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Cinema Até
que enfim Para os fãs de Star Wars,
chegou a hora de entender o surgimento de Darth Vader. Quem não
é fã também pode suspirar aliviado 
Isabela Boscov
Fotos divulgação  |
| Os protagonistas de Episódio III, e, o
arquivilão Darth Vader, a melhor criação de Lucas: 210 milhões
de dólares e boa vontade não bastam para fazer um bom filme |
Este é o privilégio
maior com que um diretor pode sonhar: ter um público cativo, impermeável
às críticas mais corrosivas e ao boca-a-boca mais negativo. E é
esse privilégio que George Lucas usufrui. A partir da próxima quinta-feira,
milhões de espectadores em mais de uma centena de países
entre eles o Brasil pagarão ingresso para assistir a Star
Wars: Episódio III A Vingança dos Sith (Star Wars: Episode
III Revenge of the Sith, Estados Unidos, 2005) e se enclausurar pela
última vez no mundo do diretor/produtor, seja ele capaz de proporcionar
alguma satisfação verdadeira ou não. Mesmo os fãs
mais renhidos admitiram que Episódio I e Episódio II
eram decepcionantes e ainda assim eles arrecadaram 924 milhões e
649 milhões de dólares, respectivamente, na bilheteria mundial.
Diante desses fatos, fazer uma resenha de Episódio III seria já
de saída um exercício inútil, não fosse esse o filme
que encerra a saga em seis partes iniciada por Lucas em 1977 e define o propósito
(ou falta dele) de tanto esforço.
Divulgação  |
| Christensen: carreira em risco | Os
efeitos especiais sempre foram um dos elementos mais celebrados da série,
e Lucas, desejoso de atender às expectativas, começa A Vingança
dos Sith com uma batalha na órbita do planeta que serve de cativeiro
ao senador Palpatine, seqüestrado pelos sujeitos do título
cavaleiros que são o oposto dos jedi, já que operam no lado negro
da Força. Em seus pequenos caças, os jedi Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor)
e Anakin Skywalker (Hayden Christensen) enfrentam uma dupla ameaça: naves
que equivalem a uma divisão Panzer galáctica e diálogos ainda
mais espessos, que resistem a qualquer tentativa de manobra. Um ponto forte deveria
cancelar um ponto fraco (e os diálogos sempre foram um dos calcanhares-de-aquiles
de Lucas), mas o fato é que a ação vertiginosa da seqüência
de abertura esconde um segredo desabonador: ela é tão rápida
e tão escura para que não se vejam seus detalhes mais finos e se
perceba, então, que o diretor e seu todo-poderoso ateliê de efeitos,
a Industrial Light & Magic, não necessariamente mantêm a liderança
do setor. Para fazer uma comparação justa com outra saga
fantástica , basta computar todos os milhares de efeitos que o neozelandês
Peter Jackson não teve medo de mostrar em plena luz do dia em O Senhor
dos Anéis. Acima de tudo,
porém, A Vingança dos Sith é o episódio em
que a legião de fãs da série finalmente conhecerá
sua verdade crucial: por que Anakin migrou para o mal, tornando-se assim o arquivilão
Darth Vader. Que ninguém tenha muita pressa. Lucas ocupa quase uma hora
inteira com reuniões do Conselho Jedi, duelos de sabre de luz, aparições
de criaturas exóticas e constrangedoras cenas de amor entre Anakin e a
senadora Padmé (Natalie Portman) até chegar lá. E, quando
a revelação vem, metade de seu impacto já se esvaiu: Lucas
tem tanto medo de que as motivações de Anakin escapem a alguém
que as repisa até as raias do tédio. A Vingança dos Sith,
é verdade, ganha impulso nessa segunda metade e oferece uma seqüência
realmente decente, a da luta entre Anakin e Obi-Wan Kenobi num planeta de lava.
Esses quarenta ou cinqüenta minutos finais serviram para que a crítica
americana congratulasse o diretor por ter reinvestido a série de sua "dramaticidade"
e seu "tom sombrio". Mas fazer esse tipo de elogio é como atirar um osso
para um cachorro magro: depois de tantos erros, finalmente algum acerto, é
o que eles significam. Duzentos e
dez milhões de dólares e boa vontade não bastam para que
um filme se sustente sobre seus próprios pés. Em toda a série,
só o segundo filme, O Império Contra-Ataca, foi capaz desse
feito e essa é a natureza do fenômeno Star Wars, que
A Vingança dos Sith explicita tão bem. Ou o espectador carrega
para dentro do cinema sua memória afetiva, ou quase com certeza ficará
de fora da diversão. Por isso também a série costuma assassinar
a carreira de atores iniciantes, como fez com a de Mark Hamill na primeira fase
e poderá fazer com a de Hayden Christensen agora: esse é um universo
que não tem continuidade com o restante da arte cinematográfica.
Na verdade, mal se comunica com ela. É o universo do filme-evento, do merchandising,
da confraria de fãs que excluem os demais com seu dialeto e sua historiografia
alienígena. Lucas até tenta construir pontes com o mundo real
ao repreender, por exemplo, o aplauso com que os senadores saúdam o cerceamento
das liberdades civis ou ao criticar a política que divide as nações
entre amigas e inimigas. É pena, porém, que o único som capaz
de se propagar nesse vácuo será o do ponto final caindo na série
Star Wars. |