Edição 1905 . 18 de maio de 2005

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Música
O fino do brega

Vem de Belém do Pará a nova praga musical
que mistura carimbó, calipso e Odair José


Sérgio Martins

 

Paulo Santos/Interfotos
Andrade: avião de
110 000 dólares para se deslocar pelo norte e nordeste do país
WANDERLEY ANDRADE
• Discos vendidos: 1 milhão
• Média de shows: 15 a 20 por mês
• Faturamento em 2004: 2,5 milhões de reais
• Principal sucesso: Melô do Ladrão ("Eu quero logo ser julgado / E em seguida condenado a ficar / Preso no seu coração / Pois minha felicidade é ficar atrás das grades / Sem direito e sem perdão")
 

Belém, a capital do Pará, tornou-se um centro de agitação musical. É de lá que vem o provável sucessor dos ritmos idiotizantes que de tempos em tempos afligem os brasileiros. O país já aturou o axé baiano, o pagode paulistano e o funk carioca. A praga paraense é o brega – em suas versões acústica e tecno. Há cerca de uma década, artistas locais começaram a mesclar o "popular romântico" dos anos 70, tal como entoado por Odair José ou Fernando Mendes, com estilos caribenhos como o calipso e o merengue, populares na região pelo fato de tocarem em rádios das Guianas que são captadas ali. A esse coquetel, acrescentaram-se ainda ritmos regionais amazônicos como o carimbó. Mais recentemente, surgiu até um subgênero, o "tecno-brega", no qual DJs produzem variações para pista de dança de sucessos do gênero e hits internacionais. Os artistas mais conhecidos do brega paraense, a banda Calypso e o cantor Wanderley Andrade, criaram um negócio auto-sustentável. Eles não têm uma grande gravadora por trás: lançam seus discos de forma independente e fazem a distribuição por meio de parcerias com selos de pequeno e médio porte. Mesmo com divulgação restrita ao boca-a-boca, o faturamento da Calypso com shows e vendas de CDs foi de 10 milhões de reais no ano passado. É o mesmo que faturam artistas celebrados como Jota Quest e Bruno & Marrone. Andrade movimentou menos, mas ainda assim uma quantia respeitável: 2,5 milhões de reais. Depois de se tornarem fenômenos locais, eles agora fazem sucesso além das fronteiras de Belém.

Formada pelo guitarrista e produtor Cledivan Almeida Farias, o Chimbinha, e por sua mulher, a dançarina e cantora Joelma, a Calypso já vendeu 4 milhões de cópias de seus seis discos. O último lançamento, um DVD gravado no sambódromo de Manaus, está em mais de 300.000 unidades comercializadas. Hoje, São Paulo é seu maior mercado de shows – a dupla faz 22 por mês, em média, para platéias acima de 5.000 pessoas. Além disso, foi acolhida na programação da Rede Globo: apresentou-se duas vezes no programa Domingão do Faustão e tem outras aparições agendadas para as próximas semanas. Andrade, que já vendeu mais de 1 milhão de discos, é a figura mais bizarra do brega. Seus "hits" combinam dor-de-cotovelo com linguajar criminal – e tome atrocidades como Melô do Ladrão, Traficante do Amor, O Terrorista do Amor e O Detento Apaixonado. Andrade inspirou-se em Nina Hagen, cantora alemã que ganhou notoriedade no Rock in Rio, nos anos 80, para compor sua cabeleira furta-cor e seus modelitos berrantes.

 
Barbara Wagner/Ag. Lumiar
BANDA CALYPSO
• Discos vendidos: 4 milhões
• Média de shows: 22 por mês
• Faturamento em 2004: 10 milhões de reais
• Principal sucesso: Dançando Calypso ("Quero que sinta toda essa emoção / Cavalo Manco agora eu vou te ensinar / Isso e muito mais e você só vai encontrar em Belém do Pará")
Chimbinha e Joelma: vizinhos de Zezé Di Camargo  

Chimbinha criou a levada de guitarra característica do novo brega de Belém – um "chacundum" que remete à jovem guarda. Inventou-a em 1995, ao participar da gravação de um certo Melô do Papudinho, de outro artista local. A música estourou e, depois disso, ele repetiu a fórmula em mais de 300 discos de terceiros. Há seis anos, cansado de criar sucessos para os outros, Chimbinha montou a banda Calypso ao lado da mulher. Artistas mais bem-sucedidos do brega paraense, eles enfrentam ressentimentos. Empresários de Belém acusam o casal de boicotar outros artistas da cidade. Por sua ascendência sobre o marido, a dançarina Joelma – cujas coreografias lembram luta de caratê – foi até apelidada de "Lady Macbeth do Brega", em referência à ambiciosa personagem de Shakespeare. Chimbinha sai em defesa da mulher e de sua banda. "Em Belém, basta alguém fazer sucesso para os outros criticarem", diz. Por razões comerciais, hoje ele quer distância do brega. "O rótulo é preconceituoso e atrapalha na hora de vender meus shows", afirma.

As estrelas do brega são emergentes sociais. Quando ainda engatinhava na carreira, Andrade chegou a ir de van de Belém a São Paulo, fazendo shows pelo interior. Agora, acaba de comprar um avião para se deslocar até localidades do Amazonas, Acre, Rondônia e Maranhão. Preço: 110.000 dólares. "O avião facilita a vida e me livra de frias. Uma vez, um político me emprestou o helicóptero para eu viajar – e não é que o cara foi cassado?", diz. Junto com a mulher e dois filhos, Andrade vive num bairro de classe média alta de Belém. A ascensão social de Chimbinha é ainda mais visível. Nascido numa família pobre, ele possui um casarão em Belém e até ilha particular em Almeirim, na divisa com o estado do Amapá. É dono de uma rádio FM no Piauí e pretende adquirir outras estações em sua terra natal. Também é proprietário de uma casa confortável no Recife, base de sua banda entre 2000 e o ano passado. Em 2005, Chimbinha e Joelma estabeleceram-se num condomínio chique de São Paulo. "Sou vizinho do Zezé Di Camargo", gaba-se. Bregas, mas felizes.

 
 
 
 
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