|
EM
FOCO: Sérgio Abranches
A primeira vaia
"Nunca
concordei com o PT 'principista', mas
está fazendo falta
uma oposição como ele foi"
Uma
vaia pode ter grande significado simbólico quando é
de militantes contra políticos saídos da militância
na esquerda, no movimento sindical ou em organizações
populares. Foi o que aconteceu no Congresso da CUT e se repetiu
na Comissão de Constituição e Justiça
da Câmara, quando esta aprovou a reforma da Previdência.
O presidente, vaiado no encontro da CUT, e os deputados do PT, na
CCJR, passaram no teste da primeira vaia. Acusaram o golpe mostrando
emoção ou nervosismo, mas mantiveram sua posição
em favor da reforma.
É
essa disciplina política que dá ao governo do PT a
capacidade de aprovar a reforma da Previdência. A oposição
à reforma está em sua base social. Eles resistem às
pressões. Tentam persuadir os que não são afetados
por ela a apoiá-la. A capacidade de resistir vem da menor
sensibilidade ao cálculo eleitoral de curto prazo. O poder
de persuasão sai de sua história de luta e militância
e da credibilidade adquirida antes de eles chegarem ao poder. A
resistência aos companheiros e a opção pelo
caminho espinhoso da reforma demarcaram, em definitivo, a distância
que separa o presidente Luiz Inácio do companheiro Lula.
Ilustração Ale Setti
 |
A escolha de aliados também pode significar muito. Como a
recepção do PMDB na coalizão governista. A
ampliação da base de governo, com o propósito
de aprovar as reformas, muda a natureza política do governo
de forma irreversível. Enganam-se aqueles que imaginam que,
passada a fase amarga das reformas, possam retornar à via
clássica e a uma prática política mais colada
nos princípios programáticos tradicionais. Essas mudanças
terão efeitos transformadores na vida política e partidária
do PT, em particular, e do país, em geral.
Ao observar o processo de cooptação do PMDB pelo governo,
com o objetivo, inarredável, de ampliar a coalizão
da maioria mínima para a maioria qualificada que permite
alterar a Constituição, lembrei-me do cientista político
alemão Otto Kirchheimer quando fala do surgimento do partido
"pega-tudo".
O PMDB é um partido do tipo "pega-tudo": busca qualquer eleitor
e faz qualquer negócio para se manter no poder. A política
de "pega-tudo" tem dois efeitos. Os interesses particulares da liderança
se sobrepõem aos dos eleitores ou dos filiados e a ação
ultrapragmática e personalista desmobiliza e despolitiza
a sociedade. Ele é o antípoda do PT. O partido do
presidente Luiz Inácio nasceu partido de mobilização,
programático, apoiado na militância, na organização
sindical e nos movimentos sociais.
O governo não poderá prescindir no futuro desse apoio
tão estrangeiro ao velho espírito político
de seu partido, como sonham alguns. Precisa dele agora para aprovar
a reforma previdenciária. Precisará, depois, para
outras reformas e para manter o controle da agenda legislativa,
evitando que o Congresso adote medidas que não lhe sejam
convenientes. Para aumentar sua base de apoio, deu uma guinada ao
centro e mudou a própria agenda, absorvendo a pauta à
qual se opunha no passado. Está fazendo uma outra leitura
do mesmo script. Para resistir a sua base tradicional e persuadir
parte dela, tem de desmobilizar a militância e impor a visão
da liderança ao conjunto do partido. Ao fazer isso, muda
a natureza do PT, de partido de mobilização para partido
de quadros. Como foi o PSDB em sua origem, antes de cair na tentação
de virar "pega-tudo".
Essas mudanças trazem dificuldades para o aprofundamento
da democracia, uma das teses mais caras ao velho PT. Otto Kirchheimer
dizia que a política "pega-tudo" vai dissolvendo a "oposição
de princípio", fortalecendo o pragmatismo e dissipando, progressivamente,
as diferenças entre os partidos. Com o declínio do
partido de classe coisa que o PT também foi na origem
, restariam apenas os valores e os princípios como
elementos de diferenciação político-partidária.
A oposição ao presidente Luiz Inácio é
pragmática e moderada. Está imobilizada porque o governo
absorveu parte central de sua agenda. O PT, que foi oposição
de princípio até janeiro deste ano, virou governo.
Para surpresa geral, a fração que hoje mais se parece
com uma oposição de princípio é a banda
crítica minoritária do PFL, o partido mais "pega-tudo"
do período pós-ditatorial no Brasil.
Em toda democracia é preciso existir consciência crítica,
que afirme posições por princípio e convicção,
que não ouça "a voz da razão", majoritária
e centrista, que incomode e dificulte a vida dos governos. É
um freio democrático à "ditadura da maioria". Nunca
concordei com o PT "principista", mas está fazendo falta
uma oposição como ele foi.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
|