Edição 1905 . 18 de maio de 2005

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Livros
O lado amargo da fama

No primeiro volume de suas memórias,
Bob Dylan revela que odiava ser tratado
como guru da contracultura


Sérgio Martins

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Trecho do livro

Bob Dylan é considerado um dos personagens mais enigmáticos da música pop. Estão à venda, hoje, cerca de 450 livros que se propõem a decifrar o cantor e compositor americano de 63 anos. Vão desde songbooks que explicam como ele criou suas canções mais famosas até biografias que procuram esmiuçar sua vida pessoal. Faltava a versão do próprio Dylan. Ele resolveu oferecê-la aos leitores numa trilogia de memórias cujo capítulo inicial, Crônicas – Volume Um (tradução de Lúcia Brito; Planeta; 328 páginas; 44,90 reais), foi lançado no ano passado nos Estados Unidos e chega agora ao Brasil. No livro – que levou três anos para ser escrito, mas infelizmente foi vertido num português sem brilho e às vezes canhestro – o cantor apresenta reminiscências de várias épocas, sem se preocupar muito com a cronologia. Mas detém-se especialmente nos anos 60, quando produziu canções que mudaram o pop e influenciaram gerações. A autobiografia é uma meditação – por vezes irada – sobre o impacto da fama na vida de um artista. É também uma espécie de romance de formação, que mostra como se cultivou a sensibilidade do músico e letrista.

A importância de Dylan para a música pop é inquestionável. Ele foi o primeiro a mostrar que era possível aproximar as letras de rock da autêntica poesia. Em 1963, ano em que lançou seu primeiro disco autoral (o trabalho de estréia trazia sobretudo versões), a receita de sucesso pop era fazer canções vibrantes sobre garotas e paquera. Dylan, na contramão, decidiu abordar temas como a guerra e os direitos civis. O impacto foi enorme. John Lennon afirmou diversas vezes que os Beatles passaram a trabalhar melhor suas letras depois de tomar um sermão do cantor.

As memórias de Dylan não abordam suas atribulações conjugais nem trazem inconfidências sobre outros famosos. É a primeira vez, contudo, que o cantor desce a detalhes tão reveladores sobre sua formação. Num bom número de páginas, ele fala sobre a influência da literatura em sua obra, do francês Balzac ao russo Gogol. Também descreve seus primeiros tempos em Nova York, cidade para a qual se mudou em 1961, vindo do interior americano, e cujo ambiente intelectual teve papel crucial para ele. Mas o ponto-chave de Crônicas é a relação de Dylan com a fama. Aí se encontra o aspecto mais bombástico do livro: a confissão – convincente – de que ele, tido como o grande guru da contracultura dos anos 60, odiava o epíteto de "Rei do Protesto" e achava todo aquele papo esotérico e bicho-grilo um despropósito. Em vez de se entregar a isso, Dylan ansiava por uma vida em família. "Na vida real, tinha de fazer as coisas que amava – jogos da Liga Infantil, levar meus filhos à escola, fazer rafting, canoagem, pescar."

Dylan chama de "imbecis" e "patifes radicais" aqueles que a todo momento invadiam sua casa e perturbavam sua paz. Segundo ele, o assédio ininterrupto e as cobranças excessivas comprometeram, no fim dos anos 60 e começo dos 70, sua inspiração e seu prazer de criar. "Eu havia escrito e apresentado canções que eram muito originais e muito influentes, mas não sabia se um dia eu faria isto de novo, e não ligava", diz a certa altura. Como resultado da perseguição, Dylan cultivou excentricidades e aos poucos forjou uma identidade nova. Conta de uma ocasião em que encharcou o corpo de bebida alcoólica e entrou numa loja de departamentos, apenas pelo prazer de confundir e incomodar. Dylan admite – como vários de seus biógrafos já haviam demonstrado – que falseou verdades para construir um mito que, de alguma forma, ajudasse a protegê-lo. "A imprensa? Você mente para ela", escreve. Crônicas não desvenda cabalmente o enigma Bob Dylan. Mas é um passo na direção certa.

 

Dylan segundo Dylan

"Eu tinha muito pouco em comum com a geração da qual supostamente era a voz e a conhecia menos ainda. Eu estava mais para vaqueiro do que para flautista de Hamelin"

"Imbecis invadiam nossa casa a qualquer hora da noite. De início, parecia bastante inofensivo, mas então os patifes radicais em busca do Príncipe do Protesto começaram a chegar. Eu queria mandar bala naquela gente"

"Em algum momento do passado eu havia escrito e apresentado canções que eram muito originais e muito influentes, mas não sabia se um dia eu faria isto de novo, e não ligava"

Trechos de Crônicas – Volume Um

 
 
 
 
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