Edição 1905 . 18 de maio de 2005

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Cinema
O filme-extremo

No sensacional coreano Oldboy,
violência e razão nunca andam juntas


Isabela Boscov


Christensen: carreira em risco Min-sik: quinze anos em busca de um porquê

Oh Dae-su (o astro coreano, e excelente ator, Min-sik Choi) é bêbado e inconveniente, mas isso não é motivo para que alguém seja encarcerado, durante quinze anos, no que parece ser um quarto de hotel de quinta categoria. Deve haver, então, outra razão – e é ela que Dae-su vai procurar sem trégua a partir do momento em que é libertado, no feroz Oldboy (Coréia do Sul, 2004), em cartaz no país desde sexta-feira. Seguem-se cenas em que um personagem contribui com a língua ou os dentes e o outro com um par de tesouras ou um martelo; uma briga num corredor em que a vítima, com um machado cravado nas costas, causa dor intensa a seus agressores; e uma seqüência já célebre na qual Dae-su devora um polvo vivo, que tenta escapar da garganta do protagonista agarrando-se a seu rosto. Oldboy, portanto, é tido como mais uma criação do chamado cinema-extremo (do qual Irreversível, do francês Gaspar Noé, é outro exemplo), e descartado por boa parte da crítica como uma demonstração de virtuosismo e de sadismo mal-e-mal disfarçado por um pretexto moral. Tanto quanto seja possível afirmar que uma opinião é correta e outra, equivocada, erra quem avaliar Oldboy de forma tão superficial. O diretor Chanwook Park é de fato um virtuose e um dos condutores do movimento que tem feito do cinema sul-coreano a nova grande atração dos festivais. Mas possui também uma moralidade que não é falsa nem rasa.

A vingança, argumenta Oldboy, é uma causa sem causa: quem se enfronha nela não pode parar, porque atingi-la só traria o vazio. E a violência é, por conseguinte, apenas outro tipo de prisão, tão insensata quanto o quarto de hotel de Dae-su – mas sem perspectiva de liberdade eventual. A tese do diretor Park já foi defendida, com resultados menos polêmicos, pelo Francis Ford Coppola de Apocalypse Now ou pelo Clint Eastwood de Sobre Meninos e Lobos. Talvez o coreano assuste é por sua afinidade com outro cineasta implacável, o americano Stanley Kubrick (com quem compartilha o dom de comprimir o máximo de tensão em cada enquadramento): como Laranja Mecânica, Oldboy mostra o ser humano tendendo naturalmente à desrazão e ao caos.

 
 
 
 
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