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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Pentecostes
fica longe daqui
Um belo filme mostra
que, no milagre da transfiguração dos idiomas, o português
não tem vez No dia de Pentecostes,
tal qual se lê nos Atos dos Apóstolos, estavam os discípulos
de Jesus reunidos quando de súbito veio do céu ruído parecido
com o de um vendaval. Uma língua de fogo pousou em seguida sobre a cabeça
de cada um deles, e os discípulos puseram-se a falar línguas que
não conheciam. Eles podiam agora se fazer entender por habitantes da Mesopotâmia,
da Judéia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia
e da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia próximas
de Cirene, bem como por partos, medos e elamitas, romanos, cretenses e árabes.
Era a Babel redimida. O milagre do entendimento universal, para que a todos os
rincões fosse levado o Evangelho. Um
Filme Falado, fita do português Manoel de Oliveira em cartaz em São
Paulo, repete Pentecostes em outro contexto e por meio de outro órgão
dos sentidos. Sentadas à mesma mesa, no refeitório de um navio que
partiu de Lisboa e, tal qual na viagem de Vasco da Gama, ruma para a Índia,
uma francesa, uma italiana, uma grega e seu anfitrião, o comandante americano
do navio, falam cada qual na sua língua e se entendem perfeitamente.
O século é o XXI, não o I da era cristã, o que está
em jogo são a política e a história, não a religião,
e o órgão milagroso é o ouvido, não a língua
mas o mesmo fenômeno de libertação do jugo do monolingüismo,
a mesma superação da maldição de Babel estão
presentes. A seqüência ganha força redobrada por causa das intérpretes,
ícones de seus respectivos países a francesa Catherine Deneuve,
a italiana Stefania Sandrelli e a grega Irene Papas. O capitão do navio
é o americano John Malkovich. Manoel de
Oliveira é um fenômeno. Tem 96 anos, começou no cinema mudo
e continua ativo. Nesse belíssimo Filme Falado o título
já alude ao sortilégio da fala , a protagonista é a
própria civilização ocidental, sua glória, suas conquistas
e o perigo de morte que a ronda. Mas não nos aventuremos pelas várias
leituras que a obra oferece. Fiquemos na mesa à qual se dá a prodigiosa
conversa das quatro línguas transubstanciadas em uma. Não por acaso,
estão ali representadas a Grécia das origens ocidentais, a Itália
do Renascimento e a França da Revolução e das Luzes. Entendem-se
todas com o americano, que é quem comanda a viagem. Enquanto isso, espreita-as,
de uma mesa próxima, tímida e curiosa, uma jovem portuguesa, que
viaja acompanhada da filha. Na verdade, são
elas, mãe e filha, as personagens principais da história. É
a viagem delas que o espectador acompanha, desde Portugal, com escalas na França,
Itália, Grécia, Egito e portos da Península Arábica.
A mãe, professora de história, dá à filha aulas sobre
as pirâmides do Egito e a Acrópole de Atenas. O filme vai acabar
mal, com a gloriosa civilização ocidental encurralada pelas bombas
do terrorismo árabe, mas desviemos também desse caminho. O que nos
interessa é o Pentecostes em alto-mar. Portugal foi quem descobriu o caminho
das Índias, mas quem agora empreende a viagem é o comandante americano,
e à portuguesa do filme resta espreitar de esguelha a mesa da celebração
da unidade transnacional. Isso no primeiro dia. No segundo, o comandante convida
a portuguesa e a filha a se juntarem a eles e, então, o que acontece?
Acabou o milagre. À língua portuguesa se nega a graça pentecostal.
Se o comandante do navio, que morou no Brasil, ainda arranha o idioma, as demais
convivas não são capazes de entendê-lo. A saída é
falar inglês, o inevitável inglês. Portugal, e com ele a língua
portuguesa, só entra de favor na triunfal comunhão do Ocidente.
Essa conclusão já seria cruel o bastante
para os brios da língua de Camões. Por obra não de Manoel
de Oliveira, mas dos exibidores, fica mais cruel ainda para quem vê o filme
no Brasil. Aqui, o filme é exibido com legendas. Legendas em português
para traduzir o português. Quer dizer: se Portugal não tem assento
à mesa, o Brasil, então... Daqui, Pentecostes passa ainda mais longe.
••• O filme
de Manoel de Oliveira não mereceria ser ligado às insignificâncias
de nosso dia-a-dia, mas, que diabos, sua exibição coincide com eventos
como a cúpula da semana passada em Brasília. Para se contrapor ao
banquete dos grandes, o Brasil inventou uma mesa paralela, na qual reuniu árabes
e sul-americanos. Enquanto isso, os grandes se reuniam para celebrar os 60 anos
do fim da II Guerra Mundial e não convidaram o Brasil, único sul-americano
a participar do conflito. Resta o consolo de que no nosso passaporte agora estará
escrito "Mercosul". Curioso: o governo do PT, partido campeão da oposição
ao neoliberalismo e ao predomínio dos mercados, nos faz cidadãos
de um mercado. Releve-se. Não nos apresentaremos mais ao mundo como um
mero Brasil. Queremos um lugar à mesa do comandante, quer dizer, do Conselho
de Segurança da ONU, e supõe-se que tudo isso ajude. Espera-se que
o fim da viagem não seja triste como no filme de Oliveira. |