Edição 1807 . 18 de junho de 2003

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ENSAIO: Roberto Pompeu de Toledo
A mentira liberada

Ao contrariar suas mais arraigadas
tradições, os EUA se tornam um país
que não
dá mais para compreender

Então fica combinado o seguinte. Mentir sobre a vida sexual não pode. Mentir para fazer uma guerra, o que implica desencadear uma operação que matará milhares, ou dezenas de milhares de pessoas, pode. É o que resulta da comparação entre as sortes dos dois últimos presidentes dos Estados Unidos, Bill Clinton e George W. Bush. Clinton, por causa do caso Monica Lewinsky, teve um pedido de impeachment aprovado pela Câmara dos Representantes, em dezembro de 1998. Foi salvo pelo Senado, dois meses depois – mas ficou para a história que as intimidades trocadas entre um presidente e uma estagiária, no recôndito da Casa Branca, por um triz não lhe custaram o mandato. O pequeno Bush... Quanto a este, o leitor já sabe – a esta altura está claro que mentiu sobre a existência de armas de destruição em massa no Iraque e quanto a supostas conexões entre o governo de Saddam Hussein e o terrorismo da Al Qaeda, e no entanto, pelo menos até agora, não enfrenta nem sombra de ameaça. Pelo contrário, é tido como fortíssimo candidato à reeleição, no ano que vem.

O episódio protagonizado por Bill Clinton voltou à tona, nos últimos dias, com o lançamento do livro de memórias da agora senadora Hillary Clinton, Living History ("Vivendo a História", ou "A História Viva"), um empreendimento que rendeu à autora 8 milhões de dólares de adiantamento, filas colossais para ganhar-lhe um autógrafo, em Nova York, e uma espetacular volta às primeiras páginas dos jornais, às capas de revistas e aos programas mais cotados da TV. Tanto interesse pelo livro, claro, estava centrado naquilo. Sexo. Perdoai, ó deuses, somos apenas humanos. Hillary conta, no ponto crucial do livro, que na manhã do dia 15 de agosto de 1998, um sábado, Bill acordou-a e, enquanto andava nervosamente de um lado para o outro, ao lado da cama, confessou que... sim, era verdade aquilo que o procurador Kenneth Starr, a imprensa e os inimigos tanto haviam alardeado, nos últimos meses, e ele negara sempre. Era verdade: ele caíra em tentação e tivera uma atitude "imprópria" com a estagiária. "Eu mal conseguia respirar", escreve Hillary. "Ofegante, comecei a chorar e gritar para ele: 'O quê? O que você está dizendo? Por que você mentiu para mim?'.."

Causa espanto tanta surpresa com um marido que já fora antes acusado de infidelidade com pelo menos duas outras mulheres e que, no caso dessa, se defendia com desculpas cada vez mais esfarrapadas, mas vá lá – não é esse nosso ponto. O ponto é a mentira do marido. Hillary viria a perdoá-la mais depressa que a máquina política americana, que quase o triturou. E isso, por exagerado ou hipócrita que pareça, não estava em desacordo com as tradições do país. A mentira é um pecado que cala fundo na cultura protestante dos Estados Unidos. Os países de cultura católica têm para com ela uma tolerância que em última análise encontra apoio até nos ensinamentos da Igreja, que enxerga nela, sob o nome de "reserva mental", uma prática até recomendável, em certos casos extremos. Nos Estados Unidos, onde o fundamentalismo protestante fincou fundas raízes, a intransigência para com a mentira saltou das relações privadas para a vida pública, e tem se revelado de crucial peso na política. A política defendida pelos governos Kennedy e Johnson para o Vietnã foi derrotada quando se descobriu que se baseava num monte de mentiras. A própria justificativa usada em 1964 para atacar o Vietnã do Norte, o suposto bombardeio de um destróier americano por barcos patrulheiros desse país, no Golfo de Tonquim, descobriu-se que fora forjada. No caso Watergate, o presidente Richard Nixon, ao contrário do que muitos pensam, não perdeu o mandato por ter mandado invadir a sede do Partido Democrata, em Washington. Ele nem soube de tal invasão. Perdeu o mandato pela mentirada que se seguiu, para encobrir essa e outras ações conexas praticadas pela Casa Branca de seu tempo.

E no entanto... Eis-nos diante de um dos mais estrepitosos casos de mentira da história recente – e nada. A imprensa não se escandaliza, a opinião pública não se abala. Está faltando paixão e convicção, está faltando a velha indignação contra a desonra e a improbidade, à política dos Estados Unidos. Veja-se a senadora Hillary Clinton. Quem atazanou a vida de seu marido, quase o baniu da cena política, quis matá-lo e esquartejá-lo foi a mesma direita que, com o pequeno Bush, hoje se encarapitou no poder. Ela teria todos os motivos para fazer-lhe cerrada oposição. Na entrevista publicada na última revista Time, porém, ao ser indagada sobre o governo Bush, respondeu: "Quando a questão é segurança, nos unimos em torno do presidente". É demais. A oposição demitiu-se e a mentira foi liberada, nos Estados Unidos. A Inglaterra, velha espertalhona dos mares, onde a mentira nunca teve o mesmo demoníaco status que nos Estados Unidos, começa a submeter o primeiro-ministro Tony Blair a um inquérito que pode custar-lhe a carreira. Já os Estados Unidos se tornaram um país incompreensível.

 
 
 
 
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