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Livros O
lado amargo da fama No primeiro volume de suas memórias,
Bob Dylan revela que odiava ser tratado como guru da contracultura  Sérgio
Martins
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Bob Dylan é considerado
um dos personagens mais enigmáticos da música pop. Estão
à venda, hoje, cerca de 450 livros que se propõem a decifrar o cantor
e compositor americano de 63 anos. Vão desde songbooks que explicam como
ele criou suas canções mais famosas até biografias que procuram
esmiuçar sua vida pessoal. Faltava a versão do próprio Dylan.
Ele resolveu oferecê-la aos leitores numa trilogia de memórias cujo
capítulo inicial, Crônicas Volume Um (tradução
de Lúcia Brito; Planeta; 328 páginas; 44,90 reais), foi lançado
no ano passado nos Estados Unidos e chega agora ao Brasil. No livro que
levou três anos para ser escrito, mas infelizmente foi vertido num português
sem brilho e às vezes canhestro o cantor apresenta reminiscências
de várias épocas, sem se preocupar muito com a cronologia. Mas detém-se
especialmente nos anos 60, quando produziu canções que mudaram o
pop e influenciaram gerações. A autobiografia é uma meditação
por vezes irada sobre o impacto da fama na vida de um artista. É
também uma espécie de romance de formação, que mostra
como se cultivou a sensibilidade do músico e letrista.
A importância de Dylan para a música pop é inquestionável.
Ele foi o primeiro a mostrar que era possível aproximar as letras de rock
da autêntica poesia. Em 1963, ano em que lançou seu primeiro disco
autoral (o trabalho de estréia trazia sobretudo versões), a receita
de sucesso pop era fazer canções vibrantes sobre garotas e paquera.
Dylan, na contramão, decidiu abordar temas como a guerra e os direitos
civis. O impacto foi enorme. John Lennon afirmou diversas vezes que os Beatles
passaram a trabalhar melhor suas letras depois de tomar um sermão do cantor.
As memórias de Dylan não abordam
suas atribulações conjugais nem trazem inconfidências sobre
outros famosos. É a primeira vez, contudo, que o cantor desce a detalhes
tão reveladores sobre sua formação. Num bom número
de páginas, ele fala sobre a influência da literatura em sua obra,
do francês Balzac ao russo Gogol. Também descreve seus primeiros
tempos em Nova York, cidade para a qual se mudou em 1961, vindo do interior americano,
e cujo ambiente intelectual teve papel crucial para ele. Mas o ponto-chave de
Crônicas é a relação de Dylan com a fama. Aí
se encontra o aspecto mais bombástico do livro: a confissão
convincente de que ele, tido como o grande guru da contracultura dos anos
60, odiava o epíteto de "Rei do Protesto" e achava todo aquele papo esotérico
e bicho-grilo um despropósito. Em vez de se entregar a isso, Dylan ansiava
por uma vida em família. "Na vida real, tinha de fazer as coisas que amava
jogos da Liga Infantil, levar meus filhos à escola, fazer rafting,
canoagem, pescar." Dylan chama de "imbecis" e "patifes
radicais" aqueles que a todo momento invadiam sua casa e perturbavam sua paz.
Segundo ele, o assédio ininterrupto e as cobranças excessivas comprometeram,
no fim dos anos 60 e começo dos 70, sua inspiração e seu
prazer de criar. "Eu havia escrito e apresentado canções que eram
muito originais e muito influentes, mas não sabia se um dia eu faria isto
de novo, e não ligava", diz a certa altura. Como resultado da perseguição,
Dylan cultivou excentricidades e aos poucos forjou uma identidade nova. Conta
de uma ocasião em que encharcou o corpo de bebida alcoólica e entrou
numa loja de departamentos, apenas pelo prazer de confundir e incomodar. Dylan
admite como vários de seus biógrafos já haviam demonstrado
que falseou verdades para construir um mito que, de alguma forma, ajudasse
a protegê-lo. "A imprensa? Você mente para ela", escreve. Crônicas
não desvenda cabalmente o enigma Bob Dylan. Mas é um passo na
direção certa.
Dylan segundo Dylan "Eu
tinha muito pouco em comum com a geração da qual supostamente era
a voz e a conhecia menos ainda. Eu estava mais para vaqueiro do que para flautista
de Hamelin" "Imbecis invadiam nossa casa a qualquer
hora da noite. De início, parecia bastante inofensivo, mas então
os patifes radicais em busca do Príncipe do Protesto começaram a
chegar. Eu queria mandar bala naquela gente" "Em algum
momento do passado eu havia escrito e apresentado canções que eram
muito originais e muito influentes, mas não sabia se um dia eu faria isto
de novo, e não ligava" Trechos
de Crônicas Volume Um |
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