesa é eficaz apenas contra um tipo de verme. A brasileira, contra os três tipos de verme. Além disso, a nossa tem potencial para ser usada contra outras dezenas de doenças parasitárias. Ela também já se mostrou eficaz contra a fasciolose hepática, uma doença que ataca o gado e é responsável pela perda de 3 bilhões de dólares por ano no mundo. Tudo isso com a patente da Fiocruz e financiamento 100% nacional. Como a senhora conseguiu conciliar tanta dedicação à pesquisa com a vida doméstica? Estou divorciada há quase vinte anos. Tenho três filhos maravilhosos e me esforcei muito para estar perto deles. Mas nem sempre conseguia. Quando os mais novos, os gêmeos, tinham apenas 6 meses, fiquei um mês longe deles. Por causa da tese de doutorado, tive de ir para uma praia distante. Sem luz, eu cozinhava em latas e dormia em casa de pescadores. Obviamente só podia levar o mais velho, de 3 anos. Hoje tenho um neto, Caetano, de 1 ano e meio e com ele será diferente. Cheguei a uma fase da vida em que preciso de mais tempo para mim. Quero ver os brasileiros imunizados contra a esquistossomose, mas quero também ler revista de fofoca.
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