Edição 1905 . 18 de maio de 2005

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Cinema
Até que enfim

Para os fãs de Star Wars, chegou a hora
de entender o surgimento de Darth Vader.
Quem não é fã também pode suspirar aliviado


Isabela Boscov


Fotos divulgação
Os protagonistas de Episódio III, e, o arquivilão Darth Vader, a melhor criação de Lucas: 210 milhões de dólares e boa vontade não bastam para fazer um bom filme

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Este é o privilégio maior com que um diretor pode sonhar: ter um público cativo, impermeável às críticas mais corrosivas e ao boca-a-boca mais negativo. E é esse privilégio que George Lucas usufrui. A partir da próxima quinta-feira, milhões de espectadores em mais de uma centena de países – entre eles o Brasil – pagarão ingresso para assistir a Star Wars: Episódio III – A Vingança dos Sith (Star Wars: Episode III – Revenge of the Sith, Estados Unidos, 2005) e se enclausurar pela última vez no mundo do diretor/produtor, seja ele capaz de proporcionar alguma satisfação verdadeira ou não. Mesmo os fãs mais renhidos admitiram que Episódio I e Episódio II eram decepcionantes – e ainda assim eles arrecadaram 924 milhões e 649 milhões de dólares, respectivamente, na bilheteria mundial. Diante desses fatos, fazer uma resenha de Episódio III seria já de saída um exercício inútil, não fosse esse o filme que encerra a saga em seis partes iniciada por Lucas em 1977 e define o propósito (ou falta dele) de tanto esforço.


Divulgação
Christensen: carreira em risco

Os efeitos especiais sempre foram um dos elementos mais celebrados da série, e Lucas, desejoso de atender às expectativas, começa A Vingança dos Sith com uma batalha na órbita do planeta que serve de cativeiro ao senador Palpatine, seqüestrado pelos sujeitos do título – cavaleiros que são o oposto dos jedi, já que operam no lado negro da Força. Em seus pequenos caças, os jedi Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor) e Anakin Skywalker (Hayden Christensen) enfrentam uma dupla ameaça: naves que equivalem a uma divisão Panzer galáctica e diálogos ainda mais espessos, que resistem a qualquer tentativa de manobra. Um ponto forte deveria cancelar um ponto fraco (e os diálogos sempre foram um dos calcanhares-de-aquiles de Lucas), mas o fato é que a ação vertiginosa da seqüência de abertura esconde um segredo desabonador: ela é tão rápida e tão escura para que não se vejam seus detalhes mais finos e se perceba, então, que o diretor e seu todo-poderoso ateliê de efeitos, a Industrial Light & Magic, não necessariamente mantêm a liderança do setor. Para fazer uma comparação justa – com outra saga fantástica –, basta computar todos os milhares de efeitos que o neozelandês Peter Jackson não teve medo de mostrar em plena luz do dia em O Senhor dos Anéis.

Acima de tudo, porém, A Vingança dos Sith é o episódio em que a legião de fãs da série finalmente conhecerá sua verdade crucial: por que Anakin migrou para o mal, tornando-se assim o arquivilão Darth Vader. Que ninguém tenha muita pressa. Lucas ocupa quase uma hora inteira com reuniões do Conselho Jedi, duelos de sabre de luz, aparições de criaturas exóticas e constrangedoras cenas de amor entre Anakin e a senadora Padmé (Natalie Portman) até chegar lá. E, quando a revelação vem, metade de seu impacto já se esvaiu: Lucas tem tanto medo de que as motivações de Anakin escapem a alguém que as repisa até as raias do tédio. A Vingança dos Sith, é verdade, ganha impulso nessa segunda metade e oferece uma seqüência realmente decente, a da luta entre Anakin e Obi-Wan Kenobi num planeta de lava. Esses quarenta ou cinqüenta minutos finais serviram para que a crítica americana congratulasse o diretor por ter reinvestido a série de sua "dramaticidade" e seu "tom sombrio". Mas fazer esse tipo de elogio é como atirar um osso para um cachorro magro: depois de tantos erros, finalmente algum acerto, é o que eles significam.

Duzentos e dez milhões de dólares e boa vontade não bastam para que um filme se sustente sobre seus próprios pés. Em toda a série, só o segundo filme, O Império Contra-Ataca, foi capaz desse feito – e essa é a natureza do fenômeno Star Wars, que A Vingança dos Sith explicita tão bem. Ou o espectador carrega para dentro do cinema sua memória afetiva, ou quase com certeza ficará de fora da diversão. Por isso também a série costuma assassinar a carreira de atores iniciantes, como fez com a de Mark Hamill na primeira fase e poderá fazer com a de Hayden Christensen agora: esse é um universo que não tem continuidade com o restante da arte cinematográfica. Na verdade, mal se comunica com ela. É o universo do filme-evento, do merchandising, da confraria de fãs que excluem os demais com seu dialeto e sua historiografia alienígena. Lucas até tenta construir pontes com o mundo real – ao repreender, por exemplo, o aplauso com que os senadores saúdam o cerceamento das liberdades civis ou ao criticar a política que divide as nações entre amigas e inimigas. É pena, porém, que o único som capaz de se propagar nesse vácuo será o do ponto final caindo na série Star Wars.

 
 
 
 
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