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ENSAIO:
Roberto Pompeu de Toledo
A
mentira liberada
Ao
contrariar suas
mais arraigadas
tradições,
os
EUA se tornam
um país
que não dá
mais para compreender
Então fica combinado o seguinte. Mentir sobre a vida sexual
não pode. Mentir para fazer uma guerra, o que implica desencadear
uma operação que matará milhares, ou dezenas
de milhares de pessoas, pode. É o que resulta da comparação
entre as sortes dos dois últimos presidentes dos Estados
Unidos, Bill Clinton e George W. Bush. Clinton, por causa do caso
Monica Lewinsky, teve um pedido de impeachment aprovado pela Câmara
dos Representantes, em dezembro de 1998. Foi salvo pelo Senado,
dois meses depois mas ficou para a história que as
intimidades trocadas entre um presidente e uma estagiária,
no recôndito da Casa Branca, por um triz não lhe custaram
o mandato. O pequeno Bush... Quanto a este, o leitor já sabe
a esta altura está claro que mentiu sobre a existência
de armas de destruição em massa no Iraque e quanto
a supostas conexões entre o governo de Saddam Hussein e o
terrorismo da Al Qaeda, e no entanto, pelo menos até agora,
não enfrenta nem sombra de ameaça. Pelo contrário,
é tido como fortíssimo candidato à reeleição,
no ano que vem.
O episódio protagonizado por Bill Clinton voltou à
tona, nos últimos dias, com o lançamento do livro
de memórias da agora senadora Hillary Clinton, Living
History ("Vivendo a História", ou "A História
Viva"), um empreendimento que rendeu à autora 8 milhões
de dólares de adiantamento, filas colossais para ganhar-lhe
um autógrafo, em Nova York, e uma espetacular volta às
primeiras páginas dos jornais, às capas de revistas
e aos programas mais cotados da TV. Tanto interesse pelo livro,
claro, estava centrado naquilo. Sexo. Perdoai, ó deuses,
somos apenas humanos. Hillary conta, no ponto crucial do livro,
que na manhã do dia 15 de agosto de 1998, um sábado,
Bill acordou-a e, enquanto andava nervosamente de um lado para o
outro, ao lado da cama, confessou que... sim, era verdade aquilo
que o procurador Kenneth Starr, a imprensa e os inimigos tanto haviam
alardeado, nos últimos meses, e ele negara sempre. Era verdade:
ele caíra em tentação e tivera uma atitude
"imprópria" com a estagiária. "Eu mal conseguia respirar",
escreve Hillary. "Ofegante, comecei a chorar e gritar para ele:
'O quê? O que você está dizendo? Por que você
mentiu para mim?'.."
Causa espanto tanta surpresa com um marido que já fora antes
acusado de infidelidade com pelo menos duas outras mulheres e que,
no caso dessa, se defendia com desculpas cada vez mais esfarrapadas,
mas vá lá não é esse nosso ponto.
O ponto é a mentira do marido. Hillary viria a perdoá-la
mais depressa que a máquina política americana, que
quase o triturou. E isso, por exagerado ou hipócrita que
pareça, não estava em desacordo com as tradições
do país. A mentira é um pecado que cala fundo na cultura
protestante dos Estados Unidos. Os países de cultura católica
têm para com ela uma tolerância que em última
análise encontra apoio até nos ensinamentos da Igreja,
que enxerga nela, sob o nome de "reserva mental", uma prática
até recomendável, em certos casos extremos. Nos Estados
Unidos, onde o fundamentalismo protestante fincou fundas raízes,
a intransigência para com a mentira saltou das relações
privadas para a vida pública, e tem se revelado de crucial
peso na política. A política defendida pelos governos
Kennedy e Johnson para o Vietnã foi derrotada quando se descobriu
que se baseava num monte de mentiras. A própria justificativa
usada em 1964 para atacar o Vietnã do Norte, o suposto bombardeio
de um destróier americano por barcos patrulheiros desse país,
no Golfo de Tonquim, descobriu-se que fora forjada. No caso Watergate,
o presidente Richard Nixon, ao contrário do que muitos pensam,
não perdeu o mandato por ter mandado invadir a sede do Partido
Democrata, em Washington. Ele nem soube de tal invasão. Perdeu
o mandato pela mentirada que se seguiu, para encobrir essa e outras
ações conexas praticadas pela Casa Branca de seu tempo.
E no entanto... Eis-nos diante de um dos mais estrepitosos casos
de mentira da história recente e nada. A imprensa
não se escandaliza, a opinião pública não
se abala. Está faltando paixão e convicção,
está faltando a velha indignação contra a desonra
e a improbidade, à política dos Estados Unidos. Veja-se
a senadora Hillary Clinton. Quem atazanou a vida de seu marido,
quase o baniu da cena política, quis matá-lo e esquartejá-lo
foi a mesma direita que, com o pequeno Bush, hoje se encarapitou
no poder. Ela teria todos os motivos para fazer-lhe cerrada oposição.
Na entrevista publicada na última revista Time, porém,
ao ser indagada sobre o governo Bush, respondeu: "Quando a questão
é segurança, nos unimos em torno do presidente". É
demais. A oposição demitiu-se e a mentira foi liberada,
nos Estados Unidos. A Inglaterra, velha espertalhona dos mares,
onde a mentira nunca teve o mesmo demoníaco status que nos
Estados Unidos, começa a submeter o primeiro-ministro Tony
Blair a um inquérito que pode custar-lhe a carreira. Já
os Estados Unidos se tornaram um país incompreensível.
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