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Música O
fino do brega Vem de Belém do Pará a
nova praga musical que mistura carimbó, calipso e Odair José
 Sérgio
Martins
Paulo
Santos/Interfotos
 | Andrade:
avião de 110 000 dólares para se deslocar pelo norte e nordeste do país | WANDERLEY
ANDRADE • Discos vendidos: 1 milhão
• Média de shows: 15 a 20 por mês • Faturamento em 2004:
2,5 milhões de reais • Principal sucesso: Melô do Ladrão ("Eu
quero logo ser julgado / E em seguida condenado a ficar / Preso no seu coração
/ Pois minha felicidade é ficar atrás das grades / Sem direito e sem perdão")
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Belém,
a capital do Pará, tornou-se um centro de agitação musical.
É de lá que vem o provável sucessor dos ritmos idiotizantes
que de tempos em tempos afligem os brasileiros. O país já aturou
o axé baiano, o pagode paulistano e o funk carioca. A praga paraense é
o brega em suas versões acústica e tecno. Há cerca
de uma década, artistas locais começaram a mesclar o "popular romântico"
dos anos 70, tal como entoado por Odair José ou Fernando Mendes, com estilos
caribenhos como o calipso e o merengue, populares na região pelo fato de
tocarem em rádios das Guianas que são captadas ali. A esse coquetel,
acrescentaram-se ainda ritmos regionais amazônicos como o carimbó.
Mais recentemente, surgiu até um subgênero, o "tecno-brega", no qual
DJs produzem variações para pista de dança de sucessos do
gênero e hits internacionais. Os artistas mais conhecidos do brega paraense,
a banda Calypso e o cantor Wanderley Andrade, criaram um negócio auto-sustentável.
Eles não têm uma grande gravadora por trás: lançam
seus discos de forma independente e fazem a distribuição por meio
de parcerias com selos de pequeno e médio porte. Mesmo com divulgação
restrita ao boca-a-boca, o faturamento da Calypso com shows e vendas de CDs foi
de 10 milhões de reais no ano passado. É o mesmo que faturam artistas
celebrados como Jota Quest e Bruno & Marrone. Andrade movimentou menos, mas
ainda assim uma quantia respeitável: 2,5 milhões de reais. Depois
de se tornarem fenômenos locais, eles agora fazem sucesso além das
fronteiras de Belém. Formada pelo guitarrista
e produtor Cledivan Almeida Farias, o Chimbinha, e por sua mulher, a dançarina
e cantora Joelma, a Calypso já vendeu 4 milhões de cópias
de seus seis discos. O último lançamento, um DVD gravado no sambódromo
de Manaus, está em mais de 300.000 unidades comercializadas. Hoje, São
Paulo é seu maior mercado de shows a dupla faz 22 por mês,
em média, para platéias acima de 5.000 pessoas. Além disso,
foi acolhida na programação da Rede Globo: apresentou-se duas vezes
no programa Domingão do Faustão e tem outras aparições
agendadas para as próximas semanas. Andrade, que já vendeu mais
de 1 milhão de discos, é a figura mais bizarra do brega. Seus "hits"
combinam dor-de-cotovelo com linguajar criminal e tome atrocidades como
Melô do Ladrão, Traficante do Amor, O Terrorista do Amor e
O Detento Apaixonado. Andrade inspirou-se em Nina Hagen, cantora alemã
que ganhou notoriedade no Rock in Rio, nos anos 80, para compor sua cabeleira
furta-cor e seus modelitos berrantes. Barbara
Wagner/Ag. Lumiar
 | BANDA
CALYPSO • Discos vendidos:
4 milhões • Média de shows: 22 por mês • Faturamento
em 2004: 10 milhões de reais • Principal sucesso:
Dançando Calypso ("Quero que sinta toda essa emoção
/ Cavalo Manco agora eu vou te ensinar / Isso e muito mais e você só
vai encontrar em Belém do Pará") | | Chimbinha
e Joelma: vizinhos de Zezé Di Camargo | |
Chimbinha criou a levada de guitarra característica do novo brega de Belém
um "chacundum" que remete à jovem guarda. Inventou-a em 1995, ao
participar da gravação de um certo Melô do Papudinho,
de outro artista local. A música estourou e, depois disso, ele repetiu
a fórmula em mais de 300 discos de terceiros. Há seis anos, cansado
de criar sucessos para os outros, Chimbinha montou a banda Calypso ao lado da
mulher. Artistas mais bem-sucedidos do brega paraense, eles enfrentam ressentimentos.
Empresários de Belém acusam o casal de boicotar outros artistas
da cidade. Por sua ascendência sobre o marido, a dançarina Joelma
cujas coreografias lembram luta de caratê foi até apelidada
de "Lady Macbeth do Brega", em referência à ambiciosa personagem
de Shakespeare. Chimbinha sai em defesa da mulher e de sua banda. "Em Belém,
basta alguém fazer sucesso para os outros criticarem", diz. Por razões
comerciais, hoje ele quer distância do brega. "O rótulo é
preconceituoso e atrapalha na hora de vender meus shows", afirma.
As estrelas do brega são emergentes sociais. Quando ainda engatinhava na
carreira, Andrade chegou a ir de van de Belém a São Paulo, fazendo
shows pelo interior. Agora, acaba de comprar um avião para se deslocar
até localidades do Amazonas, Acre, Rondônia e Maranhão. Preço:
110.000 dólares. "O avião facilita a vida e me livra de frias. Uma
vez, um político me emprestou o helicóptero para eu viajar
e não é que o cara foi cassado?", diz. Junto com a mulher e dois
filhos, Andrade vive num bairro de classe média alta de Belém. A
ascensão social de Chimbinha é ainda mais visível. Nascido
numa família pobre, ele possui um casarão em Belém e até
ilha particular em Almeirim, na divisa com o estado do Amapá. É
dono de uma rádio FM no Piauí e pretende adquirir outras estações
em sua terra natal. Também é proprietário de uma casa confortável
no Recife, base de sua banda entre 2000 e o ano passado. Em 2005, Chimbinha e
Joelma estabeleceram-se num condomínio chique de São Paulo. "Sou
vizinho do Zezé Di Camargo", gaba-se. Bregas, mas felizes. |