|
|
Livros Flash
Gordon e o tempo perdido Alta cultura e cultura
pop misturam-se no novo e mais pessoal romance de Umberto Eco 
Jerônimo Teixeira
 | |
Entre as incontáveis citações
literárias do novo romance de Umberto Eco, faltou a sabedoria infantil
de Alice, a personagem de Lewis Carroll. "De que serve um livro sem figuras nem
diálogos?", pergunta-se ela, pouco antes de entrar pela toca do coelho
para descobrir o País das Maravilhas. A Misteriosa Chama da Rainha
Loana (tradução de Eliana Aguiar; Record; 454 páginas;
49,90 reais) cairia bem no gosto da menina. Pois a obra tem, sim, diálogos
e muitas figuras: cartões-postais, cartazes, selos, histórias
em quadrinhos, capas de revistas, livros, discos. Essas imagens ajudam Giambattista
Bodoni, o protagonista do romance, a recompor seu passado depois de perder a memória
em um derrame cerebral. Nascido em 1931, o personagem seria apenas um ano mais
velho do que o escritor ou seja, as lembranças que Bodoni procura
são comuns à geração de italianos que, como Eco, viveram
sua infância e adolescência entre os anos 30 e 40, no país
nada maravilhoso de Benito Mussolini. Muito diferente da ficção
histórica erudita que fez a fama e a fortuna do autor desde O Nome da
Rosa, A Misteriosa Chama traz um certo viés autobiográfico:
um livro de memórias, escrito por um homem sem memória.
A história é narrada por Bodoni a partir do ponto em que ele acorda,
em um quarto de hospital, em 1991, depois de um coma. Embora não saiba
nem dizer como se chama, ele conservou aquilo que seu médico designa como
"memória semântica" informações impessoais,
de domínio coletivo. Não perdeu, portanto, o conhecimento adquirido
dos livros. Bodoni leu muitos deles: é um bibliófilo, um antiquário
que vive do comércio de obras raras. Ao ser informado de seu nome, ele
se lembra do tipógrafo do século XVIII que também se chamava
Giambattista Bodoni mas é incapaz de se lembrar do rosto da mulher
ou da data em que seus pais morreram. Talvez para compensar essas deficiências,
o narrador desfia uma sucessão maníaca de informações
históricas e literárias. Mas é tudo letra morta: ele não
é capaz de atribuir um significado pessoal aos versos de Dante, Rimbaud
e Eliot que conhece de cor. De passagem, Eco sugere um paralelo entre a triste
condição de seu personagem e a dispersão informativa da internet:
Bodoni diz que todos serão como ele no dia em que for inventada "uma danação
eletrônica" que permita acessar, no computador, todas as páginas
já escritas. A conselho da mulher, Bodoni
faz uma viagem de redescoberta à propriedade rural de seu falecido avô.
Remexendo em armários empoeirados e caixas esquecidas no sótão,
encontra revistas, livros, discos que teriam sido importantes em sua formação.
São os capítulos mais fascinantes do livro: a perspectiva de um
homem sem memória biográfica permite que o escritor observe os ícones
culturais de sua geração a uma distância segura, sem derramamentos
nostálgicos. Eco dá vazão a seu talento ensaístico
(superior, aliás, a seus dotes como ficcionista) para discorrer, entre
outros temas, sobre Mickey Mouse e a subliteratura aventuresca do italiano Emilio
Salgari (veja quadro).
Ao lado dessas páginas de história
cultural, A Misteriosa Chama ainda traz um subenredo romântico
entre as memórias que Bodoni mais deseja recuperar, está o rosto
de Lila, seu primeiro e maior amor. Eco consegue envolver seu leitor nessa difícil
busca do tempo perdido, mas sua conclusão parece um tanto apressada. As
últimas trinta páginas são um delírio apocalíptico-carnavalesco
de Bodoni (resultado de outro derrame?), no qual os personagens mais importantes
de sua vida desfilam ao lado de heróis dos quadrinhos. Não é
muito convincente como ficção, mas vale pelas aproximações
irônicas entre a "alta" e a "baixa" cultura: na imagem das naves espaciais
e dos homens-falcão (!) que se precipitam do céu depois de uma batalha
intergaláctica contra Flash Gordon, Eco parece redescobrir os motivos divinos
que inspiraram muitas representações renascentistas do Juízo
Final. Um livro com figuras serve mesmo para muita coisa: ensina que Dante e Mickey
podem andar de mãos dadas na memória dos leitores.
| Um baú
de imagens Como Umberto Eco retrata a cultura
popular em A Misteriosa Chama da Rainha Loana
MICKEY
MOUSE "Havia toda uma série de Álbuns
de Ouro com as peripécias de Mickey. Mais lido que os outros, a julgar
pelo estado periclitante do meu exemplar, o Mickey Jornalista: era impensável
que o regime deixasse passar uma história sobre liberdade de imprensa,
mas percebe-se que, para os censores do Estado, histórias de animais não
poderiam ser realistas e perigosas" | The
Walt Disney Company  |
Divulgação
 | ITÁLIA
FASCISTA "Um cartão-postal mostrava
um negro bêbado que alisava com a manopla o umbigo da Vênus de Milo.
O desenhista esquecera que declaráramos guerra também à Grécia
e, portanto, o que deveria nos importar se aquele bruto bolinava uma helênica
mutilada, cujo marido andava por aí de saiote e com pompom no sapato?"
|
| FLASH GORDON
"Era bonito e louro como um herói ariano, mas a natureza
da sua missão deve ter me fascinado. Até então, que heróis
eu conhecia? Dos livros escolares às revistinhas italianas, eram portentos
que se batiam pelo Duce. Gordon não, batia-se pela liberdade contra um
déspota" | Divulgação
 |
Divulgação
 | EMILIO
SALGARI (1862-1911) "De Salgari sempre se fala
até hoje, e críticos sofisticados dedicam-lhe grandes artigos prolixos
gotejantes de nostalgia. Mas o que acontecia no mundo quando um rapaz da Itália
lia Salgari, onde muitas vezes os heróis eram de cor e os brancos malvados?
Salgari deve ter confundido bastante os meus primeiros contatos com a antropologia
cultural" | | | |