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Ponto
de vista: Lya Luft Índios
em Paris
"Os europeus se deliciam com o diferente,
o aventuresco, o que pensam ser o 'brasileiro'. Que tédio. Culpa nossa, que
exportamos demais caipirinha, mulatas, Carnaval"
No exterior, sempre a velha surpresa: como se sabe pouco sobre nós. Como
nos exportamos mal (isso quando não nos portamos mal). De nós sabem
e querem o chamado exótico. Um livro de uma brasileira que não fale
de Carnaval, favela, floresta e bichos parece um corpo estranho. "Escritora brasileira?",
disseram-me certa vez. "Mas no Brasil existem editoras?" Nem todo mundo pensa
assim, claro, tem gente mais informada, mais antenada. Mas ainda ocorre.
Paris belíssima, a palavra clichê é também a inevitável:
um charme. Vida difícil, vida extraordinariamente cara mesmo para parisienses:
em qualquer bistrô simples, um café e um chá, sem acompanhamento,
somam 8 euros. Pensar em reais nos paralisaria, então finjo que vivo em
euros o tempo todo e raspo o fundo da bolsa.
Ilustração
Atômica Stúdio
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Porém
se sente na Europa onde eu não quereria morar, pois, apesar do nome
e da cara, sou brasileira de carteirinha a presença magnífica
da cultura e da história. A dois passos de tudo, para qualquer lado, as
melhores exposições de arte. Ou simplesmente passeios a pé
à margem do Sena, por jardins que nesta época do ano, primavera
plena, são indescritíveis. Bem-cuidados, muitos cercados e quase
todos proibindo cães mesmo com coleira, mas sobretudo luxuosos com suas
flores plantadas com atenção para os matizes. Por que achamos que
no trópico é que estão as flores mais bonitas? Talvez mais
exuberantes, sim. Mas, depois do frio, do gelo e da neve, a natureza rebrota com
um esplendor emocionante.
Algumas entrevistas,
muita gentileza (o mito do francês, sobretudo parisiense, arrogante e seco
caiu por terra. Turismo é necessário e bem-vindo em toda parte).
Incrível o trabalho feito por mulheres profissionais com relação
ao livro e à cultura, coisa que também ocorre por aqui, e seu esforço
por difundir lá um Brasil culto. No entanto, algumas perguntas esquisitas,
como sobre a influência do índio em nossa vida, trabalho, arte
até na minha literatura. Levo um tempo para
pensar na resposta, o interlocutor intrigado. Tenho de ser honesta, sempre o caminho
mais fácil: a maioria imensa dos brasileiros nunca viu um índio.
Restaram poucos, dizimados por doenças, pobreza, bebida e abandono. Existem
meritórias campanhas para que sejam protegidos, preservados ou integrados,
mas muito há por fazer. Devemos nos envergonhar disso.
Em Paris, num belo palácio, há uma exposição sobre
os índios, levaram-se alguns para lá, houve danças e pajelanças.
Novamente os europeus se deliciam com o diferente, o aventuresco, o que pensam
ser o "brasileiro". Nossa literatura urbana quase
não se contempla. Nossa realidade industrial, cultural, universitária,
sociológica aparentemente pouco interessa. O europeu ainda quer o diferente
e o estranho. Que tédio. Culpa nossa, que exportamos demais caipirinha,
mulatas, Carnaval, favela e futebol: tudo ótimo, desde que não seja
tudo. Voltei com a sensação, entre
muitas, de que os verdadeiros artistas viviam em grande simplicidade, mesmo que
morassem num castelo como o de Picasso em Vauvenargues, junto de Aix-en-Provence,
onde comemos num boteco, do outro lado da rua, atendidos pelo casal que servia
ao pintor e sua mulher Jaqueline. A mesma impressão nos ficou andando pelas
trilhas de Cézanne e visitando seu comovente ateliê. Gente assim
não precisa de "status": tem mais o que fazer.
Depois da ridícula (mas perigosa, prestem atenção nas coisas
que à primeira vista parecem tolas, mas revelam intenções
funestas) cartilha do politicamente correto, que, como outras manobras, foi de
momento suspensa, eu certamente estou usando uma porção de palavras
"malditas". Isso me alegra: jamais pertencer à manada dos intelectualmente
dominados ou politicamente manipulados, coisa que meu velho pai me ensinou.
Lya Luft é escritora |