Edição 1905 . 18 de maio de 2005

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Cinema
Não é só sexo

Brown Bunny tem uma cena
escandalosa – e algo mais


Isabela Boscov

 

Divulgação
Gallo: cineasta, pintor e chorão

Poucas vezes o Festival de Cannes assistiu a uma cena tão constrangedora quanto a da exibição de The Brown Bunny, há dois anos: a platéia odiou, a imprensa achacou o diretor e este, por sua vez, chorou. The Brown Bunny (Estados Unidos, 2003), em cartaz em São Paulo e Brasília e em breve no Rio de Janeiro, é de fato um filme heterodoxo. Quase todo ele é tomado pela viagem do protagonista, Bud Clay, pelas estradas americanas. Bud dirige, dirige e dirige. Às vezes pára para jantar, ou se aproxima de desconhecidas e as repele sem dizer palavra. Chegando a Los Angeles, Bud recebe a visita da mulher (Chloë Sevigny) em que pensara durante todo esse tempo. Os dois trocam acusações e então ela faz sexo oral nele.– sexo totalmente explícito, o que motivou um considerável escândalo e a sentença de que o filme não passa de um rompante narcisístico do ator, roteirista, diretor, câmera, montador e compositor Vincent Gallo. Aos 43 anos, Gallo é uma figura sui generis, que já foi, entre várias outras coisas, dançarino de boate gay, modelo de Calvin Klein e pintor festejado na Nova York dos anos 80. E é dessa maneira que ele concebe The Brown Bunny: como um ato tão individual quanto a pintura, e tão radicalmente introspectivo que só poderia margear o narcisismo. A quem suportar o tédio e tolerar o escândalo, porém, ele oferece algo mais: a companhia pesarosa de um homem que não só vive suas obsessões como depende delas para continuar vivo.

 
 
 
 
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